terça-feira, 29 de setembro de 2009

Delírio

Silêncio, enfim.

-
Você voltou?
-
É primavera.
-
Mas continua chovendo...
-
Senti saudade de casa. Vocês bagunçaram tudo.
-
Eu não fiz nada.
-
É, você nunca faz...
-
Você, ainda irônica?
-
Sempre será.
-
Só não façam barulho! Ela não pode acordar.
-
Não vamos acordá-la. Ela não tem dormido bem nesses últimos dias. Chegou hoje esgotada, tirou o lenço do pescoço e deitou, duvido que algo a acorde.
-
Mas fazemos tanto barulho...
-
Ela nunca escuta. Ou escuta, e ignora.
-
Não importa. Vim porque decidi o que fazer.
-
E o que foi que te acordou?
-
Ele me deu um beijo.
-
Mas isso não...
-
Eu sei que não.
-
Não sei como. Ninguém conseguiu...
-
Você agora vê o mundo como eu vejo? Colorido?
-
Vá brincar por aí, essa conversa não lhe diz respeito. Talvez quando for mais velha...
-
Sabe muito bem que isso é impossível. Não fale desse jeito. E sim, agora vejo.
-
Isso é ruim, muito ruim. Não há um meio de voltar atrás?
-
Eu não quero voltar atrás.
-
Pois não volte. Tenho certeza que é recíproco.
-
Pois eu tenho certeza que não! Alguma vez você entendeu o que ele disse?
-
É claro que entendi.
-
Às vezes, não.
-
Talvez não seja o que penso ser. Quem sabe... Ei! Aonde você vai?
-
Brincar por aí. Estou com vontade de suco de manga. Continuem...
-
Enfim, não me importo. Sempre segurei minhas cartas na mão e escondi meu jogo, saí vencedora. Mas não vou agir dessa forma agora. Vou dizer e pronto.
-
Investir em um amor com prazo de validade? Ele vai olhar para outras pessoas, você sabe disso. Há tantos encantos melhores do que os seus.
-
É claro que não. Você sabe que é única.
-
Eu constantemente duvido.
-
É única em seus delírios, não devia ser assim. Nada tentador e nem digno de elogios.
-
Pare de falar dessa forma. Deve ter alguém no mundo que acha sua poesia encantadora, tem que ter.
-
E esse alguém é ele?
-
Queria muito que fosse...
-
Duvido que seja. Ele já escreveu para você?
-
Já.
-
Já?
-
Então ele sabe... E não fez nada, porque nada sente.
-
É claro que sente.
-
Quem sabe não sinta. E se...
-
Chega. Não vou mais discutir, é inútil, chegamos sempre a lugar nenhum.

Silêncio, enfim.

- Sabe, é nele que penso quando fecho os olhos.

- Eu também.
- Eu também.
- E eu também.


Um comentário:

moi disse...

sabia que você faria isso! tá no sangue! rá!