Ela olhava para a janela, mas sentia sua presença acanhada, quieta.
Então aquele era o fim. Queria que não desviasse o olhar, mas ultimamente ele só tinha olhos para o futuro. Um futuro sem ela.
Quis algo íntimo, um "até logo", qualquer coisa. Ele a abraçou, e enquanto estavam os dois lá, juntos, quis que ficasse.
Mas quis mesmo? Quis por quê? Ora, é possível que aquilo fosse mais um capricho, uma dança de conquista. A música toca no silêncio, os pés se movimentam sem querer. Fazer com que ele sentisse também - qualquer que fosse o 'ele' da vez - era sempre um desafio. E ela amava desafios.
Conseguiu, por fim. Por pouco, por muito, por tempo. Mas agora ele ia embora, sabia. Ia embora um pouco todo dia, porque é assim que vão. Dizem os tolos que é sem saber, que se vai assim como veio, repentino. Mas a verdade é que sempre se sabe.
Lembrou-se do pai, que ainda quando pequena saía de casa para longas viagens de negócios, sempre dizendo "Volto já", alegando que o tempo passa rápido. Foi aí que aprendeu que é mais fácil para quem vai do que para quem fica. É sempre triste esperar.
E agora, ia esperar pelo quê?
O relógio não tinha mais tanta fome quanto antigamente, os segundos se arrastavam, cruéis.
Ele saiu do abraço e foi se sentar de novo, ela voltou a encarar a paisagem. Quão frio era aquilo, quão frio era aquele lugar. "Então é isso", pensou. "Então é assim". Conhecia algumas despedidas mas nunca teve certeza.
Ela sabia de suas mulheres, ele as tinha listadas pois não eram muitas. Não foram amores como são esses de hoje em dia, líquidos. Elas eram belas.
Se não era para doer saber que agora ela era uma dessas mulheres, então por que é que doía? Talvez fosse o peso dessa beleza que tinha cheiro e gosto de passado.
Aonde é que foi? Qual foi a escolha, a fala, o silêncio? O momento exato em que tudo se perdeu.
A verdade é que não foi nenhum, não foi nada disso e foi tudo isso de uma vez.
Tentou resgatar na memória, mas os fatos estavam borrados e fora do lugar. Já não importava mais, não fazia diferença.
Capricho ou não, aquilo era também uma questão de ego, sempre é. Então olhou-o, em silêncio, dizendo tudo o que sentiu que faltava dizer. Não que aquilo fosse mudar alguma coisa, mas precisava falar, pedir que ficasse, ainda que só com os olhos.
"Se quer ir, então que vá", falava em alto e bom tom, "eu também não volto mais". O corpo parado, as mãos fechadas, a voz firme. Quase dava para acreditar que não se importava mais, ele talvez tenha acreditado. Brigava consigo mesma, sentia dentro de si alguém que gritava e pulava como quem discordasse freneticamente de tudo o que saía de sua boca, mas não deixava transparecer dúvida alguma que fosse. Ou talvez só algumas...
Era uma menina outra vez. Frágil, pequena. E se tinha alguém a culpar por tudo aquilo, tinha muito de si própria, de suas ações confusas, de seu discurso contraditório.
Algumas vezes ele a olhava com o canto dos olhos, outras vezes seus olhares se cruzavam no meio de uma desculpa qualquer. Era como se dissesse alguma coisa, era como se o céu tivesse cor outra vez. Mas aí tudo se perdia novamente.
O que estaria pensando? O que estaria sentindo? Será que sabia o que fazia? Nem ela sabia.
Mas aquela era a hora. Os pés pesados andavam sem querer, caminhavam em diração à porta.
Imaginou se ele sentiria sua falta, se ao menos notaria sua ausência dali em diante, se eles se encontrariam outra vez, mas no fundo não sabia se queria mesmo saber a resposta dessas perguntas.
Decidiu sair antes que ele o fizesse, então finalmente saiu. Foi embora sem olhar para trás, tentando não se arrepender.
Passou pela porta como quem passa por uma porta qualquer, deu alguns passos e depois parou para ouvir o silêncio que vinha de dentro de si. Aquele nada ensurdecedor era o barulho de suas certezas e expectativas caindo num poço sem fim.
Sentiu um gosto amargo. Primeiro só na boca, mas logo tudo parecia amargo demais.
Uma parte dela morreu naquele dia. Naquele segundo, para ser mais exata. Alguma coisa dentro de si, alguém, tinha acabado de deixar de existir.
E só de pensar que ainda tem gente que diz que se apaixonar é uma das coisas mais doces que existem no mundo.
Então aquele era o fim. Queria que não desviasse o olhar, mas ultimamente ele só tinha olhos para o futuro. Um futuro sem ela.
Quis algo íntimo, um "até logo", qualquer coisa. Ele a abraçou, e enquanto estavam os dois lá, juntos, quis que ficasse.
Mas quis mesmo? Quis por quê? Ora, é possível que aquilo fosse mais um capricho, uma dança de conquista. A música toca no silêncio, os pés se movimentam sem querer. Fazer com que ele sentisse também - qualquer que fosse o 'ele' da vez - era sempre um desafio. E ela amava desafios.
Conseguiu, por fim. Por pouco, por muito, por tempo. Mas agora ele ia embora, sabia. Ia embora um pouco todo dia, porque é assim que vão. Dizem os tolos que é sem saber, que se vai assim como veio, repentino. Mas a verdade é que sempre se sabe.
Lembrou-se do pai, que ainda quando pequena saía de casa para longas viagens de negócios, sempre dizendo "Volto já", alegando que o tempo passa rápido. Foi aí que aprendeu que é mais fácil para quem vai do que para quem fica. É sempre triste esperar.
E agora, ia esperar pelo quê?
O relógio não tinha mais tanta fome quanto antigamente, os segundos se arrastavam, cruéis.
Ele saiu do abraço e foi se sentar de novo, ela voltou a encarar a paisagem. Quão frio era aquilo, quão frio era aquele lugar. "Então é isso", pensou. "Então é assim". Conhecia algumas despedidas mas nunca teve certeza.
Ela sabia de suas mulheres, ele as tinha listadas pois não eram muitas. Não foram amores como são esses de hoje em dia, líquidos. Elas eram belas.
Se não era para doer saber que agora ela era uma dessas mulheres, então por que é que doía? Talvez fosse o peso dessa beleza que tinha cheiro e gosto de passado.
Aonde é que foi? Qual foi a escolha, a fala, o silêncio? O momento exato em que tudo se perdeu.
A verdade é que não foi nenhum, não foi nada disso e foi tudo isso de uma vez.
Tentou resgatar na memória, mas os fatos estavam borrados e fora do lugar. Já não importava mais, não fazia diferença.
Capricho ou não, aquilo era também uma questão de ego, sempre é. Então olhou-o, em silêncio, dizendo tudo o que sentiu que faltava dizer. Não que aquilo fosse mudar alguma coisa, mas precisava falar, pedir que ficasse, ainda que só com os olhos.
"Se quer ir, então que vá", falava em alto e bom tom, "eu também não volto mais". O corpo parado, as mãos fechadas, a voz firme. Quase dava para acreditar que não se importava mais, ele talvez tenha acreditado. Brigava consigo mesma, sentia dentro de si alguém que gritava e pulava como quem discordasse freneticamente de tudo o que saía de sua boca, mas não deixava transparecer dúvida alguma que fosse. Ou talvez só algumas...
Era uma menina outra vez. Frágil, pequena. E se tinha alguém a culpar por tudo aquilo, tinha muito de si própria, de suas ações confusas, de seu discurso contraditório.
Algumas vezes ele a olhava com o canto dos olhos, outras vezes seus olhares se cruzavam no meio de uma desculpa qualquer. Era como se dissesse alguma coisa, era como se o céu tivesse cor outra vez. Mas aí tudo se perdia novamente.
O que estaria pensando? O que estaria sentindo? Será que sabia o que fazia? Nem ela sabia.
Mas aquela era a hora. Os pés pesados andavam sem querer, caminhavam em diração à porta.
Imaginou se ele sentiria sua falta, se ao menos notaria sua ausência dali em diante, se eles se encontrariam outra vez, mas no fundo não sabia se queria mesmo saber a resposta dessas perguntas.
Decidiu sair antes que ele o fizesse, então finalmente saiu. Foi embora sem olhar para trás, tentando não se arrepender.
Passou pela porta como quem passa por uma porta qualquer, deu alguns passos e depois parou para ouvir o silêncio que vinha de dentro de si. Aquele nada ensurdecedor era o barulho de suas certezas e expectativas caindo num poço sem fim.
Sentiu um gosto amargo. Primeiro só na boca, mas logo tudo parecia amargo demais.
Uma parte dela morreu naquele dia. Naquele segundo, para ser mais exata. Alguma coisa dentro de si, alguém, tinha acabado de deixar de existir.
E só de pensar que ainda tem gente que diz que se apaixonar é uma das coisas mais doces que existem no mundo.

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