Eram quatro horas. Manhã ou madrugada? O sol logo ensaiaria sua triunfante saída, mas o céu ainda se vestia todo de preto. Preto como a escuridão do fundo do mar, como o fundo de um poço. Tinha tantas tarefas a fazer naquele dia... Coisas que deixou para mais tarde sem saber que depois da meia-noite o amanhã já é hoje.
Se o céu fosse mesmo o fundo de um poço, significaria que estava no topo. Mas quando em cima há ainda muita distância para se cair, então pensou o topo ser do outro lado do céu, tão, tão, tão distante que nem ao menos visível.
Vai descobrir os mistérios do Universo? Quem sabe...
Quatro horas e meia. Como começar? "Era uma vez um amor que já nasceu meio-morto e uma dor que nasceu viva demais...", "Era uma vez uma boneca de cristal de meias coloridas que veio com defeito de fábrica...", "Era uma vez num reino distante um mundo de aparências...". Não. Era uma vez uma princesa que caminhava pela floresta e tropeçou num monte de dúvidas.
Quinze para as cinco. Prometeu não falar mais dele, nunca. Mas os dedos coçavam e a mente, em um segundo sem vigilância, viajava para longe dali.
Era romântica, incurável e orgulhosa. Impunha provas extraordinárias, livros e músicas, era cheia de poses. Poses essas que seguiam uma ordem minuciosa que aos olhos dos outros se faziam dança mágica e arrebatedora. E assim ia: passo a passo, poça a poça, em movimentos graciosos.
Aquilo, é claro, era mentira. Ainda bem que nas madrugadas sua companhia era o vento e o preto. O preto como o fundo do mar que o céu vestia. Eles conheciam a verdade, mas não diriam a ninguém.
Cinco horas. Como continuar? "Se deixou levar, não sabe como, por devaneios e sonhos solitários...", "Quis que o príncipe enxergasse suas asas, mas ele talvez visse apenas mais uma moça de vestido...". Não. Não contou à ninguém que no baile de máscaras mostrou à ele seu verdadeiro rosto.
Cinco e quinze, e destruiu os muros ao seu redor apenas para construí-los dali a algumas horas. Dava-se ao trabalho por conta de alguém dentro de si que, apesar de preso, ganhava todo dia minutos de liberdade e tentativa: podia tentar dizer a verdade até que os muros se erguessem de novo, então tentava sempre. Talvez por isso não consiga dormir direito: para fugir.
Não importavam os grandes atos, importavam os pequenos. Do fundo de um coração doído pulsava a vontade de ser pequeno mas preenchido, e de uma alma também doída transbordava o anseio de uma outra confissão vinda do outro lado. Ele não dizia porque não sentia, simples assim. Então uniam-se alma e coração para desejar que aqueles olhos escuros como o céu que veste preto vissem graça na dança.
Cinco e meia. Falar mais o quê? "Aí os dias iam passando e o temido futuro se aproximava", "Chegou no ponto final, na despedida. Ela de vermelho e ele de preto, sorriu", "Imaginou o que teria feito diferente...". Não. Àquela altura não esperava mais nada.
Seis horas. Mira sempre para o alto, mas cai. Cai do topo de um poço ou do fundo dele, mas cai, se afoga. E as asas, como ficam?
E então, como fica? Como fica?
Fica assim: "Era uma vez num mundo de aparências uma princesa de cristal que sentiu nascer em si um amor e tropeçou num monte de dúvidas. Se deixou levar, não sabe como, por devaneios. Mostrou ao príncipe seu verdadeiro rosto, e esperou que exergasse suas asas. Porém os dias foram passando, até que chegou a despedida. Ele de preto, ela de vermelho, sorriu, mas àquela altura não esperava mais nada.
Aquilo, é claro, era mentira. Dançava graciosa aos seus olhos, passo a passo, poço a poço, topo a fundo, fundo a topo. Prometeu não mais falar dele, nunca. Mas vai descobrir os segredos do Universo, quem sabe, e ver, de novo, que não importam os grandes atos.
Ela mira sempre para o céu, que veste o mesmo preto do fundo do mar, o mesmo preto dos olhos dele. Logo mira sempre para seus olhos, para cair, cair e se afogar, se afogar, até que o sol ensaie sua triunfante saída.
Amanhã de madrugada - o amanhã que não é hoje - quando os muros caírem, ela vai fugir de novo com o vento e o preto. Ah, o preto-céu de seus olhos, o preto de seus olhos-céu".
Se o céu fosse mesmo o fundo de um poço, significaria que estava no topo. Mas quando em cima há ainda muita distância para se cair, então pensou o topo ser do outro lado do céu, tão, tão, tão distante que nem ao menos visível.
Vai descobrir os mistérios do Universo? Quem sabe...
Quatro horas e meia. Como começar? "Era uma vez um amor que já nasceu meio-morto e uma dor que nasceu viva demais...", "Era uma vez uma boneca de cristal de meias coloridas que veio com defeito de fábrica...", "Era uma vez num reino distante um mundo de aparências...". Não. Era uma vez uma princesa que caminhava pela floresta e tropeçou num monte de dúvidas.
Quinze para as cinco. Prometeu não falar mais dele, nunca. Mas os dedos coçavam e a mente, em um segundo sem vigilância, viajava para longe dali.
Era romântica, incurável e orgulhosa. Impunha provas extraordinárias, livros e músicas, era cheia de poses. Poses essas que seguiam uma ordem minuciosa que aos olhos dos outros se faziam dança mágica e arrebatedora. E assim ia: passo a passo, poça a poça, em movimentos graciosos.
Aquilo, é claro, era mentira. Ainda bem que nas madrugadas sua companhia era o vento e o preto. O preto como o fundo do mar que o céu vestia. Eles conheciam a verdade, mas não diriam a ninguém.
Cinco horas. Como continuar? "Se deixou levar, não sabe como, por devaneios e sonhos solitários...", "Quis que o príncipe enxergasse suas asas, mas ele talvez visse apenas mais uma moça de vestido...". Não. Não contou à ninguém que no baile de máscaras mostrou à ele seu verdadeiro rosto.
Cinco e quinze, e destruiu os muros ao seu redor apenas para construí-los dali a algumas horas. Dava-se ao trabalho por conta de alguém dentro de si que, apesar de preso, ganhava todo dia minutos de liberdade e tentativa: podia tentar dizer a verdade até que os muros se erguessem de novo, então tentava sempre. Talvez por isso não consiga dormir direito: para fugir.
Não importavam os grandes atos, importavam os pequenos. Do fundo de um coração doído pulsava a vontade de ser pequeno mas preenchido, e de uma alma também doída transbordava o anseio de uma outra confissão vinda do outro lado. Ele não dizia porque não sentia, simples assim. Então uniam-se alma e coração para desejar que aqueles olhos escuros como o céu que veste preto vissem graça na dança.
Cinco e meia. Falar mais o quê? "Aí os dias iam passando e o temido futuro se aproximava", "Chegou no ponto final, na despedida. Ela de vermelho e ele de preto, sorriu", "Imaginou o que teria feito diferente...". Não. Àquela altura não esperava mais nada.
Seis horas. Mira sempre para o alto, mas cai. Cai do topo de um poço ou do fundo dele, mas cai, se afoga. E as asas, como ficam?
E então, como fica? Como fica?
Fica assim: "Era uma vez num mundo de aparências uma princesa de cristal que sentiu nascer em si um amor e tropeçou num monte de dúvidas. Se deixou levar, não sabe como, por devaneios. Mostrou ao príncipe seu verdadeiro rosto, e esperou que exergasse suas asas. Porém os dias foram passando, até que chegou a despedida. Ele de preto, ela de vermelho, sorriu, mas àquela altura não esperava mais nada.
Aquilo, é claro, era mentira. Dançava graciosa aos seus olhos, passo a passo, poço a poço, topo a fundo, fundo a topo. Prometeu não mais falar dele, nunca. Mas vai descobrir os segredos do Universo, quem sabe, e ver, de novo, que não importam os grandes atos.
Ela mira sempre para o céu, que veste o mesmo preto do fundo do mar, o mesmo preto dos olhos dele. Logo mira sempre para seus olhos, para cair, cair e se afogar, se afogar, até que o sol ensaie sua triunfante saída.
Amanhã de madrugada - o amanhã que não é hoje - quando os muros caírem, ela vai fugir de novo com o vento e o preto. Ah, o preto-céu de seus olhos, o preto de seus olhos-céu".

Nenhum comentário:
Postar um comentário