sábado, 26 de dezembro de 2009

Estrago

Tinha medo de perder as pessoas mas fazia de tudo para perdê-las. E tal sentimento me fez pensar mais em você.
Ah, pequena. O arrepio me percorreu o corpo todo e assim estremeci. Por longas horas imaginei aquela dança, aqueles lábios, aquele olhar, e quis declamar poesias pelo resto da vida.
Mas pessoas não são insubstituíveis, - talvez a sua beleza até seja - e por isso se vão. Como barquinhos, como penas ao vento.
Elogiei tudo o que é, pouco do que foi, muito do que será. O seu caminho de pedras pontudas vai lhe arrancar sangue, mas disseram alguns que valia a pena ser diferente. Inigualável.
Naquele dia quente juro que enxerguei sua alma. E não era pesada, como sempre diz. Era apenas digna de você.
Você, que nesse dia abriu um sorriso que fez com que os últimos raios do sol parecem meros coadjuvantes da tarde. Você que é tão você, e só.
Você que se for embora, vai ficar. E se decidir ficar, vai.
Por entre o caos e a pressa te entreguei um pedaço de mim que sei, não volta mais. Vai como vão os barquinhos, as pedras e as penas.
Você que teve medo mas agora só consegue sentir uma fria compaixão. Aquelas pessoas, assim como eu, eram pontuais.
Sabia, dentro de si, que a vida acaba logo, mas nós acabamos ainda mais cedo. Viu nelas, e em meus olhos, a beleza do não eterno e ah, como ama o passageiro.
Lindo é ser breve. Às vezes deixa marcas permanentes mas ainda assim, lindo.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Sem título

Assistia ao pôr-do-sol e de repente tudo ficou mudo.
Respirou mais uma vez, o peito pesado. Costumava ser mais fácil...
Virou expectadora de cenas que antes protagonizava, assim, diante dos olhos. E a luz encontrou seu rosto como há tempos não fazia.
Lutara por muito tempo mas enfim cansou-se. A esperança - que palavra mais esquisita - ainda morava ali, como quando era pequena. Porém, como boa adulta que agora é, resolveu não escutá-la mais.
Passou e pronto, morreu. Ou, melhor dizendo, passou e ponto. Ponto final.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sobre um quebra-cabeças

Perguntava-se sobre o segredo da vida quando passou pela vitrine daquela loja. Parou para observá-la e lá ficou por muito tempo. Era pequena, discreta e quando comparada às outras lojas era quase como se estivesse se escondendo. Por essa mesma razão, talvez, toda vez em que ela passava por aquela ruazinha, seus olhos saltavam diretamente para aquele lugar.
Era diferente, com certeza. Tinha um ar de mistério, um quê de tesouro. Então entrou: não era nem muito grande e nem muito pequena, nem muito iluminada e nem muito escura. Prateleiras e prateleiras cobriam todas as paredes, mas não estavam nem muito cheias, nem muito vazias.
Viu ao longe uma grande caixa, seu coração bateu mais forte. Era como se tivesse onze anos outra vez. Um quebra-cabeças.
Ao juntar três mil peças veria uma ponte, o desenho dizia. Queria levá-las para casa, espalhá-las pelo chão e depois ir montando tudo devagar.
Foi quando viu ali perto uma outra caixa, um outro desafio. Esse era um castelo, também em três mil peças. Sentiu surgir uma dúvida, mas acabou optando pelo primeiro. O interior de um castelo pode ser formidável, mas por maior que seja, é sempre limitado. A ponte a levaria para um outro lado do mundo, estava certa, onde paredes não existissem.
No caminho para casa olhou para o céu. Há exatamente três dias o Sol não aparecia. Mas voltaria, sabia, ainda que demorasse.
Chegou em casa e praticamente antes que pusesse direito os pés para dentro, rasgou o saco plástico que a caixa continha e espalhou as peças pelo chão. Ah, uma aventura. Prometeu ter mais dessas agora que cresceu, e assim o fazia enquanto pensava "nunca é tarde...".
Cercada por aqueles pedacinhos soltos de colorido que imploravam para fazer sentido sentiu-se bem. Era preciso juntá-los, essa era sua meta, que apesar de trabalhosa lhe transmitia muita calma.
Foram passando os segundos, os minutos, as horas. O tempo de um dia nunca era suficiente, queria mais. Dormia, acordava, respirava aquela ponte. Para onde a levaria?
Enquanto ajustava, peça a peça, a paisagem, pensava em tudo, pensava em si: "Por que vivo presa nesses labirintos?", "Por que as pessoas crescem?", "Felicidade existe?", "Por que o tempo passa?", "É possível viajar no tempo?", "Algum dia serei... inteira?".
Duas peças se encaixaram. Uma vermelha, uma roxa. Não fazia sentido... Passou um domingo inteiro apenas com aquelas duas e pensou na ironia do destino, nem tudo é o que parece. Eram de perfeito encaixe mas não ficariam mais uma ao lado da outra. Irônico, no mínimo irônico. Separou-as então e continuou focada em seu objetivo, a imagem toda tinha que fazer sentido.
Talvez fosse aquele o segredo da vida: tardes comuns transformadas em jornadas fantásticas apenas com a magia de pedacinhos de uma ponte.
Três mil peças. Três mil. Uma alta dificuldade para uma alta recompensa, uma alta satisfação. Isso se não desistisse...
Com o passar do tempo, a imagem foi ficando visível. O verde e as flores tornavam tudo ainda mais encantador, o cenário perfeito se construía aos poucos. Peça a peça. Peça, peça...
Por fim tudo se encaixou. Colou-a e nesse momento a ponte está sendo emoldurada, vai morar na parede, elegante e enigmática.
E ela? Ela vai voltar à loja amanhã, quem sabe, isso se não desistir.
Montar um quebra-cabeças é um jogo. É bom, porque quando joga aprende muito sobre si mesma, e sobre o mundo também. Sabe, metade do segredo da vida é se apaixonar por metas. A outra metade é alcançá-las. E depois declará-las gentilmente.
De modo sutil discorrer sobre divertimentos de criança que são, na essência, muito adultos. Falar de quebra-cabeças quando na verdade se fala de...
Enfim, foi dormir. Nos próximos dias ela vai se perguntar de novo sobre o segredo da vida e procurar a resposta em uma loja charmosa cheia de desafios, castelos e pontes.
Mas é tudo só brincadeira, não é verdade?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ocorrido recente

De repente tudo ficou preto. Prédios, avenidas, cidades, estados. Já era noite mas estavam todos acordados e por essa razão aquela luz clara e forte se fazia necessária.
Foi assim, do nada. O mundo a andar frenético e ela parada em seu próprio frenesi, um dia como outro qualquer.
Barulhos, barulhos, distantes, tão próximos, barulhos... Desejou secretamente trocar de lugar com o planeta, que mesmo caótico é, em um balanço geral, quase feliz. Iluminado, com certeza. E privilegiado por poder ser assim tão grande e ao mesmo tempo apenas uma bolinha azul flutuando no nada. Ah, quanta existência num pontinho no breu. Que grande, grande, tão grande somente pontinho é.
As pessoas iam de lá para cá e de cá para lá como sempre foram, naquela noite comum. Mas aí aconteceu. Num ordinário segundo, completamente ao acaso, tudo, tudo, tudo, tudo ficou preto.
Acabou a luz, quem diria. Será que demora muito para voltar? Ah, o desespero.
O desespero de um mundo que simplesmente não funciona.
Correram todos para algum lugar. De volta para casa, para longe dali, em busca de uma resposta... Saíram. Não ficou mais ninguém.
Estavam agoniados, era visível. Todos, menos ela.
Ela sorriu. O mundo no escuro e ela foi para o claro, trocaram de lugar. E não é que dizem mesmo "cuidado com o que deseja"?
Surpreendentemente, dormiu. A noite, ainda botão, pediu que esperasse virar flor formosa e aberta mas ela nem ao menos ouviu. De madrugadas insones passou à maciez do travesseiro e ao conforto dos sonhos.
Justamente assim como conto, foi. Era bonito de se ver. O mundo caindo e ela dormindo, só. Ah, quanta existência num pontinho no breu. Que grande, grande, tão grande somente pontinho é.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Relatos de um novo/antigo Eu

São novas descobertas todo dia. Descobertas essas que teimei em escrever para não esquecer depois. Mas o que a memória ama não fica eterno?
Quero dar um passo maior do que consigo, carregar nas costas o peso de um mundo que não aguento, deixar um pouco mais para depois. Mas depois...?
Nesses últimos dias ando pensando mais em mim mesma. Não descobri se o mundo é bonito ou não. Talvez eu de fato queira que o céu seja vermelho, aí quem sabe tudo ficaria diferente. Mas se ficasse...?
Quando era pequena, chegava à beira do rio e via as águas dançando muito rápido, como eram bonitas.
Logo quis ser água, ainda quero. Transparente, mas não vazia. Descer montanhas e passear pelo mundo.
Evaporar.
Chover depois.
Inundar tudo.
Desviar das pedras ou passar por cima delas...
E não pensar em crescer, não pensar em doer.
Agora não mais vejo o rio a um passo de distância mas frente aos olhos as pessoas passam como água. À algumas desejei calmaria, à outras tempestade, mas de uma forma ou de outra elas sempre passam. Dançantes...
Estou parada apenas a observar ou com a correnteza também vou? Se fico, seca. Se pulo, afogamento. Então...?
Descobri que silêncio às vezes me mata mas barulho demais me incomoda. Eu não faço sentido?
Sou contraditória e finalmente aprendi a reconhecer tal fato. Contraditória e, recentemente, cheia de dúvidas. Mas essas dúvidas não estiveram sempre aqui?
Ali, parada no leito do rio e olhando para baixo, fiquei encantada. Havia muita água mas eu podia ver o fundo, só não sabia se estava perto ou longe.
E logo quis ser água, quis ser água mais ainda. Para que vissem através de mim e mesmo assim não entendessem, não descobrissem quão longe é o fim (só descobre quem se decide, com ou sem medo, se molhar).
Exijo coerência de pessoas incoerentes e linearidade de uma vida que pode ser tudo, menos linear. Eu não faço sentido.
Sabe, talvez eu seja um pouco água. Um pouco água dos rios da contrariedade, um tanto quanto divertidos.
Água que no meio de frases desconexas procura algum significado. Que em novas e antigas descobertas vive um ciclo de transformação apenas para ser sempre a mesma, mas que ainda quer descobrir qual é sua profundidade.
Lá, perto do rio e sem mover um músculo, vi que é possível parecer raso mas ser profundo e o contrário também. Quanta complexidade em algo tão ordinariamente simples. Ou quanta simplicidade em algo tão ordinariamente complexo.
É, talvez eu seja um pouco água. Ou talvez eu seja um pouco água demais.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Antonímia de desenlace

Começou como uma sementinha de uma planta que um dia resultaria em uma linda flor. Mal sabia eu de seu veneno.

Eu, justo eu, que deveria estar acostumada com venenos à essa altura da vida. São doces e perfumados, em caixas bonitas e com um laço em cima para dar o toque final.

O coração acelera: um presente.

Fui regando com idéias, talvez cedo demais. Apesar de ter certeza de que a culpa não era só minha, assumi-a com coragem. Coragem essa que todo dia aprendo a ter. Recuso-me a ser como ele, que se poupa de tudo, sem saber que o medo absurdo de sofrer e o constante cuidado para que isso não aconteça podem se tornar um sofrimento por si só. Eram dias coloridos esses que eu enxergava.

Eu não pedi para sempre, eu não pedi nunca mais. Eu pedi hoje. E para hoje não há desculpas pois hoje não existem barreiras, hoje não é amanhã. Mas ainda assim...

Pobre de mim que, inocente, alimentei tal ilusão. De novo, não sozinha. Fala por si só a intertextualidade que as letras comprovam, então não foi tudo invenção.

Não quero pensar que foi maldade. Isso não se faz com ninguém, deixar tudo ir caminhando quando se sabe que, adiante, o objetivo é continuar no mesmo lugar. Mas preciso lembrar a mim mesma, constantemente, que além da coragem que preciso aprender a ter (que se faz necessária cada vez que se cruzam nossos olhos), preciso aprender também que só porque eu não teria coragem de fazer algo, não quer dizer que os outros não tenham.

Talvez eu tenha crescido um pouquinho mais. Um pouquinho mais rápido também.

Cresceu, cresceu comigo e saiu de baixo da terra. Foram embora as metáforas, e virou um brotinho de dor.

Nessa noite me permiti uma lágrima e só. Foram duas, evidentemente, já que as regras que devo seguir - até mesmo aquelas que eu imponho - são quebradas pela minha mente e corpo sempre. Mas foram duas e depois parei. Olhei para o céu escuro e repeti mil vezes “vai passar”, e vai, ainda que contra a minha vontade.

Ando escrevendo muito mais, isso devo admitir. Então o veneno do seu presente que me mata faz também com que eu respire de novo, suponho que deva agradecer.

Agora os dias passam cinzentos como antes. Sou obrigada a conviver com essa dor pequena que não chega a me sufocar mas me incomoda. Um brotinho de dor nas minhas terras inférteis...

Um brotinho de dor que não vou matar, vou deixar lá. Ou cresce ou morre sozinho.

Um brotinho de dor pelo qual eu deveria dizer obrigada. Então... obrigada?

Um brotinho de dor de presente, quão poético. Se o que procurava era poesia não tem como dizer que não me deu.

Um brotinho de dor venenoso que um dia devolvo como flor para ele colocar na estante. Mais uma, apenas. E só de pensar que quis ser tão mais...

domingo, 1 de novembro de 2009

Desenlace

Querido Eu,
Se eu tivesse um diário, talvez hoje suas páginas estivessem preenchidas. Frenética e dolorosamente.
Mas é talvez, só talvez. Uma palavra que eu não gosto mais.
Eu não consigo filtrar essa existência em mim. E quem sabe seja por isso que me baste só... Quem sabe seja por isso que precise ir...
Voltei a escrever ao som de violinos, você sabe. Fecho os olhos e enxergo cores um pouquinho mais vivas, mas ainda não decidi se isso é bom ou ruim, achei que fosse uma apreciadora do silêncio...
Acabei de olhar para o relógio: quatro e vinte e um. Metade do que escrevo vem de um lugar que eu não conheço, a outra vem de sonhos que à essa hora se misturam com a realidade.
Todos estão dormindo... Silêncio, silêncio... Em mim, tanta coisa para rompê-lo. E o farei, um dia, quando voltar. Talvez, mas só talvez.
No próximo fim-de-semana vou esperar o sol sair, colocar meus óculos escuros e sentir o vento no meu rosto da janela de um carro sem destino. É claro que não se compara à mãos frias no meu cabelo, mas ainda assim...
Percebi que minhas frases andam terminando em reticências ultimamente. Acho que não quero ter de terminá-las sozinha, mas essa é somente uma hipótese, um talvez. Só mais um.
Coloquei-me a dançar nesses últimos dias e acabei tropeçando em mim mesma. Senti o chão gelado mas vi o céu. Nuvens e bolhas preguiçosas. Um dia vou escrever um livro sobre idas e vindas, escolhas e destino.
A folha me encarou e eu a encarei de volta como já fizera momentos antes. Olhos dizem tanto...
Então pensei muito no que dizer, se é que me entende. Não ia falar nada até descansar a mente, mas cá estou (quem mandou não ser mais uma dessas pessoas do resto?), pois amanhã não vou mais me lembrar das borboletas no estômago.
Não cabe mais ninguém em mim e mesmo assim as opiniões só aumentam. Será que estou ficando louca?
Depois de dormir vou acordar diferente, como todos os dias. E palavras antigas não terão o mesmo valor.
Vou aprender a mentir melhor e a me jogar menos. Mas tudo isso é apenas um gigantesco talvez. Essa palavra estranha que não gosto mais.
Vou embora. E você... Você eu não sei. Vá dormir e sonhar com dias mais fáceis. Com finais felizes ou ovelinhas. Sonhe com saber quando falar e quando parar, com rios correndo montanhas, planetas suspensos no vazio.
Sonhe branco, que é tudo de uma vez, ou preto, que não é nada. Seja o preto que absorve ou o branco que reflete... Seja o que quiser, quando quiser, quantas quiser.
E não pare de brincar com as palavras, como sempre brincou, mesmo quando eu for. Tentarei chamar aquela pequena para consertar seus últimos erros...
Sabe, é tudo um grande talvez, mas eu era sim ou não. E ser preciso em terras de imprecisão pode ser um jogo perigoso.
Deixo-te bem, eu sei. Para tentar ser de novo.
Saudade? Quem sabe...
Vejamos o lado positivo: agora não sou nunca e nem com certeza. Sou longe.


Até, talvez, breve.
Eu Profundo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Das quatro às seis

Eram quatro horas. Manhã ou madrugada? O sol logo ensaiaria sua triunfante saída, mas o céu ainda se vestia todo de preto. Preto como a escuridão do fundo do mar, como o fundo de um poço. Tinha tantas tarefas a fazer naquele dia... Coisas que deixou para mais tarde sem saber que depois da meia-noite o amanhã já é hoje.
Se o céu fosse mesmo o fundo de um poço, significaria que estava no topo. Mas quando em cima há ainda muita distância para se cair, então pensou o topo ser do outro lado do céu, tão, tão, tão distante que nem ao menos visível.
Vai descobrir os mistérios do Universo? Quem sabe...
Quatro horas e meia. Como começar? "Era uma vez um amor que já nasceu meio-morto e uma dor que nasceu viva demais...", "Era uma vez uma boneca de cristal de meias coloridas que veio com defeito de fábrica...", "Era uma vez num reino distante um mundo de aparências...". Não. Era uma vez uma princesa que caminhava pela floresta e tropeçou num monte de dúvidas.
Quinze para as cinco. Prometeu não falar mais dele, nunca. Mas os dedos coçavam e a mente, em um segundo sem vigilância, viajava para longe dali.
Era romântica, incurável e orgulhosa. Impunha provas extraordinárias, livros e músicas, era cheia de poses. Poses essas que seguiam uma ordem minuciosa que aos olhos dos outros se faziam dança mágica e arrebatedora. E assim ia: passo a passo, poça a poça, em movimentos graciosos.
Aquilo, é claro, era mentira. Ainda bem que nas madrugadas sua companhia era o vento e o preto. O preto como o fundo do mar que o céu vestia. Eles conheciam a verdade, mas não diriam a ninguém.
Cinco horas. Como continuar? "Se deixou levar, não sabe como, por devaneios e sonhos solitários...", "Quis que o príncipe enxergasse suas asas, mas ele talvez visse apenas mais uma moça de vestido...". Não. Não contou à ninguém que no baile de máscaras mostrou à ele seu verdadeiro rosto.
Cinco e quinze, e destruiu os muros ao seu redor apenas para construí-los dali a algumas horas. Dava-se ao trabalho por conta de alguém dentro de si que, apesar de preso, ganhava todo dia minutos de liberdade e tentativa: podia tentar dizer a verdade até que os muros se erguessem de novo, então tentava sempre. Talvez por isso não consiga dormir direito: para fugir.
Não importavam os grandes atos, importavam os pequenos. Do fundo de um coração doído pulsava a vontade de ser pequeno mas preenchido, e de uma alma também doída transbordava o anseio de uma outra confissão vinda do outro lado. Ele não dizia porque não sentia, simples assim. Então uniam-se alma e coração para desejar que aqueles olhos escuros como o céu que veste preto vissem graça na dança.
Cinco e meia. Falar mais o quê? "Aí os dias iam passando e o temido futuro se aproximava", "Chegou no ponto final, na despedida. Ela de vermelho e ele de preto, sorriu", "Imaginou o que teria feito diferente...". Não. Àquela altura não esperava mais nada.
Seis horas. Mira sempre para o alto, mas cai. Cai do topo de um poço ou do fundo dele, mas cai, se afoga. E as asas, como ficam?
E então, como fica? Como fica?
Fica assim: "Era uma vez num mundo de aparências uma princesa de cristal que sentiu nascer em si um amor e tropeçou num monte de dúvidas. Se deixou levar, não sabe como, por devaneios. Mostrou ao príncipe seu verdadeiro rosto, e esperou que exergasse suas asas. Porém os dias foram passando, até que chegou a despedida. Ele de preto, ela de vermelho, sorriu, mas àquela altura não esperava mais nada.
Aquilo, é claro, era mentira. Dançava graciosa aos seus olhos, passo a passo, poço a poço, topo a fundo, fundo a topo. Prometeu não mais falar dele, nunca. Mas vai descobrir os segredos do Universo, quem sabe, e ver, de novo, que não importam os grandes atos.
Ela mira sempre para o céu, que veste o mesmo preto do fundo do mar, o mesmo preto dos olhos dele. Logo mira sempre para seus olhos, para cair, cair e se afogar, se afogar, até que o sol ensaie sua triunfante saída.
Amanhã de madrugada - o amanhã que não é hoje - quando os muros caírem, ela vai fugir de novo com o vento e o preto. Ah, o preto-céu de seus olhos, o preto de seus olhos-céu".

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Eco

Ele não está mais lá. Não está.
Contente-se em ficar sozinha. Sozinha.
Seu caminho já traçado. Está?
Vou contar para todo mundo. O mundo.
Que ser assim tanta gente não é justo. Não é justo.
E querer que alguém te queira também não. Nunca foi.
Que sentir dores extendidas. Ampliadas.
Perdidas pelo horizonte. São as minhas.
Matam-me por dentro e por fora. Feridas.
De amor, de amor. De guerra.
E eu que sou tantas pessoas... Separadas.
Ele disse que o dado se joga. Por pontos.
As cartas na mão. Minhas frases.
Os problemas dentro de mim. Poesia.
Que se atiram ao mar de rochas. Vão caindo.
Com medo de ser feliz. Como eu.
E buscam somente alguém. Sem rumo.
Alguém como ele. Sem destino.
Alguém para estar lá. Sem propósito.
Mas ele não está mais. Eu sou só.
Desistiu? Estou só.
De mim, que sou. Quebra-cabeça.
Agora quero que faça. Preciso que faça.
Acorde, diga, me dê. Sentido, sentido.
Faça-me sorrir. Faz?
Porque agora, em mim. Só tem eco.
E me pergunto a toda hora. Onde está.
Ele que foi, e que vai preencher o meu. Vazio.
Ele que volta para preencher o meu. Vazio.
Beber de um copo d'água sempre. Sempre.
Meio-cheio e não meio. Vazio.



Não está. Sozinha. Está? O mundo. Não é justo. Nunca foi.
Ampliadas. São as minhas. Feridas. De guerra.
Separadas. Por pontos. Minhas frases. Poesia. Vão caindo. Como eu. Sem rumo. Sem destino. Sem propósito.
Eu sou só. Estou só. Quebra-cabeça. Preciso que faça. Sentido, sentido. Faz?
Só tem eco. Onde está. Vazio. Vazio. Sempre. Vazio.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Festas e Flores

Via flores em qualquer canto para onde meus olhos fugissem, arranjos majestosos. Lírios, cártamos, fotínias, azaléias, avencas, violetas...
Era noite, mas as luzes espalhadas pelo chão iluminavam o verde e o colorido da florada. Estava ali para me divertir, tudo era belo, tudo era longe. Longe dele.
A música alta fazia vibrar os corações daquelas pessoas que pareciam saber apenas sorrir. Murmuravam algumas palavras - nada de muita importância - e se deliciavam em longas gargalhadas. Eram todos grandes amigos, mesmo que só por algumas horas.
Enquanto atravessava o grande salão, podia sentir os olhares que vinham de encontro ao meu corpo. Sentia-me receosa mas também encantada. Aquele lugar era, de algum modo, especial.
Primeiro, andei de um lado ao outro examinando o ambiente, não sentia segurança suficiente para permanecer onde estava. Algo estava faltando. Talvez no recinto ou dentro de mim, mas faltava. Senti a velha angústia no peito e resolvi afastá-la: essa não seria mais uma daquelas noites, decidi. Até que finalmente, depois de alguns longos minutos, parei de perambular pela festa.
Tudo lá tinha uma beleza diferente. Pensei que isso se dava pelo simples fator da distância, aquele era um mundo onde há tempos não estivera, muito distinto do meu. Ali não estavam as mesmas pessoas, não se viam os mesmos padrões. Ali os assuntos não eram iguais, as decepções eram outras. Ali não havia vestígios da existência dele.
Respirei aliviada. Esse novo mundo anulava o antigo da mesma forma que o antigo anulava o novo. Cabia à mim ajeitar-me por entre as confusões que duas realidades simultâneas podiam causar, e assim o fiz, pelo menos por um pouco de tempo. Depois lembrei-me de que naquele local não havia marca alguma que deixara porque ele, em sua costumeira inteligência, preocupou-se em marcar tais vestígios em mim.
"Deixe para lá", dizia uma voz que vinha de dentro. E quis escutar.
Olhei as mulheres que dançavam enquanto os homem discutiam seus defeitos e atributos, e lá também me atirei, sem me importar com os cochichos - os que escutava vindos da minha mente eram bem mais díficeis de ignorar.
Continuava a música quase ensurdecedora e de repente me vi livre. Não estava nem em um mundo nem noutro, estava na linha divisória, na fronteira, em dois lugares e ao mesmo tempo em lugar nenhum.
Era magnífica a sensação de liberdade. Por tanto tempo me prendi à ele, em silêncio, e agora que não estava lá tinha tempo para mim mesma. Podia sorrir e admirar as luzes, a lua, as flores.
Calêndulas, dálias, frésias, camélias, gérberas, papoulas... Papoulas? Mas isso não...?
Maldito seja. Não me deixa ter comigo nem ao menos dois segundos de paz. "Esqueça, esqueça...", dizia a voz. E quis de novo escutar.
Já era tarde mas a magia das luzes ainda não se perdera. Os outros me viam com olhos de desejo, eu sabia. Sabia e não me importava. Àquela altura da madrugada todos estavam um pouquinho mais felizes do que o de costume, tinham todos se deixado levar pela maré da descontração. Vi diante de mim a oportunidade de ser quem quisesse, de realizar qualquer aventura, eles não se importariam porque não lembrariam de nada depois. Aquele era um tempo para mim, outra vez.
E outra vez não me deixei levar porque fiquei presa ao meu louco desejo, mesmo que improvável, de vê-lo entrar pela porta.
No fim, voltei para casa. O sol já iluminava a paisagem e o encanto já estava desfeito. Não consegui dormir, como de costume. Indaguei-me sobre minha triste situação. Estava cansada de fugir para outros lugares e lá - onde quer que "lá" seja - sempre encontrá-lo.
Festas e descuidos oferecem esquecimentos momentâneos, a magia das luzes eventualmente se apaga. Mas eu continuo a enxergar lírios, cártamos, fotínias, azaléias, avencas, violetas, calêndulas, dálias, frésias, camélias, gérberas e papoulas onde quer que ele esteja. E essas malditas flores que se negam, ainda bem, a morrer.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Fortúnio

Juntou seus pertences em uma mala e foi, não olhou para trás. Era por pouco tempo, mas mesmo assim exigia coragem. No caminho, olhava para cima o tempo todo, o céu estava azul, azul, somente azul. Verde algumas vezes, quando passava por uma árvore. Sentia a sombra beijar seu rosto e ir embora, familiar...
Ouvia silêncio e nada mais do que silêncio, como gostava de ser assim. Há dias não escuta mais ninguém apenas pelo luxo de poder não se importar, ou de tentar. Tentar até conseguir. E conseguiu.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Chuva, infância e quase.

É o último dia de Setembro, nove meses correm inspirados em segundos enquanto eu continuo escutando músicas sobre a chuva.
Quando era pequena, brincava de ser quem não era. Uma atriz famosa, uma estilista, por vezes médica, mas na grande maioria das minhas aventuras inventadas era uma heroína que sempre salvava o mundo. E adorava. Uma identidade secreta.
Nas conturbadas ruas das minhas cidades imaginárias falavam muito sobre mim. Elogios ao pé do ouvido, e eu ali, rindo por dentro. Ninguém sabia que era eu. Atravessava continentes em menos do que dois minutos, destruía meteoros, resvalava os esquemas da máfia e voltava para o trabalho saboreando uma maçã. É claro que realizar tantos esforços ignotos algumas vezes me esmoreciam, mas quando chegava em casa me via cercada de uma realidade puramente particular.
Muito tempo de minha existência passei brincando disso. Com esse tempo meus inimigos foram ficando mais poderosos, é claro, e minhas peripécias se tornaram perigosas. Foi em um dia chuvoso, como esse da música, que minha saga engendrada encontrou seu fim: nunca consegui vencer a vilã que a cidade mais temia. Tínhamos a mesma aparência, as mesmas fraquezas - apenas os pensamentos eram invertidos - mas por algum motivo ela era mais forte do que eu. Vestia uma roupa toda preta e eu admirava sua elegância, arquitetava um plano maléfico e eu admirava seu sorriso. Não se importava com as outras pessoas e eu admirava sua coragem. Lutávamos no topo dos altos edifícios, nos laboratórios secretos, em ruas desertas e eu quase conseguia vencê-la. Quase.
Depois de incansáveis tentativas, minha disposição se mostrava não tão incansável assim. Parei de visitar tais esquinas da mente e deixei que o tempo fizesse seu trabalho em apagá-las da memória.
Mas da memória essas esquinas não saíram e da boca o gosto do quase não escapava.
E eu hoje, menina-mulher, ainda brinco de ser quem não sou. Salvo o mundo da maneira que posso, louca e desajeitada. Atravesso calçadas em mais do que dois minutos, destruo medos que insistem em voltar, resvalo planos absurdos que algum Eu dentro de mim insiste em tornar realidade, saboreio uma maçã. É claro que realizar tantos esforços ignotos algumas vezes me esmorecem, mas quando chego em casa e escrevo me vejo cercada de uma realidade puramente particular.
Brinco de ser pequena em minha pose de gente grande, saltitando para lá e para cá sob a proteção da minha identidade secreta, ao som de músicas que ainda falam da chuva.
Já é o último dia de Setembro e o tempo passa rápido demais, caprichos tolos são cada vez mais inaceitáveis.
Mas, cá entre nós, ainda encontro com a mesma vilã, que agora me ameaça ao me tirar palavras. E fica no corpo o mesmo peso do quase.
De repente, tudo vira quase. A risada silencia e quase, o sorriso fecha e quase, os olhos choram e quase.
A chuva cai e quase. Eu quase sou, mas quase. Sempre quase.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Delírio

Silêncio, enfim.

-
Você voltou?
-
É primavera.
-
Mas continua chovendo...
-
Senti saudade de casa. Vocês bagunçaram tudo.
-
Eu não fiz nada.
-
É, você nunca faz...
-
Você, ainda irônica?
-
Sempre será.
-
Só não façam barulho! Ela não pode acordar.
-
Não vamos acordá-la. Ela não tem dormido bem nesses últimos dias. Chegou hoje esgotada, tirou o lenço do pescoço e deitou, duvido que algo a acorde.
-
Mas fazemos tanto barulho...
-
Ela nunca escuta. Ou escuta, e ignora.
-
Não importa. Vim porque decidi o que fazer.
-
E o que foi que te acordou?
-
Ele me deu um beijo.
-
Mas isso não...
-
Eu sei que não.
-
Não sei como. Ninguém conseguiu...
-
Você agora vê o mundo como eu vejo? Colorido?
-
Vá brincar por aí, essa conversa não lhe diz respeito. Talvez quando for mais velha...
-
Sabe muito bem que isso é impossível. Não fale desse jeito. E sim, agora vejo.
-
Isso é ruim, muito ruim. Não há um meio de voltar atrás?
-
Eu não quero voltar atrás.
-
Pois não volte. Tenho certeza que é recíproco.
-
Pois eu tenho certeza que não! Alguma vez você entendeu o que ele disse?
-
É claro que entendi.
-
Às vezes, não.
-
Talvez não seja o que penso ser. Quem sabe... Ei! Aonde você vai?
-
Brincar por aí. Estou com vontade de suco de manga. Continuem...
-
Enfim, não me importo. Sempre segurei minhas cartas na mão e escondi meu jogo, saí vencedora. Mas não vou agir dessa forma agora. Vou dizer e pronto.
-
Investir em um amor com prazo de validade? Ele vai olhar para outras pessoas, você sabe disso. Há tantos encantos melhores do que os seus.
-
É claro que não. Você sabe que é única.
-
Eu constantemente duvido.
-
É única em seus delírios, não devia ser assim. Nada tentador e nem digno de elogios.
-
Pare de falar dessa forma. Deve ter alguém no mundo que acha sua poesia encantadora, tem que ter.
-
E esse alguém é ele?
-
Queria muito que fosse...
-
Duvido que seja. Ele já escreveu para você?
-
Já.
-
Já?
-
Então ele sabe... E não fez nada, porque nada sente.
-
É claro que sente.
-
Quem sabe não sinta. E se...
-
Chega. Não vou mais discutir, é inútil, chegamos sempre a lugar nenhum.

Silêncio, enfim.

- Sabe, é nele que penso quando fecho os olhos.

- Eu também.
- Eu também.
- E eu também.


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Cochichos e Cochilos

Era uma vez num sonho. Uma sala cheia de gente cheirando à hormônios e impaciência. Lá fora, o verde e o vento convidavam todos a uma visita ao sol...
Por entre exclamações e segredos, a Bela Adormecida tirava uma soneca em seu sono profundo: Bem-vindo à um mundo de discordâncias!
De olhos bem abertos, vossa alteza examinava o recinto: amarelo, amarelo, amarelo, azul. Ele estava lá, de branco, de preto, de roxo, de tudo. Menos amarelo. Ou azul.
As pessoas dançavam, pareciam se divertir. Elas não queriam sair de lá? Um castelo gótico, um tanto quanto sombrio, no alto da mais elevada montanha era, no mínimo, opressivo.
Deixou para lá. Não havia escapatória. E alguma vez já houve?
Ele se aproximou devagar. Sua elegância descabida era injusta ao resto do mundo e ao resto dos príncipes, tão singular...
Sentou-se ao lado da princesa entorpecida, disse-lhe um tímido "Olá". Sondou seus anéis de ouro, apetrechos, maquiagem. Era tão bonita... Como todas as outras?
Enquanto isso, lá fora, o verde e o vento convidavam todos a uma visita ao sol... Ela queria sair. Não tinha jeito.
Trocaram os dois algumas palavras, ela desviava o olhar com medo de que ele percebesse suas falhas que, apesar de muito bem escondidas, estavam constantemente à mostra.
Palavras para cá, palavras para lá, muitos, muitos e muitos sentidos. Ela brincava com ele e ele com ela, já era tarde demais, tudo corria bem.
Em um instante, porém, entre o bocejo de alguém e a luz vermelha que se disseminava por todo o local - resultado do brilho insistente do sol atravessando o vitral da rosácea - ele pôde ver de perto os olhos distantes daquela moça que escondiam um grande segredo. Como pode alguém querer ser Capitu e ainda assim acordar com um beijo?
Ela pediu aos céus que ele não se assustasse, que enxergasse direito - até ali ninguém realizara tal proeza. Distinguia-se das outras princesas porque não entregaria seu coração em uma bandeja de prata, fantasiava. Deu-lhe então uma caixinha de madeira que não se abria com chave nenhuma ou com força alguma, apenas com peças. Conseguiria ele desvendar um enigma?
Não havia muita esperança. Depois de aberta a caixa, exigia mares transpostos e dragões domados, ninguém chegou até aí também.
A valsa continuava e ao mesmo tempo em que as risadas ecoavam pelo cômodo, o verde e o vento, lá fora, convidavam todos a uma visita ao sol...
Bela Adormecida se levantou e se retirou. Deixou-o lá, inerte. E todos os amores não começam assim?
Saiu a princesa e já estava aprisionada, ele mal sabia. Resgatá-la de uma torre ou encontrar seu sapatinho agora eram atos de coragem nulos. Ela se preocupava em descobrir se o que vestia era rosa ou azul, mas foi dormir pensando nele - e ele nela, mas ninguém podia saber.
O restante das surpresas sempre fica para o amanhã. Os dois inundados em cochichos e cochilos, azuis, amarelos, vermelhos, brancos e rosas, enquanto - é claro - lá fora, o verde e o vento convidam todos a uma incrível visita ao sol.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Doce Delícia

Ela sempre foi uma menina diferente. Guardava suas bonecas arrumadinhas no armário, lhes desejava boa noite. Cresceu aprendendo a ser cuidadosa.
Diziam que era doida, a menina constituída de ingenuidade. Não se importava. Com seus sapatinhos coloridos dava um passo após o outro, sem nunca olhar para trás (mas sempre pensando no que estava acontecendo por lá).
Encantava a todos por onde passava. Vestia suas fantasias, sorria para a câmera, prendia no cabelo uma coroa e se admirava no espelho: é, ficava bem assim.
Certo dia ganhou de presente uma varinha mágica. Quando descobriu que podia fazer quantos pedidos quisesse, não soube por onde começar. Era bem melhor do que uma lâmpada, evidentemente, mas a conveniência de poder ter tudo o que desejasse lhe parecia estranhamente incômoda. Resolveu não usá-la, ao menos por algum tempo. Dedicou-lhe seu carinho, como fazia com as bonecas, e a guardava em uma caixa almofadada todos os dias antes de ir para a cama. Sabia que, quando chegada a hora, seu talismã prateado com uma estrela na ponta seria de bom uso.
Mas os anos vão passando e, com eles, a inocência. A doçura desvanece e o que fica guardado em velhas caixas tende a ser esquecido.
Cresceu. Ninguém sabe ao certo quando. Foi dormir menina e acordou mulher.
O cotidiano a ensinou a ser severa. Construiu ao seu redor uma muralha, ensaiou a mesma resposta tantas vezes no espelho que agora alega acreditar nela. "Estou bem", e sorri convincente. Ou quase.
Levanta todos os dias e passa pelas bonecas desajeitadas. Nem todas sobreviveram, ficaram apenas as preferidas. Sente uma pontada de dor no peito mas continua andando, ainda não foi inventado um relógio que conte o tempo para trás.
Vive bem, até. Adulta. O mundo de "gente grande" é bem diferente do que conhecia. O doce sabor dos suspiros recheados e dos rocamboles de chocolate foram substituídos por amargas decepções, conclusões azedas. Apenas fantasias permaneceram, todavia bem diferentes. Ao invés de vestidos de princesa agora vestia ânimo, contentamento, satisfação.
Em uma dessas tardes frias, porém, encontrou-se diante de uma relíquia esquecida, fascinação de longa data. Uma caixinha almofadada por dentro.
Podia pedir o que quisesse, qualquer coisa no mundo, mas não o fez. Guardou a varinha novamente em seu lugar e colocou a caixa ao lado das bonecas esquecidas. Ficou surpresa com sua decisão - achava que assim que pudesse ter uma chance de mudar tudo o que lhe incomodava, a aproveitaria aprazivelmente. Mas depois de alguns segundos sabia que fizera o certo. O poder de mudar absolutamente tudo nunca lhe pareceu atraente, gostava das coisas assim, sem controle. Fazia parte da aventura que era não viver dias iguais.
'Em alguma parte do caminho sempre perdemos o que somos', concluiu. 'É inevitável. Deixamos de ser para virar o que fomos'. Prometeu não fazer mais isso. Ia abrir mão de suas fortalezas modernas que cercavam seu território.
Em alguns poucos dias, porém, a alegria inventada e instantânea da varinha mágica desapareceu assim como as florestas encantadas de antigamente - fica cada vez mais difícil continuar acreditando em fadas. A mulher crescida voltava ao mesmo lugar, ajeitava-se em sua velha pose de confiança e fingia não lembrar dos reinos que visitara e nem dos príncipes que vinham lhe buscar em cavalos brancos.
Seus olhos distantes derramavam vazio por onde passavam.
Mas em um dia qualquer, desses bem normais, pôs uma fita roxa no cabelo. Foi aí que percebi. Não é tão nítido assim, é preciso prestar atenção, mas está lá. Não morreu completamente, a esperança nunca morre.
Ela ainda cobre seus ursos com um lençol, lhes deseja boa noite. A menina levada e carinhosa sai para brincar, mas só quando não há ninguém por perto. A mulher não admite, é claro. Não desfaz sua pose de moça feita nem aos mais íntimos, faz o mesmo discurso de como é forte agora, de como mudou. Cabe aos outros fingir acreditar. No fundo é isso que todos fazem, vivem o tempo todo tentando esconder que algumas vontades, como aquela de jogar bola na lama ou de comer brigadeiro de colher, continuam lá. E não é preciso encontrar uma velha caixa do passado para ressurgirem à superfície. Principalmente aquela clássica de conseguir um final feliz. Ou, melhor dizendo, um final feliz para sempre.

domingo, 6 de setembro de 2009

Primazia

Sei escrever sobre a vida, sei mudar de idéia, mas escrevo de amor. E não o sentimento em si, isso já fizeram os grandes nomes de outrora, que mapearam tal sofrimento até seu último suspiro. Escrevo do meu amor, esse que nem eu mesma compreendo. Uma sala escura, nada apelativa. Bem diferente do que ele, em sua elegância extenuada, procura em amores.
Ele deve preferir os raios quentes do sol. Um romance digno de cortes, vestidos luxuosos e clareiras no bosque. Sei porque seus olhos, mesmo distantes, não mentem. O amor que dedica à sua bela musa: as palavras com as quais a descreve são como pétalas de rosas ao mundo e adagas afiadas a mim.
Eu sempre os vejo dançando. Pés a flutuar pelo chão, o vento acarariciando seu claro vestido, flores de imensurável beleza a contrastar com o azul do céu. É tudo límpido onde estão. A pele dela, branca como uma folha de papel, e seu sorriso agradável, vão levando-o cada vez mais alto, com cada vez mais nuvens, onde não consigo chegar.
Então fico aqui, a alma pregada ao chão, o coração a sangrar no peito. O meu amor obscuro é uma incógnita, um jogo de paciência mas sobretudo, de apostas. E talvez ele prefira apenas uma poltrona confortável frente à um Renoir. Não peço para ficar. Somente o observo, angustiada, decidir.
Queria que se levantasse, mas ele lá permanece, imóvel. Vejo-me passeando em seus olhos sob todas as suas vigilâncias. Quero que me perceba sorrindo, cantarolando, atirando-me em outros braços. Eu sei o que faço? Até tento. Não possuo a juventude e leviandade de sua dama, minhas dores me envelhecem e levam-me à reflexões circulares.
Quero gritar com o mundo. Porém, continuo em silêncio. Há tanta tortura aqui dentro, tantas vozes me confundindo...
Não sou como uma de suas realezas, corro o risco de sempre perder para as bonequinhas de porcelana. Carrego comigo o fardo de uma poesia torta. Mas espero que um dia ele me tire para dançar.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Despedida

Uma menina triste sentou no chão e encostou-se na parede. Sua saia rodada que lhe garantia um aspecto quase infantil, falhava em patentear a maturidade que suas antigas dores lhe outorgaram. Carregava consigo um caderno espesso cheio de sentimentos escritos à lápis, não gostava de tinta, de coisas incorrigíveis, tinha sempre consigo uma borracha.
Seus olhos correram por toda a sala tentando não perder nenhum detalhe, queria lembrar daqueles rostos pelo maior espaço de tempo possível.
Estavam todos lá, temerários, ansiosos a ir embora. Ela também queria ir, mas tinha medo do desconhecido. Queria poder voltar quando quisesse mas, uma vez fora de lá, não havia mais porta de entrada.
Abaixou a cabeça, escondeu-a com as mãos. Estavam todos sorrindo e era essa a imagem que queria ter perpetuada na mente, não queria ver mais nada. De onde estava ninguém a via - tinha sido dessa forma quase que o tempo todo - então não se preocupou quando uma lágrima tímida escorreu pelo canto dos olhos.
A pequena gotinha foi caindo devagar, parecia acariciar o rosto por onde escorregava, solta e satisfeita. Um sorriso acanhado lhe fez companhia... Tamanha era sua contradição, já não se importava mais.
Acostumara-se a viver assim, perdida no labirinto de si mesma, sozinha. Ninguém nunca esteve lá, nas profundezas de si - não encontrara ninguém valente o bastante.
Em poucos meses ela vai embora. Nenhum deles lhe escreveu uma carta, ninguém disse que faria falta - As pessoas tem a obrigação de dizer ou é preciso que se pergunte a elas?
Nasceu na época errada, a pobre menininha. Ou talvez o erro tenha sido o planeta. Queria morar em um livro igual àqueles que devorava, alucinada.
Antigamente, quando o brilho em seus olhos ainda era evidente, escrevia ao som de pianos e violinos. Agora prefere o silêncio. É isso que quer: silenciar o mundo. Quer que tudo o que conhece seja como em um filme de cinema mudo, palavras mentem melhor do que sons.
Parou por alguns minutos, o tempo parecia congelado. Já recomposta, locupletou o peito de coragem e olhou para cima. Tinha certeza, sentira aquele arrepio segundos antes. Ele entrava pela porta.
Não conversavam muito, principalmente nos últimos dias. Se conheciam de uma outra época que não oferecia firmeza suficiente para alegar que eram amigos. Às vezes se entreolhavam, seus olhos lhe prestavam infinitos elogios, os dele, entretanto, exalavam quietação - o homem não inventou maneira alguma de alcançar maior contrariedade - e ficava então evidente que o contato entre aquelas duas pessoas que se viam quase todos os dias se reduzia ao menor possível.
Ela podia sentir, porém, em cada osso de seu corpo, que o conhecia. Havia lido o que escrevera, suas confidências. Ele não sabia, desfilava desasado em sua confiança discreta, absorto em pensamentos longíquos de um mundo particular. No que estaria pensando? Seus mistérios a encantavam, tinha vontade de desvendá-los. Todavia, tinha medo de decepcionar-se com o resultado, então deixava-o ali, distante e esquecido. Quisera um dia ser tema de uma de suas confidências, mas não nascera protagonista.
Olhou para a janela, o dia estava ensolarado. No mínimo diferente, pensou, despedidas vem acompanhadas de chuva. Levantou-se, reuniu o resto de forças que tinha e foi andando em direção à porta: não ia mais prolongar aquele pesar.
Saiu e deixou para trás caças ao tesouro, dragões, piratas, fadas e sereias. Castelos, pincéis. Sonhos. Empenhou-se em só olhar para a frente, e assim o fez. Viu algumas pessoas partindo, a maioria chegando.
A menina espevitada abriu então seu velho caderno preto: letras e mais letras, apesar do mesmo tom de grafite, pareciam colorir cada espaço branco. Atirou no lixo sua borracha, alcançou na bolsa uma caneta azul e encostou levemente sua ponta no fim da última folha. Uma pequena bolinha se fez permanente. Agora só o amanhã...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Dizem

Dizem que um mais um são dois.
Mas quando eles se encontram, olham-se fundo nos olhos, e ele vê que ela não está lá. Não tem problema, ele também não está. Ninguém nunca está com certeza, estão em outros lugares. E ficam os dois, sozinhos, onde um mais um não dá ninguém.
Dizem que o céu é azul, mas quando amanhece ele tem todas as cores, e quando anoitece, parece que não tem nenhuma. Não dá pra dizer que é azul só porque quando a maioria olha para cima, azul vê. Você tem que passar uma noite em claro para ver quão escuro o mundo é. Porque só naquelas madrugadas frias, enquanto dormem as máscaras, ele posa despido em frente a qualquer sobrevivente de olhos abertos, ou melhor, atentos.
Dizem que existem muitas pessoas como eu no mundo. Mas se é verdade que as pessoas são como ilhas perdidas na imensidão azul da água, como é possível que um sistema isolado seja igual ao meu?
É claro que pode-se encontrar várias dessas pessoas que, assim como eu, não sabem quem são, que questionam do que são feitas. Porém, é pouco provável que alguma delas questione quem sou eu, ao invés delas mesmas. E mesmo que fizessem, o fariam 'de fora', bem diferente da forma como eu questiono: de dentro.
Se assim for, mesmo que em algum momento tenhamos em mente a mesma pergunta, elas não são diferentes?
Dizem que o amor é bom. Mas não se deve classificar tal coisa - sim! coisa mesmo - tão ambigua. E dizem que é boa a maior praga da humanidade? O mal de todos os séculos, o egoísmo disfarçado de altruísmo.

Eu não sei de onde veio essa mania de rotular. As pessoas tem necessidade de sair por aí classificando tudo o que veem pela frente. Isso é bom, isso é mau, isso é igual àquele outro. E quando chegam à alguma conclusão, por maior estupidez que denote, essa se transforma em "verdade universal".
Bom, questionando essas ditas verdades, logo cheguei a uma conclusão: rótulos são para geléias. E eu não sou igual a ninguém - mas que fique claro, não me refiro a ser especial ou algo do tipo, refiro-me a solidão. Não há ninguém como eu pelo mesmo motivo que não há ninguém como você: estamos todos sós - exatemente como ilhas, condenadas a coexistir em um mesmo patético oceano.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Sem cerimônia

Querido Eu,
Tenho medo de voltar para casa. Aqui é escuro e sinto que meus olhos, já adaptados, sofreriam na claridade dos seus dias na superfície de nós.
Aqui o som é lento e eu tenho medo da rapidez que ele tem aí, aqui é inverno e eu tenho medo do verão.
Então, por hora essa é minha desculpa. Vou esperar a primavera.

Até,
Eu Profundo

terça-feira, 5 de maio de 2009

Últimos Dias / Talvez

Esses últimos dias talvez tenham sido ensolarados. Eu não saberia, não abri a janela. Mas escutei aquele barulhinho que a chuva faz quando encosta nos telhados.
Não saí do quarto nesses últimos dias. Não liguei para nenhum aniversariante, não respondi as mensagens do celular, não ouvi músicas tristes, não me preocupei com o que o resto do mundo pensa.
Durante esses últimos dias, vi diante de mim rostos preocupados, ouvi broncas e palavras de consolo, e essas últimas horas - intermináveis - em nada me serviram: fiquei olhando fotos de outras partes do mundo, qualquer lugar onde preferia estar.
Antes, quando sentia vontade de escrever, eu apenas pegava uma caneta e o fazia. Simples assim. Em poucos segundos era transportada a uma localidade que só eu conhecia, onde ninguém mais estava. Pensava nas palavras que se completavam, que dariam sentido ao que queria dizer.
Agora as coisas mudaram. Eu mudei.
Mudo um pouco todo dia. Transito para lá e para cá entre idéias de mim mesma, entre o que sou, o que penso que sou, o que enxergam em mim e o que pensam que enxergam.
Não sou má. Ou sou? Também não sou boa. Será?
Sei que não sou inteira.
E se antes conseguia perambular por aí sorrindo para desconhecidos fingindo que não tenho um buraco no peito, agora não consigo mais.
Então eu apenas deixo. Enquanto espero - sem sair do quarto - por algo que ainda não sei o que é, deixo que o resto do mundo recite poemas, declare amor eterno, reclame da vida, faça promessas e que depois as quebre.
Foco minha atenção em contos de fadas, em reis corajosos e de bom coração, em filmes de final feliz.
Nesses últimos dias meus "Eus" profundos e superficiais pararam de discutir. Tudo o que eu ouço é silêncio, mesmo quando estou bem ao lado de alguém que não consegue se calar. Parte de mim acredita que esse silêncio só existe porque mesmo tão diferentes, todos os Eus agora compartilham do mesmo sentimento: cansaço. Já a outra parte não atribuiu motivo nenhum a essa ausência de som (estava cansada demais para pensar).
Esses últimos dias talvez tenham sido chuvosos. Eu não saberia, não abri a janela.
Talvez tenha feito muito frio, ou muito calor. Talvez alguém tenha feito alguma descoberta, alguma piada, ou quem sabe uma confidência.
É possível que alguém tenha superado algum medo, ou que esteja fugindo dele. Talvez eu tenha só sonhado, talvez eu nem tenha dormido. Talvez eu nem queira acordar.

É possível que nos próximos últimos dias esteja chovendo ou não. Talvez eu abra a porta do quarto e deixe alguém entrar para abrir a janela. Talvez eu levante da cama para enfrentar a hipocrisia do mundo ou apenas faça parte dela.
Ou talvez eu só queira continuar deitada e sozinha por mais um dia.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Por um momento

Ela escrevia e apagava, escrevia e apagava.
Talvez fosse besteira tentar pôr para fora tanto sentimento de uma vez só. Talvez fosse mais fácil escrever frases soltas que não teriam significado para mais ninguém além dela.
Por muito tempo ela não disse nada. Viveu um dia após o outro com sonhos que não eram dela. Quis ser arquiteta, médica, atriz. Quis morar na África e em Dubai, quis vender tudo o que tinha e ir para a Flórida treinar golfinhos.
E foi assim. Dia após dia, enchendo a si mesma de idéias de outras pessoas. Era só passar alguém por perto, e ela roubava aquele sonho para si. Extamente como uma criança enchendo a boca de bolo de chocolate, um pedaço logo após o outro, para não ter nenhum espaço entre eles onde ela pudesse gritar.
Quis ser diplomata, presidente, secretária. Quis morar em Londres e no Japão, quis comprar tudo o que via em sua frente.
Quis ligar para o psicólogo, quis se internar no hospício. Teve vontade de não tomar banho e só passar perfume, depois pensou em não passar perfume e só tomar banho.
Quis dar dois tapas em cada rosto de seus supostos amigos que acreditavam que todos os seus sorrisos eram reais.
Dormia, acordava. Dormia. Escrevia e apagava. Apagava.
Até que, de repente e muito rápido (quem piscou nem ao menos viu) ela olhou para cima.
Soube o tempo todo que à sua volta todos se moviam de um lado para o outro, frenéticos, em um ritmo peculiar e descompassado. Mas sabia também que por conta da correria e do barulho (ambos insuportáveis), ela podia se concentrar no silêncio que acabara de inundar seu corpo por completo.
O dia estava ensolarado, o céu azul e límpido. Não foram mais do que dois segundos ou foram mais ou menos duas décadas, tudo depende do relógio que se tem como referencial.
Então ela gritou. Alto e em bom tom. Ninguém de fora ouviu, ninguém prestou atenção. Mas ela gritou com todas as forças até que sua garganta doesse.
Pôs para fora todos os sonhos de seus conhecidos estranhos e de todos os estranhos conhecidos - mais rápido e melhor do que qualquer outra pessoa poderia ter feito - até ficar somente com os seus. E quando lá ficou, parada, sozinha, apenas com ela mesma (todos os outros tinham desaparecido) sentiu-se bem, livre, apesar de não ter certeza do que era exatamente ficar só.
Como num passe de mágica, nada mais naquele mundo sujo importava. Ela ainda queria ser um milhão de pessoas em uma só, mas dessa vez eram pessoas de seus próprios sonhos.
Tudo era claro assim como o céu que encarava. Vasto, imenso, cheio de tudo e ao mesmo tempo de nada. "Talvez eu possa filtrar toda essa existência em mim, organizar meus pensamentos, me organizar. Talvez eu não tenha que dormir, talvez eu não tenha que apagar..."
Mas antes que pudesse continuar imaginando a vida com a qual sempre sonhara, ouviu alguém chamar seu nome. Abaixou a cabeça e com ela seus olhos. Seguiu a voz e foi fazer o que ela pedia, pequenas coisas de uma rotina comum, obrigações de um dia-a-dia sem sal. O sorriso que antes se instalara em seu rosto com pretensão de não mais sair, agora não estava mais lá. Mas o brilho em seus olhos escuros e profundos, apesar de um pouco mais fraco, continuava.
Mesmo assim, ela continuou a roubar sonhos durante todo aquele dia. Continuou a destribuir sorrisos enquanto todos acreditavam neles, e fingiu que não era diferente de ninguém dali.
Chegou em casa, escreveu e apagou. Dormiu. Sentiu de novo o vazio de não saber para onde ir, o vazio de ir sempre para o mesmo lugar.
Quis ser estilista, professora, advogada. Quis morar na China, no México. Quis ter um milhão de jóias, quis não ter jóia nenhuma.
E por último, quis que todos os dias fossem dias de céu azul.