Silêncio, enfim.
- Você voltou?
- É primavera.
- Mas continua chovendo...
- Senti saudade de casa. Vocês bagunçaram tudo.
- Eu não fiz nada.
- É, você nunca faz...
- Você, ainda irônica?
- Sempre será.
- Só não façam barulho! Ela não pode acordar.
- Não vamos acordá-la. Ela não tem dormido bem nesses últimos dias. Chegou hoje esgotada, tirou o lenço do pescoço e deitou, duvido que algo a acorde.
- Mas fazemos tanto barulho...
- Ela nunca escuta. Ou escuta, e ignora.
- Não importa. Vim porque decidi o que fazer.
- E o que foi que te acordou?
- Ele me deu um beijo.
- Mas isso não...
- Eu sei que não.
- Não sei como. Ninguém conseguiu...
- Você agora vê o mundo como eu vejo? Colorido?
- Vá brincar por aí, essa conversa não lhe diz respeito. Talvez quando for mais velha...
- Sabe muito bem que isso é impossível. Não fale desse jeito. E sim, agora vejo.
- Isso é ruim, muito ruim. Não há um meio de voltar atrás?
- Eu não quero voltar atrás.
- Pois não volte. Tenho certeza que é recíproco.
- Pois eu tenho certeza que não! Alguma vez você entendeu o que ele disse?
- É claro que entendi.
- Às vezes, não.
- Talvez não seja o que penso ser. Quem sabe... Ei! Aonde você vai?
- Brincar por aí. Estou com vontade de suco de manga. Continuem...
- Enfim, não me importo. Sempre segurei minhas cartas na mão e escondi meu jogo, saí vencedora. Mas não vou agir dessa forma agora. Vou dizer e pronto.
- Investir em um amor com prazo de validade? Ele vai olhar para outras pessoas, você sabe disso. Há tantos encantos melhores do que os seus.
- É claro que não. Você sabe que é única.
- Eu constantemente duvido.
- É única em seus delírios, não devia ser assim. Nada tentador e nem digno de elogios.
- Pare de falar dessa forma. Deve ter alguém no mundo que acha sua poesia encantadora, tem que ter.
- E esse alguém é ele?
- Queria muito que fosse...
- Duvido que seja. Ele já escreveu para você?
- Já.
- Já?
- Então ele sabe... E não fez nada, porque nada sente.
- É claro que sente.
- Quem sabe não sinta. E se...
- Chega. Não vou mais discutir, é inútil, chegamos sempre a lugar nenhum.
Silêncio, enfim.
- Sabe, é nele que penso quando fecho os olhos.
- Eu também.
- Eu também.
- E eu também.
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Um comentário:
sabia que você faria isso! tá no sangue! rá!
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