Perguntava-se sobre o segredo da vida quando passou pela vitrine daquela loja. Parou para observá-la e lá ficou por muito tempo. Era pequena, discreta e quando comparada às outras lojas era quase como se estivesse se escondendo. Por essa mesma razão, talvez, toda vez em que ela passava por aquela ruazinha, seus olhos saltavam diretamente para aquele lugar.
Era diferente, com certeza. Tinha um ar de mistério, um quê de tesouro. Então entrou: não era nem muito grande e nem muito pequena, nem muito iluminada e nem muito escura. Prateleiras e prateleiras cobriam todas as paredes, mas não estavam nem muito cheias, nem muito vazias.
Viu ao longe uma grande caixa, seu coração bateu mais forte. Era como se tivesse onze anos outra vez. Um quebra-cabeças.
Ao juntar três mil peças veria uma ponte, o desenho dizia. Queria levá-las para casa, espalhá-las pelo chão e depois ir montando tudo devagar.
Foi quando viu ali perto uma outra caixa, um outro desafio. Esse era um castelo, também em três mil peças. Sentiu surgir uma dúvida, mas acabou optando pelo primeiro. O interior de um castelo pode ser formidável, mas por maior que seja, é sempre limitado. A ponte a levaria para um outro lado do mundo, estava certa, onde paredes não existissem.
No caminho para casa olhou para o céu. Há exatamente três dias o Sol não aparecia. Mas voltaria, sabia, ainda que demorasse.
Chegou em casa e praticamente antes que pusesse direito os pés para dentro, rasgou o saco plástico que a caixa continha e espalhou as peças pelo chão. Ah, uma aventura. Prometeu ter mais dessas agora que cresceu, e assim o fazia enquanto pensava "nunca é tarde...".
Cercada por aqueles pedacinhos soltos de colorido que imploravam para fazer sentido sentiu-se bem. Era preciso juntá-los, essa era sua meta, que apesar de trabalhosa lhe transmitia muita calma.
Foram passando os segundos, os minutos, as horas. O tempo de um dia nunca era suficiente, queria mais. Dormia, acordava, respirava aquela ponte. Para onde a levaria?
Enquanto ajustava, peça a peça, a paisagem, pensava em tudo, pensava em si: "Por que vivo presa nesses labirintos?", "Por que as pessoas crescem?", "Felicidade existe?", "Por que o tempo passa?", "É possível viajar no tempo?", "Algum dia serei... inteira?".
Duas peças se encaixaram. Uma vermelha, uma roxa. Não fazia sentido... Passou um domingo inteiro apenas com aquelas duas e pensou na ironia do destino, nem tudo é o que parece. Eram de perfeito encaixe mas não ficariam mais uma ao lado da outra. Irônico, no mínimo irônico. Separou-as então e continuou focada em seu objetivo, a imagem toda tinha que fazer sentido.
Talvez fosse aquele o segredo da vida: tardes comuns transformadas em jornadas fantásticas apenas com a magia de pedacinhos de uma ponte.
Três mil peças. Três mil. Uma alta dificuldade para uma alta recompensa, uma alta satisfação. Isso se não desistisse...
Com o passar do tempo, a imagem foi ficando visível. O verde e as flores tornavam tudo ainda mais encantador, o cenário perfeito se construía aos poucos. Peça a peça. Peça, peça...
Por fim tudo se encaixou. Colou-a e nesse momento a ponte está sendo emoldurada, vai morar na parede, elegante e enigmática.
E ela? Ela vai voltar à loja amanhã, quem sabe, isso se não desistir.
Montar um quebra-cabeças é um jogo. É bom, porque quando joga aprende muito sobre si mesma, e sobre o mundo também. Sabe, metade do segredo da vida é se apaixonar por metas. A outra metade é alcançá-las. E depois declará-las gentilmente.
De modo sutil discorrer sobre divertimentos de criança que são, na essência, muito adultos. Falar de quebra-cabeças quando na verdade se fala de...
Enfim, foi dormir. Nos próximos dias ela vai se perguntar de novo sobre o segredo da vida e procurar a resposta em uma loja charmosa cheia de desafios, castelos e pontes.
Mas é tudo só brincadeira, não é verdade?