sábado, 19 de fevereiro de 2011

Folhetim

Quando era pequena e ainda brincava de contos de fadas, Emena nunca se sentia confortável sendo a princesa. Gostava de ser fada, de ser bruxa, de ter poderes mágicos. Só a idéia de passar a história toda sentada na torre esperando alguém chegar lhe embrulhava o estômago.
Agora Emena é uma mulher menina. Ou uma menina mulher, não decidiu ainda. Vai brincando por aí de ser adulta, ou sendo adulta sem parar de brincar de ser criança, como preferir.
A princípio, encanta a qualquer um... E sabe de seus encantos. Diz que não, mas bem que sabe, qualquer mulher sabe. Emena sorri com os olhos e diz tudo o que tem que dizer só com eles. Mexe no cabelo e deixa escapar da boca um segredinho, outra confidência. Uma ou outra travessura.
Emena cresceu numa bolha cor-de-rosa e aprende pouco a pouco que as pessoas do mundo real não são como esperava que fossem, então sai de casa com o seu melhor sorriso estampado e não olha para o chão.
É algo... como dizer? Algo bonito de se assistir. Emena dança com as pessoas, com as palavras, consigo mesma. Por vezes escorrega, mas levanta do chão e recomeça.
Bailarina do destino, aprendeu a ir aonde a música levar. Nenhuma tarefa fácil, diga-se de passagem, até porque a dor de ir querendo ficar é uma das piores que já sentiu.
Dizem de passagem... Então assim continua, de passagem, bonita expressão. Emena sente um calor vindo de dentro e sabe que os olhos brilham quando fala de falar. É uma ciência - uma arte! - saber o que dizer. Mas nem sempre sabe. O silêncio às vezes toma conta de seu corpo, e Emena afunda no vazio que é ser Emena, no vazio que é ser.
Olha o que tem diante de si, no espelho. "É um castelo de cartas", eu sempre aviso, mas ela não escuta.
Emena tem um mundo só dela que mais ninguém tem a chave. E é de lá, bem do fundo de tudo o que restou de si, que saem suas verdades cortantes e suas rajadas de impropérios.
"O mundo é preto e branco", eu sempre digo, mas Emena é colorida. E mesmo sem saber se suas cores são de verdade, ela tem vontade de sair colorindo tudo o que vê pela frente.
Gosta de inventar emoções, de sentir o arrepio pelo corpo, de dar gargalhadas, de ouvir músicas calmas para aquietar as dúvidas que vem de dentro. A peculiaridade de Emena se apóia justamente nessa sua essência de contradição, nesse seu não-saber se é forte por fora e pequena por dentro ou o contrário. É única nesse não-saber, o mesmo que ninguém sabe, e por isso é ordinariamente fora do comum. Vai pesando na balança, vive alternando, cada pedaço seu na superfície de uma vez.
Emena é uma amálgama louca de tudo o que há no mundo para se ser. Tanta existência assim, numa pessoa só, e ainda se sente só. Chora no quarto, na madrugada, querendo ouvir o que precisa, mas sem ninguém ali pra lhe dizer uma só palavra.
Acha até engraçado. O que a machuca, não conta para ninguém, mas ainda assim algumas vezes espera que alguém chegue para lhe confortar, como se pudessem adivinhar seu sofrimento por de trás da sua postura confiante.
É uma fortaleza, essa mulher.
E é tão frágil essa menina.
Emena bem que tenta esconder, dizer que não, mas lá no seu silêncio já admitiu que é uma romântica incurável. Por isso espera - e como espera - por aquilo que lê nos livros e assiste nos filmes, sem saber quando - e se - vai chegar a hora de sentir que está inteiramente encantada.
O problema em ser assim, tanta gente em uma só, é que ninguém cativa Emena por inteiro. Alguns tentam, se esforçam, se perdem e se perguntam, enquanto ela escuta o mesmo refrão, 'pobres desses rapazes que tentam lhe fazer feliz', o encanto nunca dura.
Emena queria que alguém falasse sobre ela, que soubesse lhe descrever. Mas sabe que ninguém faria isso melhor do que si própria, ninguém sabe das cicatrizes que tem. Então depois de um tempo desiste, cai de volta no vazio de ser, no excesso de sentir.
Sua existência é marcada de excessos, aliás. Emena brinca demais, desespera-se demais, finge demais. Mas não consegue ser só meio-termo. Vai de um extremo ao outro sentindo tudo ao extremo, mas gosta de ser assim, de saber o gosto que a vida tem.
A verdade é que Emena se entrega, ainda que com medo, e nem sempre escolhe o melhor caminho para seguir. Usa sempre um relógio, mas conta - e sente - as horas de uma forma diferente das outras pessoas.
É uma fada com desejos de princesa, uma princesa com pensamentos de bruxa, uma bruxa com sentimentos de fada. Vive nesse impasse, nesse meio-ser-extremo.
Isso porque Emena é diferente. Diferente de tudo o que você já viu, diferente de tudo o que você pode entender e ainda assim igual a todo o resto da gente desse planeta.
Emena é montanhosa em tempos de terras planas. E vai passeando pelo mundo, subindo, descendo, subindo e descendo.
Esperando sua vez de viver uma grande história, vai escrevendo contos breves de lugares cheios de venturas. Ainda na infância, enquanto teimava em ser fada ou bruxa, ela sabia que não querer ser princesa significava ser coadjuvante.
Emena ainda sabe disso, e em algumas madrugadas esse mesmo pensamento chega para lhe assombrar por algumas horas. Mas depois logo se lembra: para alguém, algum dia, vai ser a protagonista. Já tem sempre o papel principal de si mesma, de suas escolhas.
E além do mais, se for parar para pensar, é um pequeno preço a se pagar.
Ela não precisa esperar ninguém numa torre... Emena tem poderes mágicos.

Nenhum comentário: