domingo, 30 de janeiro de 2011

Ao seu incompleto dispor

Só pelo contrário, ando escrevendo muito mais ultimamente.
Estou aqui. Minha voz, meu cheiro, minhas palavras, minha presença.
Mas e quando eu não estiver?
Foi num momento dessa madrugada que o pensamento entrou pela janela e sentou-se ao pé da cama. Ali ficou, encarando-me, e então me perguntei "Vai sentir a minha falta?".
As pessoas sempre vão embora, isso é um fato. Uma hora estão ali, noutra não estão mais. E se vão, vão por diversos motivos que carecem - ou transbordam - de amor ou de coragem.
Uma hora a gente se cansa e vai, simples assim. Um dia o passo perde a dança...
Esse minuto chega, pungente. Na urgência sei que vou saber.
Mas quando lá estiver, inerte entre dúvidas, saberei partir querendo ficar? E o inverso também?
E quanto à você? Vai me deixar ir ou fechará a porta?
Descobrirá o que é tudo isso só para saber se vale a pena ficar?
Na eterna dúvida cruel, o que é merecedor de esforço?
Se meus pensamentos vão indo para outro lugar pouco a pouco, isso já não seria um sinal?
E se olho ao longe, vou escapando por um fio. Já não seria um chamado?
Agora é logo antes, tudo está parado no lugar, então continuo.
Num segundo escuta a minha voz, sente meu cheiro, minhas palavras, minha presença. É, estou aqui.
Mas logo no outro, já se pergunta: o que vai fazer quando eu não estiver mais?

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Você sente ciúmes?

Sabe aquele sentimento estranho?
Eu corro o risco de parecer óbvia o tempo todo. E morro se for óbvia, alguém já morreu disso?
Mas aquela fúria é ao mesmo tempo arrebatadora e sutil.
Deixa que eu te explique, meu bem. Não é que eu queira apagar tudo que veio em sua vida antes de mim, até porque eu não faria o mesmo, mas eu sei que quero alguma coisa.
O que é que eu sinto? Você sabe me dizer?
Aquele mesmo som, eu fico ouvindo as mesmas notas. Não sou mais aquela menina - aquela que se pensava mulher - então não era pra ser indiferente a sua presença?
Era, era sim. Mas logo me pego querendo que você não diga o nome de mais ninguém. Que não deixe que te seqüestrem na intimidade do toque.
Não, não vá... Diz o meu nome, fala pra mim, me conta um segredo. Olha pra cá e fica.
Sabe aquele sentimento estranho? Então, aquele.
E eu fico pensando "O que é que eu sinto?". Será que você saberia me dizer?

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Depois das quatro

Algumas vezes eu só queria ser menos intensa. Mas sempre quero isso depois.
E na hora de sentir? E no calor do momento?
Eu falo, penso, vivo. Não me preocupo com medidas, com arrependimentos. Arranco do peito e só. No mais tardar, o que vem depois.
E nesse mais tarde...
É tudo sempre muito lógico, o mal é sempre óbvio em retrospecto. Difícil é saber lá, com o sangue fervendo.
Se sou algo, uma coisa só, sou antes de tudo, prolixa. Não sei sentir pela metade, não me estender no assunto.
E furiosa, arranco do peito e só.
Sou forte, eu sei, não sou pequena. E de muitas de mim nem queira saber. A cabeça erguida, quero ser uma fortaleza... Até as quatro da manhã.
No silêncio da madrugrada não há mais o escutar que não a si mesmo, e eu me ouço questionando cada palavra dita. Talvez se eu tivesse feito diferente...
Mas não dá, não dava, nunca deu. Fico perdida em sensações, desejos súbitos, memórias, emoções. Aí arranco do peito e só.
Mas eu bem que quis, hoje bem que quis que alguém chegasse para me salvar. Alguém que não me deixasse perdida em labirintos, que me resgatasse desse oceano de sentir. E que baixinho, em meu ouvido dissesse: "Conte até mil que eu seguro a sua mão".
O querer me aperta, dói. E me pego pensando, sempre quero depois. Na urgência da hora ninguém aparece e eu queria ser menos intensa.
O jeito é arrancar do peito. E só.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Meus cumprimentos, meu amor

Ela olhava para a janela, mas sentia sua presença acanhada, quieta.
Então aquele era o fim. Queria que não desviasse o olhar, mas ultimamente ele só tinha olhos para o futuro. Um futuro sem ela.
Quis algo íntimo, um "até logo", qualquer coisa. Ele a abraçou, e enquanto estavam os dois lá, juntos, quis que ficasse.
Mas quis mesmo? Quis por quê? Ora, é possível que aquilo fosse mais um capricho, uma dança de conquista. A música toca no silêncio, os pés se movimentam sem querer. Fazer com que ele sentisse também - qualquer que fosse o 'ele' da vez - era sempre um desafio. E ela amava desafios.
Conseguiu, por fim. Por pouco, por muito, por tempo. Mas agora ele ia embora, sabia. Ia embora um pouco todo dia, porque é assim que vão. Dizem os tolos que é sem saber, que se vai assim como veio, repentino. Mas a verdade é que sempre se sabe.
Lembrou-se do pai, que ainda quando pequena saía de casa para longas viagens de negócios, sempre dizendo "Volto já", alegando que o tempo passa rápido. Foi aí que aprendeu que é mais fácil para quem vai do que para quem fica. É sempre triste esperar.
E agora, ia esperar pelo quê?
O relógio não tinha mais tanta fome quanto antigamente, os segundos se arrastavam, cruéis.
Ele saiu do abraço e foi se sentar de novo, ela voltou a encarar a paisagem. Quão frio era aquilo, quão frio era aquele lugar. "Então é isso", pensou. "Então é assim". Conhecia algumas despedidas mas nunca teve certeza.
Ela sabia de suas mulheres, ele as tinha listadas pois não eram muitas. Não foram amores como são esses de hoje em dia, líquidos. Elas eram belas.
Se não era para doer saber que agora ela era uma dessas mulheres, então por que é que doía? Talvez fosse o peso dessa beleza que tinha cheiro e gosto de passado.
Aonde é que foi? Qual foi a escolha, a fala, o silêncio? O momento exato em que tudo se perdeu.
A verdade é que não foi nenhum, não foi nada disso e foi tudo isso de uma vez.
Tentou resgatar na memória, mas os fatos estavam borrados e fora do lugar. Já não importava mais, não fazia diferença.
Capricho ou não, aquilo era também uma questão de ego, sempre é. Então olhou-o, em silêncio, dizendo tudo o que sentiu que faltava dizer. Não que aquilo fosse mudar alguma coisa, mas precisava falar, pedir que ficasse, ainda que só com os olhos.
"Se quer ir, então que vá", falava em alto e bom tom, "eu também não volto mais". O corpo parado, as mãos fechadas, a voz firme. Quase dava para acreditar que não se importava mais, ele talvez tenha acreditado. Brigava consigo mesma, sentia dentro de si alguém que gritava e pulava como quem discordasse freneticamente de tudo o que saía de sua boca, mas não deixava transparecer dúvida alguma que fosse. Ou talvez só algumas...
Era uma menina outra vez. Frágil, pequena. E se tinha alguém a culpar por tudo aquilo, tinha muito de si própria, de suas ações confusas, de seu discurso contraditório.
Algumas vezes ele a olhava com o canto dos olhos, outras vezes seus olhares se cruzavam no meio de uma desculpa qualquer. Era como se dissesse alguma coisa, era como se o céu tivesse cor outra vez. Mas aí tudo se perdia novamente.
O que estaria pensando? O que estaria sentindo? Será que sabia o que fazia? Nem ela sabia.
Mas aquela era a hora. Os pés pesados andavam sem querer, caminhavam em diração à porta.
Imaginou se ele sentiria sua falta, se ao menos notaria sua ausência dali em diante, se eles se encontrariam outra vez, mas no fundo não sabia se queria mesmo saber a resposta dessas perguntas.
Decidiu sair antes que ele o fizesse, então finalmente saiu. Foi embora sem olhar para trás, tentando não se arrepender.
Passou pela porta como quem passa por uma porta qualquer, deu alguns passos e depois parou para ouvir o silêncio que vinha de dentro de si. Aquele nada ensurdecedor era o barulho de suas certezas e expectativas caindo num poço sem fim.
Sentiu um gosto amargo. Primeiro só na boca, mas logo tudo parecia amargo demais.
Uma parte dela morreu naquele dia. Naquele segundo, para ser mais exata. Alguma coisa dentro de si, alguém, tinha acabado de deixar de existir.

E só de pensar que ainda tem gente que diz que se apaixonar é uma das coisas mais doces que existem no mundo.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ele que quer sempre ganhar a causa

Hoje você me disse que queria conversar. Eu, sem meu escudo.
Mas moço, eu não carrego um escudo. Ou carrego?
Eu sou uma mulher agora, e o que carrego comigo são minhas lembranças de infância.
Minhas cartas, artimanhas. Na mente, às vezes, você.
Você que tem tanta certeza, que quer me convencer. E eu acho bonita essa certeza em você.
Essas apostas... Hoje não, agora não. Depois. Mas com confiança.
No futuro, nessa palavra incerta. É lá que estão nossos encontros.
Não pensa no que vai mudar, no que pode ser, e mais, no que pode deixar.
Pensa só no que é, que por tanto tempo foi e assim deveria continuar. A gente conversando sem conseguir não falar de nós.
Eu não sei se o mundo vai te ensinar que as coisas não são assim, ou se vai me ensinar que elas podem ser, que contos de fadas existem, como no livro em que você me deu.
Mas enquanto isso, o que tem pra fazer? Acreditar?
Eu uso meu escudo para não me machucar. E se você prometer que vai cuidar de mim e depois sumir? E se prometer e depois ficar?
Você precisa saber, talvez tudo dê errado ou talvez dê certo afinal, mas é um passo arriscado deixar tudo para depois.
Até lá, no agora, restam sonhos e dúvidas, olhares discretos carregados de segredos.
As coisas são o que são. Mas e se...?

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Primaveras

No começo, a dúvida é pequena quando bate.
O sorvete é de morango ou é de chocolate.
Azul ou cor-de-rosa? Eu queria brigadeiro,
Queria acordar cedo para sonhar o dia inteiro.

Era doce ser assim, apenas mais um projeto.
Uma promessa, um talvez, algo tão incerto.

Havia dragões, sereias, navios e castelos...
Fadas que voavam na floresta de cogumelos


Parecia que eu tinha todo o tempo do mundo.
Algumas vezes desperdiçando cada segundo,
O agora eu não queria, eu queria só o depois
Queria namorar, não contar dois mais dois

Mas não é engraçada essa absurda vontade?
Eu queria ser gente grande, contente e livre.
Acontece que o mundo dói, e que na verdade
A gente não sabe o que é a vida até que vive.

E depois de já ter colhido uma ou outra violeta
Tendo visto primaveras de céu azul, cinza, lilás
Se ao menos eu pudesse desvirar a ampulheta,
Deixar o agora, fazer o tempo andar para trás...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Enigma

Mas veja bem, o que me dói não é que tenhas dito "já", e ainda não.
E veja, meu bem, que o que me dói não é que tenhas dito "um dia", e era agora.
E não é também que tenhas dito "fico", quando ia.
Dói em mim que tenhas dito "nunca".
Nunca, ao que há de mais verdadeiro em mim.
Amar, não amar...
Já, um dia, fico. Não, agora vou.
Então vai.