Via flores em qualquer canto para onde meus olhos fugissem, arranjos majestosos. Lírios, cártamos, fotínias, azaléias, avencas, violetas...
Era noite, mas as luzes espalhadas pelo chão iluminavam o verde e o colorido da florada. Estava ali para me divertir, tudo era belo, tudo era longe. Longe dele. A música alta fazia vibrar os corações daquelas pessoas que pareciam saber apenas sorrir. Murmuravam algumas palavras - nada de muita importância - e se deliciavam em longas gargalhadas. Eram todos grandes amigos, mesmo que só por algumas horas.
Enquanto atravessava o grande salão, podia sentir os olhares que vinham de encontro ao meu corpo. Sentia-me receosa mas também encantada. Aquele lugar era, de algum modo, especial.
Primeiro, andei de um lado ao outro examinando o ambiente, não sentia segurança suficiente para permanecer onde estava. Algo estava faltando. Talvez no recinto ou dentro de mim, mas faltava. Senti a velha angústia no peito e resolvi afastá-la: essa não seria mais uma daquelas noites, decidi. Até que finalmente, depois de alguns longos minutos, parei de perambular pela festa.
Tudo lá tinha uma beleza diferente. Pensei que isso se dava pelo simples fator da distância, aquele era um mundo onde há tempos não estivera, muito distinto do meu. Ali não estavam as mesmas pessoas, não se viam os mesmos padrões. Ali os assuntos não eram iguais, as decepções eram outras. Ali não havia vestígios da existência dele.
Respirei aliviada. Esse novo mundo anulava o antigo da mesma forma que o antigo anulava o novo. Cabia à mim ajeitar-me por entre as confusões que duas realidades simultâneas podiam causar, e assim o fiz, pelo menos por um pouco de tempo. Depois lembrei-me de que naquele local não havia marca alguma que deixara porque ele, em sua costumeira inteligência, preocupou-se em marcar tais vestígios em mim.
"Deixe para lá", dizia uma voz que vinha de dentro. E quis escutar.
Olhei as mulheres que dançavam enquanto os homem discutiam seus defeitos e atributos, e lá também me atirei, sem me importar com os cochichos - os que escutava vindos da minha mente eram bem mais díficeis de ignorar.
Continuava a música quase ensurdecedora e de repente me vi livre. Não estava nem em um mundo nem noutro, estava na linha divisória, na fronteira, em dois lugares e ao mesmo tempo em lugar nenhum.
Era magnífica a sensação de liberdade. Por tanto tempo me prendi à ele, em silêncio, e agora que não estava lá tinha tempo para mim mesma. Podia sorrir e admirar as luzes, a lua, as flores.
Calêndulas, dálias, frésias, camélias, gérberas, papoulas... Papoulas? Mas isso não...?
Maldito seja. Não me deixa ter comigo nem ao menos dois segundos de paz. "Esqueça, esqueça...", dizia a voz. E quis de novo escutar.
Já era tarde mas a magia das luzes ainda não se perdera. Os outros me viam com olhos de desejo, eu sabia. Sabia e não me importava. Àquela altura da madrugada todos estavam um pouquinho mais felizes do que o de costume, tinham todos se deixado levar pela maré da descontração. Vi diante de mim a oportunidade de ser quem quisesse, de realizar qualquer aventura, eles não se importariam porque não lembrariam de nada depois. Aquele era um tempo para mim, outra vez.
E outra vez não me deixei levar porque fiquei presa ao meu louco desejo, mesmo que improvável, de vê-lo entrar pela porta.
No fim, voltei para casa. O sol já iluminava a paisagem e o encanto já estava desfeito. Não consegui dormir, como de costume. Indaguei-me sobre minha triste situação. Estava cansada de fugir para outros lugares e lá - onde quer que "lá" seja - sempre encontrá-lo.
Festas e descuidos oferecem esquecimentos momentâneos, a magia das luzes eventualmente se apaga. Mas eu continuo a enxergar lírios, cártamos, fotínias, azaléias, avencas, violetas, calêndulas, dálias, frésias, camélias, gérberas e papoulas onde quer que ele esteja. E essas malditas flores que se negam, ainda bem, a morrer.
Enquanto atravessava o grande salão, podia sentir os olhares que vinham de encontro ao meu corpo. Sentia-me receosa mas também encantada. Aquele lugar era, de algum modo, especial.
Primeiro, andei de um lado ao outro examinando o ambiente, não sentia segurança suficiente para permanecer onde estava. Algo estava faltando. Talvez no recinto ou dentro de mim, mas faltava. Senti a velha angústia no peito e resolvi afastá-la: essa não seria mais uma daquelas noites, decidi. Até que finalmente, depois de alguns longos minutos, parei de perambular pela festa.
Tudo lá tinha uma beleza diferente. Pensei que isso se dava pelo simples fator da distância, aquele era um mundo onde há tempos não estivera, muito distinto do meu. Ali não estavam as mesmas pessoas, não se viam os mesmos padrões. Ali os assuntos não eram iguais, as decepções eram outras. Ali não havia vestígios da existência dele.
Respirei aliviada. Esse novo mundo anulava o antigo da mesma forma que o antigo anulava o novo. Cabia à mim ajeitar-me por entre as confusões que duas realidades simultâneas podiam causar, e assim o fiz, pelo menos por um pouco de tempo. Depois lembrei-me de que naquele local não havia marca alguma que deixara porque ele, em sua costumeira inteligência, preocupou-se em marcar tais vestígios em mim.
"Deixe para lá", dizia uma voz que vinha de dentro. E quis escutar.
Olhei as mulheres que dançavam enquanto os homem discutiam seus defeitos e atributos, e lá também me atirei, sem me importar com os cochichos - os que escutava vindos da minha mente eram bem mais díficeis de ignorar.
Continuava a música quase ensurdecedora e de repente me vi livre. Não estava nem em um mundo nem noutro, estava na linha divisória, na fronteira, em dois lugares e ao mesmo tempo em lugar nenhum.
Era magnífica a sensação de liberdade. Por tanto tempo me prendi à ele, em silêncio, e agora que não estava lá tinha tempo para mim mesma. Podia sorrir e admirar as luzes, a lua, as flores.
Calêndulas, dálias, frésias, camélias, gérberas, papoulas... Papoulas? Mas isso não...?
Maldito seja. Não me deixa ter comigo nem ao menos dois segundos de paz. "Esqueça, esqueça...", dizia a voz. E quis de novo escutar.
Já era tarde mas a magia das luzes ainda não se perdera. Os outros me viam com olhos de desejo, eu sabia. Sabia e não me importava. Àquela altura da madrugada todos estavam um pouquinho mais felizes do que o de costume, tinham todos se deixado levar pela maré da descontração. Vi diante de mim a oportunidade de ser quem quisesse, de realizar qualquer aventura, eles não se importariam porque não lembrariam de nada depois. Aquele era um tempo para mim, outra vez.
E outra vez não me deixei levar porque fiquei presa ao meu louco desejo, mesmo que improvável, de vê-lo entrar pela porta.
No fim, voltei para casa. O sol já iluminava a paisagem e o encanto já estava desfeito. Não consegui dormir, como de costume. Indaguei-me sobre minha triste situação. Estava cansada de fugir para outros lugares e lá - onde quer que "lá" seja - sempre encontrá-lo.
Festas e descuidos oferecem esquecimentos momentâneos, a magia das luzes eventualmente se apaga. Mas eu continuo a enxergar lírios, cártamos, fotínias, azaléias, avencas, violetas, calêndulas, dálias, frésias, camélias, gérberas e papoulas onde quer que ele esteja. E essas malditas flores que se negam, ainda bem, a morrer.

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