terça-feira, 1 de setembro de 2009

Despedida

Uma menina triste sentou no chão e encostou-se na parede. Sua saia rodada que lhe garantia um aspecto quase infantil, falhava em patentear a maturidade que suas antigas dores lhe outorgaram. Carregava consigo um caderno espesso cheio de sentimentos escritos à lápis, não gostava de tinta, de coisas incorrigíveis, tinha sempre consigo uma borracha.
Seus olhos correram por toda a sala tentando não perder nenhum detalhe, queria lembrar daqueles rostos pelo maior espaço de tempo possível.
Estavam todos lá, temerários, ansiosos a ir embora. Ela também queria ir, mas tinha medo do desconhecido. Queria poder voltar quando quisesse mas, uma vez fora de lá, não havia mais porta de entrada.
Abaixou a cabeça, escondeu-a com as mãos. Estavam todos sorrindo e era essa a imagem que queria ter perpetuada na mente, não queria ver mais nada. De onde estava ninguém a via - tinha sido dessa forma quase que o tempo todo - então não se preocupou quando uma lágrima tímida escorreu pelo canto dos olhos.
A pequena gotinha foi caindo devagar, parecia acariciar o rosto por onde escorregava, solta e satisfeita. Um sorriso acanhado lhe fez companhia... Tamanha era sua contradição, já não se importava mais.
Acostumara-se a viver assim, perdida no labirinto de si mesma, sozinha. Ninguém nunca esteve lá, nas profundezas de si - não encontrara ninguém valente o bastante.
Em poucos meses ela vai embora. Nenhum deles lhe escreveu uma carta, ninguém disse que faria falta - As pessoas tem a obrigação de dizer ou é preciso que se pergunte a elas?
Nasceu na época errada, a pobre menininha. Ou talvez o erro tenha sido o planeta. Queria morar em um livro igual àqueles que devorava, alucinada.
Antigamente, quando o brilho em seus olhos ainda era evidente, escrevia ao som de pianos e violinos. Agora prefere o silêncio. É isso que quer: silenciar o mundo. Quer que tudo o que conhece seja como em um filme de cinema mudo, palavras mentem melhor do que sons.
Parou por alguns minutos, o tempo parecia congelado. Já recomposta, locupletou o peito de coragem e olhou para cima. Tinha certeza, sentira aquele arrepio segundos antes. Ele entrava pela porta.
Não conversavam muito, principalmente nos últimos dias. Se conheciam de uma outra época que não oferecia firmeza suficiente para alegar que eram amigos. Às vezes se entreolhavam, seus olhos lhe prestavam infinitos elogios, os dele, entretanto, exalavam quietação - o homem não inventou maneira alguma de alcançar maior contrariedade - e ficava então evidente que o contato entre aquelas duas pessoas que se viam quase todos os dias se reduzia ao menor possível.
Ela podia sentir, porém, em cada osso de seu corpo, que o conhecia. Havia lido o que escrevera, suas confidências. Ele não sabia, desfilava desasado em sua confiança discreta, absorto em pensamentos longíquos de um mundo particular. No que estaria pensando? Seus mistérios a encantavam, tinha vontade de desvendá-los. Todavia, tinha medo de decepcionar-se com o resultado, então deixava-o ali, distante e esquecido. Quisera um dia ser tema de uma de suas confidências, mas não nascera protagonista.
Olhou para a janela, o dia estava ensolarado. No mínimo diferente, pensou, despedidas vem acompanhadas de chuva. Levantou-se, reuniu o resto de forças que tinha e foi andando em direção à porta: não ia mais prolongar aquele pesar.
Saiu e deixou para trás caças ao tesouro, dragões, piratas, fadas e sereias. Castelos, pincéis. Sonhos. Empenhou-se em só olhar para a frente, e assim o fez. Viu algumas pessoas partindo, a maioria chegando.
A menina espevitada abriu então seu velho caderno preto: letras e mais letras, apesar do mesmo tom de grafite, pareciam colorir cada espaço branco. Atirou no lixo sua borracha, alcançou na bolsa uma caneta azul e encostou levemente sua ponta no fim da última folha. Uma pequena bolinha se fez permanente. Agora só o amanhã...

Um comentário:

moi disse...

mas veja só... uma das primeiras coisas que se aprende em aulas de desenho, é a obrigação de esquecer da existência da borracha.

'não se apaga um traço', diz o professor; 'incorpora-se'.

acho que levei a sério demais essas lições