segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Me dá um abraço que eu desembaraço

Eu jurei que não ia mais escrever para ninguém, jurei de pés juntos. Minhas palavras causam, se nada, dor de cabeça. Quis ser livre para viver... viver sem me preocupar.
Mas pra onde é que foram as cores? Ah, aquela cidade, aquele lugar, aquele você. E eu que jurei que não ia mais escrever... Mas é claro que veio o destino, no seu manto rendado, me chamando pra rodopiar justo quando não queria levantar da cadeira.
Sabe o que é, moço? São as suas rendas de coincidências, de acasos, seu cheiro de rosas. E eu sinto, ah, eu sinto a dor por antecipação. Apaixonar-se é morrer. Doce e lentamente.
Então eu te condeno - você e seu cavalo branco - ao esquecimento. Condeno, condeno: cai nas graças do passado e fica sendo apenas uma lembrança embaçada meio amarga, pimenta, chocolate, mel.
Eles todos se foram, meu bem, e ficou no peito um buraco que às vezes arde de saudade. Mas se fosse pra voltar, não voltaria. Tudo nessa vida tem um tempo e um motivo, quero acreditar. E se naquele dia você cruzou o meu caminho com seu sorriso desarmado e seu olhar de menino eu já não me pergunto mais por quê.
Só sei que foi. As nuvens no céu, os aviões, as árvores, o sol, as cores de volta. Tudo o que eu já conheci.
E eu fico condenada, ah, eu me condeno: o seu cheiro, o seu jeito, o seu cabelo, suas idéias, os sorrisos que você arranca de mim, a sua voz de sono.
Eu quero te ligar, por que você não vem aqui? Eu fico brigando comigo mesma o tempo todo e é a pior briga que consigo ter com alguém, até você chegar e fazer minha memória trair tudo o que já aprendi.
Dói, dói tanto de raiva. A gente pensa que com o passar dos anos melhoram os pés cansados pois aprende-se onde não pisar... mas não.
Então eu te condeno por você não ser caco de vidro. Condeno por ser areia macia de praia no amanhecer, por me fazer deitar no chão e olhar para o céu, admirar a lua, por ser o meu primeiro pensamento do dia.
E eu que jurei não escrever, enquanto confesso ao vento a minha vontade pronta de ver você voando longe, me pego desejando não parar de dizer o teu nome.
Onde é que vai parar esse pretender, meu Deus? Onde é que termina esse querer desesperado?
É o que está por vir. Mas só não me mande esperar, eu imploro, que eu morro um pouco todo dia. Doce e lentamente.

terça-feira, 8 de março de 2011

Confins

O tempo passa e a gente não vê, nem percebe.
Se ela pudesse arrancar do seu peito essa dor, arrancaria. Mas algumas dores nem o tempo cura, só deixa se acostumar. É um buraco na vida, bem conhece a sensação.
Ela, que dessa vida esburacada aprendeu a espremer palavras, esforça-se ao máximo e por fim se esgota, como quem retorceu cada pingo de si.
Enquanto isso ele está longe, de corpo e de alma. Os dias andam bambos, as certezas andam frouxas, mas assim vai. Sabe de quem está lá, lado a lado e cara a cara, ao alcance de um estender de braços. Mas e quem não está? Quem não está... como ela?
Ela cansou de escrever de amor mas é tudo o que pode dizer, é só o que sabe. Sabe espremer as palavras que ele tanto quis entender. Reclamou do fio cortante que tem, afiadas, assim como recebeu o afago que transmitem, macias, então no final tudo depende...
Agora ele está bem, rodeado de gente. Com esforço consegue esboçar um sorriso aqui e ali, e até gosta das coisas do jeito que estão. Ela está bem também, não tem mais tanta pressa e finalmente compreendeu algumas verdades, os dias estão mais fáceis.
Assim o mundo gira. Dois caminhos, duas escolhas, o que parece simples quando lido no papel. Mas às vezes ele pensa nela e ela pensa nele, talvez até ao mesmo tempo, e eles ficam se perguntando "e se?". E se eles fossem assim, plural?
Um quase-amor quando acaba parece pior do que um amor de verdade. É por causa dessa palavra, esse quase. Tudo repousa em seu quase-devido lugar - ele é ele, ela é ela - mas ainda no peito bate um vazio diferente, é melhor não pensar para não correr o risco.
"Você não vai se esquecer de mim". Pode tentar se convencer de que conseguiu, mas em algum segundo de silêncio a memória trai.
O que dói, dói pela falta. E algumas dores nem o tempo cura, só deixa se acostumar.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Infinito de nós dois

Para ser sincera, eu não gosto muito de escrever para você.
Tudo o que eu falava dessas nossas aventuras soava leviano, parecia só mais um amontoado de letrinhas que todo mundo escreve.
Aí você disse que ia embora, e eu achei besteira te dizer adeus. Você nunca vai embora de mim.
Mas eu quis dizer alguma coisa... Então eu vou te contar a verdade.
"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida", disse Vinicius de Moraes. As palavras na página do livro levaram meus pensamentos imediatamente à você, essa pessoa que eu tanto encontro e desencontro.
Eu achei que não te amasse o tempo todo. Achei que te amasse dia-muito, dia-pouco, dia-quase, dia-sim-dia-não.
A tua presença às vezes me sufoca, sabe? Esse pesar no meu peito aperta, é uma responsabilidade e eu não sei a hora certa de se ter, por isso alguns dias acordo querendo respirar outros ares, sentir outros aromas. E tudo estaria bem se eu ao menos conseguisse. O teu ar me sufoca mas é o único que eu consigo respirar, quão decorada parece essa sentença?
Eu esperava por um desses contos encantados - em algumas tempestades ainda me pego esperando - que me fizesse conhecer o real sentido do que eles chamam de amor. Aquela mesma conversa de saber à primeira vista, do mundo chacoalhar, do céu perder o brilho para outros olhos.
Não foi isso que aconteceu comigo, não. As estrelas ainda estavam brilhando lá em cima, no breu do depois, eu só não consegui imaginar outra pessoa para ocupar o seu posto ali ao meu lado. Não acreditava naquela coisa de "química", até sentir seu corpo no meu. O seu toque, a sua calma, o seu olhar dizendo que continua lá, só comigo. Foi num segundo que o mundo sumiu, ainda não sei como você fez.
Eu consigo atravessar meus dias até que bem sem você. Quase feliz, eu arriscaria dizer. Mas aí você chega e o mundo sempre some, quão pronta parece essa frase?
Você me conhece à essa altura, sabe que não suportaria cair no óbvio. Então juntou as mãos com o destino e fez a vida rir de mim, da minha certeza egoísta. Fez com que ela parecesse um pouco sem sentido sem você por aqui.
Agora você já sabe quem eu sou. Eu, com todas as minhas convicções tortas e minhas dúvidas cruéis, todas as minhas falhas mascaradas. Sabe disso e ainda assim abre a porta e entra, volta no dia seguinte, acho difícil de entender. Eu já quis atirar tudo para o alto e sair correndo daqui, já dei motivos para você fazer o mesmo. Mas algo acontece e a gente fica.
Todas as pessoas vem e vão, esquecem de retornar, alimentam teorias, acham que conhecem o que é sentir, pensam que experimentam da vida o que ela tem de melhor e riem de quando você vira as costas para mim (ou o contrário). Algumas até decidem ficar por um tempo, mas o fato é que todas estão condenadas à ser nada mais do que breves. Eu não sei se esse é o tão falado amor - essa insuficiência do resto das pessoas, essa sensação de que tudo que não é você não basta - eu sei só da minha vontade de voltar para casa e te encontrar me esperando, de te contar o que aconteceu naquele caos que é sair de perto de você, ainda que só por algumas horas.
E o tempo? Ah, eu nem vou falar do tempo. Eu tinha medo do ponteiro do relógio e da velocidade que ele tem, afinal num segundo tudo muda. Você me ensinou a não tentar saber quantos minutos já se passaram, a não tentar calcular tão desesperadamente quantos ainda estão por vir.
E por falar em coisas para ensinar, foi com você que eu aprendi quem sou eu. É verdade que essa pessoa tem muito de você, por isso acho até comum que eu sinta receio em afirmar qualquer estabilidade sozinha. Mas a pessoa que eu quero ser tem muito de você também, sabia?
Não sei se eu sou o que você merece, mas quero ser o que você precisa. É difícil de entender, o meu mundo não cachoalha quando você chega - apesar de eu sempre abrir um sorriso - mas ele desmorona quando você sai.
E depois de todas essas idas e vindas, dessas nossas histórias que a gente construiu com o cuidado mais descuidado que eu já vi, eu posso afirmar que não senti por mais ninguém o que você faz acontecer dentro de mim quando você passa, pelo menos não até hoje.
Não gosto de escrever para você porque nunca sei direito o que dizer. Para as outras pessoas até consigo ensaiar uma palavra ou outra, mas com você eu converso no silêncio do olhar, no absoluto do íntimo.
Sei que sou uma montanha-russa de emoções mas agora também sei que eu te amo o tempo todo, sim. E posso amar dia-muito, dia-pouco, dia-quase, dia-sim, é verdade. Mas nunca dia-não.
O grande poeta disse que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. Eu continuo vivendo e esbarrando em surpresas por aqui e por ali. E digo até que tudo bem se os nossos caminhos se desencontrarem, desde que eles nunca parem de encontrar seu caminho de volta.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Folhetim

Quando era pequena e ainda brincava de contos de fadas, Emena nunca se sentia confortável sendo a princesa. Gostava de ser fada, de ser bruxa, de ter poderes mágicos. Só a idéia de passar a história toda sentada na torre esperando alguém chegar lhe embrulhava o estômago.
Agora Emena é uma mulher menina. Ou uma menina mulher, não decidiu ainda. Vai brincando por aí de ser adulta, ou sendo adulta sem parar de brincar de ser criança, como preferir.
A princípio, encanta a qualquer um... E sabe de seus encantos. Diz que não, mas bem que sabe, qualquer mulher sabe. Emena sorri com os olhos e diz tudo o que tem que dizer só com eles. Mexe no cabelo e deixa escapar da boca um segredinho, outra confidência. Uma ou outra travessura.
Emena cresceu numa bolha cor-de-rosa e aprende pouco a pouco que as pessoas do mundo real não são como esperava que fossem, então sai de casa com o seu melhor sorriso estampado e não olha para o chão.
É algo... como dizer? Algo bonito de se assistir. Emena dança com as pessoas, com as palavras, consigo mesma. Por vezes escorrega, mas levanta do chão e recomeça.
Bailarina do destino, aprendeu a ir aonde a música levar. Nenhuma tarefa fácil, diga-se de passagem, até porque a dor de ir querendo ficar é uma das piores que já sentiu.
Dizem de passagem... Então assim continua, de passagem, bonita expressão. Emena sente um calor vindo de dentro e sabe que os olhos brilham quando fala de falar. É uma ciência - uma arte! - saber o que dizer. Mas nem sempre sabe. O silêncio às vezes toma conta de seu corpo, e Emena afunda no vazio que é ser Emena, no vazio que é ser.
Olha o que tem diante de si, no espelho. "É um castelo de cartas", eu sempre aviso, mas ela não escuta.
Emena tem um mundo só dela que mais ninguém tem a chave. E é de lá, bem do fundo de tudo o que restou de si, que saem suas verdades cortantes e suas rajadas de impropérios.
"O mundo é preto e branco", eu sempre digo, mas Emena é colorida. E mesmo sem saber se suas cores são de verdade, ela tem vontade de sair colorindo tudo o que vê pela frente.
Gosta de inventar emoções, de sentir o arrepio pelo corpo, de dar gargalhadas, de ouvir músicas calmas para aquietar as dúvidas que vem de dentro. A peculiaridade de Emena se apóia justamente nessa sua essência de contradição, nesse seu não-saber se é forte por fora e pequena por dentro ou o contrário. É única nesse não-saber, o mesmo que ninguém sabe, e por isso é ordinariamente fora do comum. Vai pesando na balança, vive alternando, cada pedaço seu na superfície de uma vez.
Emena é uma amálgama louca de tudo o que há no mundo para se ser. Tanta existência assim, numa pessoa só, e ainda se sente só. Chora no quarto, na madrugada, querendo ouvir o que precisa, mas sem ninguém ali pra lhe dizer uma só palavra.
Acha até engraçado. O que a machuca, não conta para ninguém, mas ainda assim algumas vezes espera que alguém chegue para lhe confortar, como se pudessem adivinhar seu sofrimento por de trás da sua postura confiante.
É uma fortaleza, essa mulher.
E é tão frágil essa menina.
Emena bem que tenta esconder, dizer que não, mas lá no seu silêncio já admitiu que é uma romântica incurável. Por isso espera - e como espera - por aquilo que lê nos livros e assiste nos filmes, sem saber quando - e se - vai chegar a hora de sentir que está inteiramente encantada.
O problema em ser assim, tanta gente em uma só, é que ninguém cativa Emena por inteiro. Alguns tentam, se esforçam, se perdem e se perguntam, enquanto ela escuta o mesmo refrão, 'pobres desses rapazes que tentam lhe fazer feliz', o encanto nunca dura.
Emena queria que alguém falasse sobre ela, que soubesse lhe descrever. Mas sabe que ninguém faria isso melhor do que si própria, ninguém sabe das cicatrizes que tem. Então depois de um tempo desiste, cai de volta no vazio de ser, no excesso de sentir.
Sua existência é marcada de excessos, aliás. Emena brinca demais, desespera-se demais, finge demais. Mas não consegue ser só meio-termo. Vai de um extremo ao outro sentindo tudo ao extremo, mas gosta de ser assim, de saber o gosto que a vida tem.
A verdade é que Emena se entrega, ainda que com medo, e nem sempre escolhe o melhor caminho para seguir. Usa sempre um relógio, mas conta - e sente - as horas de uma forma diferente das outras pessoas.
É uma fada com desejos de princesa, uma princesa com pensamentos de bruxa, uma bruxa com sentimentos de fada. Vive nesse impasse, nesse meio-ser-extremo.
Isso porque Emena é diferente. Diferente de tudo o que você já viu, diferente de tudo o que você pode entender e ainda assim igual a todo o resto da gente desse planeta.
Emena é montanhosa em tempos de terras planas. E vai passeando pelo mundo, subindo, descendo, subindo e descendo.
Esperando sua vez de viver uma grande história, vai escrevendo contos breves de lugares cheios de venturas. Ainda na infância, enquanto teimava em ser fada ou bruxa, ela sabia que não querer ser princesa significava ser coadjuvante.
Emena ainda sabe disso, e em algumas madrugadas esse mesmo pensamento chega para lhe assombrar por algumas horas. Mas depois logo se lembra: para alguém, algum dia, vai ser a protagonista. Já tem sempre o papel principal de si mesma, de suas escolhas.
E além do mais, se for parar para pensar, é um pequeno preço a se pagar.
Ela não precisa esperar ninguém numa torre... Emena tem poderes mágicos.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Por agora

Meu querido você que só eu conheço,

Vim dizer que fui embora. E chega a ser até engraçado.

Achei que sentiria uma dor peculiar que por vezes já senti, um peso. Tudo o que conseguia sentir, porém, era a falta dele nos meus ombros.
Não é que eu não pense. O carro está esperando e as malas estão prontas, mas que tipo de coração nunca olha pra trás? Então penso, sim. E questiono...
Eu respirei quem você é por muito tempo. Algumas vezes bem pouco, outras até demais. E assisti tua presença aparecer, sumir, ficar, partir.
Certa vez você me disse que eu te deixava confuso. Agora sei que isso aconteceu pelo simples motivo de que eu sou o movimento e você está sempre estagnado. Eu mudo de idéia mas sei o que quero, você é incerteza o tempo todo.
Dizia, e depois não, tinha medo dos seus passos. Ora, eu não sou mais uma menina, minha criança. Talvez você tenha ainda alguns anos para viver antes que nos encontremos novamente.
Naquele dia, logo antes, você sorriu quando eu disse que ia embora. Achou que para ir embora era preciso mudar de lugar... Eu já sabia, então apenas sorri de volta, e me perguntei se você entenderia meus motivos quando tudo acontecesse.
Resolvi escrever para clarear, quanta ironia nisso. E se você não se pergunta, muito bem, desculpe-me pelo incômodo. Mas se sim...
Saiba que ainda há muito o que viver, para nós dois. Talvez nesse tempo você aprenda que os desejos e as paixões não são como aquelas que a gente tem na escola.

Você vai saber, um dia vai saber. E vai entender que não é que a tua figura não more em meus pensamentos, é só que ela não mora na minha realidade. Até porque foi você quem não quis que isso fosse diferente.
Não há espaço aqui agora para algo tão oposto a mim mesma, teus medos não cabem perto dos meus.
Assisti a mesma história se repetindo e eu não quero ficar assim, presa no mesmo livro. Se fosse ao menos outra edição...
Então juntei toda a coragem em mim e fui. E chega a ser até engraçado.
Eu respirei você por muito tempo, até quando você não estava lá. Agora eu preciso de um novo ar.
Eles, surpresos, intrigados e até um pouquinho irritados, advertiram: serão novas dores.
Pois eu digo, novas dores? Aí que está. Novas, dores novas.

Até... quem sabe?

Atenciosamente,
Meus eus que só você conhece.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Ao seu incompleto dispor

Só pelo contrário, ando escrevendo muito mais ultimamente.
Estou aqui. Minha voz, meu cheiro, minhas palavras, minha presença.
Mas e quando eu não estiver?
Foi num momento dessa madrugada que o pensamento entrou pela janela e sentou-se ao pé da cama. Ali ficou, encarando-me, e então me perguntei "Vai sentir a minha falta?".
As pessoas sempre vão embora, isso é um fato. Uma hora estão ali, noutra não estão mais. E se vão, vão por diversos motivos que carecem - ou transbordam - de amor ou de coragem.
Uma hora a gente se cansa e vai, simples assim. Um dia o passo perde a dança...
Esse minuto chega, pungente. Na urgência sei que vou saber.
Mas quando lá estiver, inerte entre dúvidas, saberei partir querendo ficar? E o inverso também?
E quanto à você? Vai me deixar ir ou fechará a porta?
Descobrirá o que é tudo isso só para saber se vale a pena ficar?
Na eterna dúvida cruel, o que é merecedor de esforço?
Se meus pensamentos vão indo para outro lugar pouco a pouco, isso já não seria um sinal?
E se olho ao longe, vou escapando por um fio. Já não seria um chamado?
Agora é logo antes, tudo está parado no lugar, então continuo.
Num segundo escuta a minha voz, sente meu cheiro, minhas palavras, minha presença. É, estou aqui.
Mas logo no outro, já se pergunta: o que vai fazer quando eu não estiver mais?

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Você sente ciúmes?

Sabe aquele sentimento estranho?
Eu corro o risco de parecer óbvia o tempo todo. E morro se for óbvia, alguém já morreu disso?
Mas aquela fúria é ao mesmo tempo arrebatadora e sutil.
Deixa que eu te explique, meu bem. Não é que eu queira apagar tudo que veio em sua vida antes de mim, até porque eu não faria o mesmo, mas eu sei que quero alguma coisa.
O que é que eu sinto? Você sabe me dizer?
Aquele mesmo som, eu fico ouvindo as mesmas notas. Não sou mais aquela menina - aquela que se pensava mulher - então não era pra ser indiferente a sua presença?
Era, era sim. Mas logo me pego querendo que você não diga o nome de mais ninguém. Que não deixe que te seqüestrem na intimidade do toque.
Não, não vá... Diz o meu nome, fala pra mim, me conta um segredo. Olha pra cá e fica.
Sabe aquele sentimento estranho? Então, aquele.
E eu fico pensando "O que é que eu sinto?". Será que você saberia me dizer?

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Depois das quatro

Algumas vezes eu só queria ser menos intensa. Mas sempre quero isso depois.
E na hora de sentir? E no calor do momento?
Eu falo, penso, vivo. Não me preocupo com medidas, com arrependimentos. Arranco do peito e só. No mais tardar, o que vem depois.
E nesse mais tarde...
É tudo sempre muito lógico, o mal é sempre óbvio em retrospecto. Difícil é saber lá, com o sangue fervendo.
Se sou algo, uma coisa só, sou antes de tudo, prolixa. Não sei sentir pela metade, não me estender no assunto.
E furiosa, arranco do peito e só.
Sou forte, eu sei, não sou pequena. E de muitas de mim nem queira saber. A cabeça erguida, quero ser uma fortaleza... Até as quatro da manhã.
No silêncio da madrugrada não há mais o escutar que não a si mesmo, e eu me ouço questionando cada palavra dita. Talvez se eu tivesse feito diferente...
Mas não dá, não dava, nunca deu. Fico perdida em sensações, desejos súbitos, memórias, emoções. Aí arranco do peito e só.
Mas eu bem que quis, hoje bem que quis que alguém chegasse para me salvar. Alguém que não me deixasse perdida em labirintos, que me resgatasse desse oceano de sentir. E que baixinho, em meu ouvido dissesse: "Conte até mil que eu seguro a sua mão".
O querer me aperta, dói. E me pego pensando, sempre quero depois. Na urgência da hora ninguém aparece e eu queria ser menos intensa.
O jeito é arrancar do peito. E só.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Meus cumprimentos, meu amor

Ela olhava para a janela, mas sentia sua presença acanhada, quieta.
Então aquele era o fim. Queria que não desviasse o olhar, mas ultimamente ele só tinha olhos para o futuro. Um futuro sem ela.
Quis algo íntimo, um "até logo", qualquer coisa. Ele a abraçou, e enquanto estavam os dois lá, juntos, quis que ficasse.
Mas quis mesmo? Quis por quê? Ora, é possível que aquilo fosse mais um capricho, uma dança de conquista. A música toca no silêncio, os pés se movimentam sem querer. Fazer com que ele sentisse também - qualquer que fosse o 'ele' da vez - era sempre um desafio. E ela amava desafios.
Conseguiu, por fim. Por pouco, por muito, por tempo. Mas agora ele ia embora, sabia. Ia embora um pouco todo dia, porque é assim que vão. Dizem os tolos que é sem saber, que se vai assim como veio, repentino. Mas a verdade é que sempre se sabe.
Lembrou-se do pai, que ainda quando pequena saía de casa para longas viagens de negócios, sempre dizendo "Volto já", alegando que o tempo passa rápido. Foi aí que aprendeu que é mais fácil para quem vai do que para quem fica. É sempre triste esperar.
E agora, ia esperar pelo quê?
O relógio não tinha mais tanta fome quanto antigamente, os segundos se arrastavam, cruéis.
Ele saiu do abraço e foi se sentar de novo, ela voltou a encarar a paisagem. Quão frio era aquilo, quão frio era aquele lugar. "Então é isso", pensou. "Então é assim". Conhecia algumas despedidas mas nunca teve certeza.
Ela sabia de suas mulheres, ele as tinha listadas pois não eram muitas. Não foram amores como são esses de hoje em dia, líquidos. Elas eram belas.
Se não era para doer saber que agora ela era uma dessas mulheres, então por que é que doía? Talvez fosse o peso dessa beleza que tinha cheiro e gosto de passado.
Aonde é que foi? Qual foi a escolha, a fala, o silêncio? O momento exato em que tudo se perdeu.
A verdade é que não foi nenhum, não foi nada disso e foi tudo isso de uma vez.
Tentou resgatar na memória, mas os fatos estavam borrados e fora do lugar. Já não importava mais, não fazia diferença.
Capricho ou não, aquilo era também uma questão de ego, sempre é. Então olhou-o, em silêncio, dizendo tudo o que sentiu que faltava dizer. Não que aquilo fosse mudar alguma coisa, mas precisava falar, pedir que ficasse, ainda que só com os olhos.
"Se quer ir, então que vá", falava em alto e bom tom, "eu também não volto mais". O corpo parado, as mãos fechadas, a voz firme. Quase dava para acreditar que não se importava mais, ele talvez tenha acreditado. Brigava consigo mesma, sentia dentro de si alguém que gritava e pulava como quem discordasse freneticamente de tudo o que saía de sua boca, mas não deixava transparecer dúvida alguma que fosse. Ou talvez só algumas...
Era uma menina outra vez. Frágil, pequena. E se tinha alguém a culpar por tudo aquilo, tinha muito de si própria, de suas ações confusas, de seu discurso contraditório.
Algumas vezes ele a olhava com o canto dos olhos, outras vezes seus olhares se cruzavam no meio de uma desculpa qualquer. Era como se dissesse alguma coisa, era como se o céu tivesse cor outra vez. Mas aí tudo se perdia novamente.
O que estaria pensando? O que estaria sentindo? Será que sabia o que fazia? Nem ela sabia.
Mas aquela era a hora. Os pés pesados andavam sem querer, caminhavam em diração à porta.
Imaginou se ele sentiria sua falta, se ao menos notaria sua ausência dali em diante, se eles se encontrariam outra vez, mas no fundo não sabia se queria mesmo saber a resposta dessas perguntas.
Decidiu sair antes que ele o fizesse, então finalmente saiu. Foi embora sem olhar para trás, tentando não se arrepender.
Passou pela porta como quem passa por uma porta qualquer, deu alguns passos e depois parou para ouvir o silêncio que vinha de dentro de si. Aquele nada ensurdecedor era o barulho de suas certezas e expectativas caindo num poço sem fim.
Sentiu um gosto amargo. Primeiro só na boca, mas logo tudo parecia amargo demais.
Uma parte dela morreu naquele dia. Naquele segundo, para ser mais exata. Alguma coisa dentro de si, alguém, tinha acabado de deixar de existir.

E só de pensar que ainda tem gente que diz que se apaixonar é uma das coisas mais doces que existem no mundo.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ele que quer sempre ganhar a causa

Hoje você me disse que queria conversar. Eu, sem meu escudo.
Mas moço, eu não carrego um escudo. Ou carrego?
Eu sou uma mulher agora, e o que carrego comigo são minhas lembranças de infância.
Minhas cartas, artimanhas. Na mente, às vezes, você.
Você que tem tanta certeza, que quer me convencer. E eu acho bonita essa certeza em você.
Essas apostas... Hoje não, agora não. Depois. Mas com confiança.
No futuro, nessa palavra incerta. É lá que estão nossos encontros.
Não pensa no que vai mudar, no que pode ser, e mais, no que pode deixar.
Pensa só no que é, que por tanto tempo foi e assim deveria continuar. A gente conversando sem conseguir não falar de nós.
Eu não sei se o mundo vai te ensinar que as coisas não são assim, ou se vai me ensinar que elas podem ser, que contos de fadas existem, como no livro em que você me deu.
Mas enquanto isso, o que tem pra fazer? Acreditar?
Eu uso meu escudo para não me machucar. E se você prometer que vai cuidar de mim e depois sumir? E se prometer e depois ficar?
Você precisa saber, talvez tudo dê errado ou talvez dê certo afinal, mas é um passo arriscado deixar tudo para depois.
Até lá, no agora, restam sonhos e dúvidas, olhares discretos carregados de segredos.
As coisas são o que são. Mas e se...?

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Primaveras

No começo, a dúvida é pequena quando bate.
O sorvete é de morango ou é de chocolate.
Azul ou cor-de-rosa? Eu queria brigadeiro,
Queria acordar cedo para sonhar o dia inteiro.

Era doce ser assim, apenas mais um projeto.
Uma promessa, um talvez, algo tão incerto.

Havia dragões, sereias, navios e castelos...
Fadas que voavam na floresta de cogumelos


Parecia que eu tinha todo o tempo do mundo.
Algumas vezes desperdiçando cada segundo,
O agora eu não queria, eu queria só o depois
Queria namorar, não contar dois mais dois

Mas não é engraçada essa absurda vontade?
Eu queria ser gente grande, contente e livre.
Acontece que o mundo dói, e que na verdade
A gente não sabe o que é a vida até que vive.

E depois de já ter colhido uma ou outra violeta
Tendo visto primaveras de céu azul, cinza, lilás
Se ao menos eu pudesse desvirar a ampulheta,
Deixar o agora, fazer o tempo andar para trás...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Enigma

Mas veja bem, o que me dói não é que tenhas dito "já", e ainda não.
E veja, meu bem, que o que me dói não é que tenhas dito "um dia", e era agora.
E não é também que tenhas dito "fico", quando ia.
Dói em mim que tenhas dito "nunca".
Nunca, ao que há de mais verdadeiro em mim.
Amar, não amar...
Já, um dia, fico. Não, agora vou.
Então vai.