Ela sempre foi uma menina diferente. Guardava suas bonecas arrumadinhas no armário, lhes desejava boa noite. Cresceu aprendendo a ser cuidadosa.
Diziam que era doida, a menina constituída de ingenuidade. Não se importava. Com seus sapatinhos coloridos dava um passo após o outro, sem nunca olhar para trás (mas sempre pensando no que estava acontecendo por lá).
Encantava a todos por onde passava. Vestia suas fantasias, sorria para a câmera, prendia no cabelo uma coroa e se admirava no espelho: é, ficava bem assim.
Certo dia ganhou de presente uma varinha mágica. Quando descobriu que podia fazer quantos pedidos quisesse, não soube por onde começar. Era bem melhor do que uma lâmpada, evidentemente, mas a conveniência de poder ter tudo o que desejasse lhe parecia estranhamente incômoda. Resolveu não usá-la, ao menos por algum tempo. Dedicou-lhe seu carinho, como fazia com as bonecas, e a guardava em uma caixa almofadada todos os dias antes de ir para a cama. Sabia que, quando chegada a hora, seu talismã prateado com uma estrela na ponta seria de bom uso.
Mas os anos vão passando e, com eles, a inocência. A doçura desvanece e o que fica guardado em velhas caixas tende a ser esquecido.
Cresceu. Ninguém sabe ao certo quando. Foi dormir menina e acordou mulher.
O cotidiano a ensinou a ser severa. Construiu ao seu redor uma muralha, ensaiou a mesma resposta tantas vezes no espelho que agora alega acreditar nela. "Estou bem", e sorri convincente. Ou quase.
Levanta todos os dias e passa pelas bonecas desajeitadas. Nem todas sobreviveram, ficaram apenas as preferidas. Sente uma pontada de dor no peito mas continua andando, ainda não foi inventado um relógio que conte o tempo para trás.
Vive bem, até. Adulta. O mundo de "gente grande" é bem diferente do que conhecia. O doce sabor dos suspiros recheados e dos rocamboles de chocolate foram substituídos por amargas decepções, conclusões azedas. Apenas fantasias permaneceram, todavia bem diferentes. Ao invés de vestidos de princesa agora vestia ânimo, contentamento, satisfação.
Em uma dessas tardes frias, porém, encontrou-se diante de uma relíquia esquecida, fascinação de longa data. Uma caixinha almofadada por dentro.
Podia pedir o que quisesse, qualquer coisa no mundo, mas não o fez. Guardou a varinha novamente em seu lugar e colocou a caixa ao lado das bonecas esquecidas. Ficou surpresa com sua decisão - achava que assim que pudesse ter uma chance de mudar tudo o que lhe incomodava, a aproveitaria aprazivelmente. Mas depois de alguns segundos sabia que fizera o certo. O poder de mudar absolutamente tudo nunca lhe pareceu atraente, gostava das coisas assim, sem controle. Fazia parte da aventura que era não viver dias iguais.
'Em alguma parte do caminho sempre perdemos o que somos', concluiu. 'É inevitável. Deixamos de ser para virar o que fomos'. Prometeu não fazer mais isso. Ia abrir mão de suas fortalezas modernas que cercavam seu território.
Em alguns poucos dias, porém, a alegria inventada e instantânea da varinha mágica desapareceu assim como as florestas encantadas de antigamente - fica cada vez mais difícil continuar acreditando em fadas. A mulher crescida voltava ao mesmo lugar, ajeitava-se em sua velha pose de confiança e fingia não lembrar dos reinos que visitara e nem dos príncipes que vinham lhe buscar em cavalos brancos.
Seus olhos distantes derramavam vazio por onde passavam.
Mas em um dia qualquer, desses bem normais, pôs uma fita roxa no cabelo. Foi aí que percebi. Não é tão nítido assim, é preciso prestar atenção, mas está lá. Não morreu completamente, a esperança nunca morre.
Ela ainda cobre seus ursos com um lençol, lhes deseja boa noite. A menina levada e carinhosa sai para brincar, mas só quando não há ninguém por perto. A mulher não admite, é claro. Não desfaz sua pose de moça feita nem aos mais íntimos, faz o mesmo discurso de como é forte agora, de como mudou. Cabe aos outros fingir acreditar. No fundo é isso que todos fazem, vivem o tempo todo tentando esconder que algumas vontades, como aquela de jogar bola na lama ou de comer brigadeiro de colher, continuam lá. E não é preciso encontrar uma velha caixa do passado para ressurgirem à superfície. Principalmente aquela clássica de conseguir um final feliz. Ou, melhor dizendo, um final feliz para sempre.

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