Tive uma briga de amor com o mundo porque ele insistiu que eu tinha que ser uma só. "Ou vilã, ou mocinha" - ele disse - "Nunca os dois".
Não costumo ouvir conselhos de quem eu sei que fala da boca para fora (como eu posso acreditar nisso se ao mesmo tempo em que ele é tão bonito é também tão errado?), mas no fim achei que a reclamação tinha um certo fundamento. Convoquei uma reunião de emergência com todos os Eus dentro de mim, e falei em alto e bom tom que só um deles ia ter o direito de ficar. Foi uma idéia muito boa. Na teoria. Já que logo após isso foi uma confusão só. Um querendo falar mais alto do que o outro, reclamações e acusações vindas de todos os lados, e não consegui chegar a nenhuma conclusão.
Eu não posso matar pedaços de mim (por mais que alguma vezes eu queira intensamente), então pedi para que alguém viesse e levasse essas partes estragadas embora, até que não sobrasse mais nenhuma. O que foi ótimo, na teoria. Um alguém veio, e depois outro alguém, e mais outro. Percebi que isso tudo não estava me tornando inteira, mas sim me transformando em uma fração ambulante cada vez mais absurda.
Depois veio alguém que não me tirou nenhum pedaço, mas não gostava muito dos que restaram por aqui. E mais uma vez me senti inútil por não conseguir enfiar uma faca bem no meio das minhas alegrias inventadas.
Eu quero ser mais do que uma só, de alma e de corpo. Quero estar em oito lugares ao mesmo tempo e ter trinta opiniões diferentes. Mas o mundo me disse outra vez que isso não era possível.
Tive uma idéia revolucionária, então. Eu podia juntar todos os Eus em um só e ser completa. Funcionou muito bem, na teoria. Na prática foi mais complicado. Era uma briga atrás da outra porque ninguém concordava em nada. Deixei a situação como estava, até que fui lembrada de que ser todas e ser uma simultaneamente era impossível.
Entrei em ação mais uma vez com uma idéia genial: eu tinha que achar outra pessoa que tivesse muitos Eus para viver comigo. E essa funcionou muito bem. Na teoria. Não encontrei ninguém que tivesse tantos Eus assim, e acabei ficando sozinha de novo.
Um dia, recebi um telegrama do mundo dizendo que aquela situação com tanta gente em um só ser humano não podia se prolongar mais. Eu tinha que tomar uma decisão logo e agir rápido.
Passou pela minha cabeça uma solução maravilhosa, que parecia dar fim ao meu problema. Juntei os Eus todos e disse que íamos nos mudar para outro planeta. E adivinhe só, funcionou excelentíssimamente bem, na teoria, porque na prática não achei astronauta nenhum que me levasse para longe daqui.
Passado algum tempo, cheguei em casa após um dia cansativo, troquei de roupa, comi chocolate, me joguei no sofá e foi deitada nele que pensei na salvação divina, a solução definitiva, a descoberta do século: eu não vou fazer nada. O mundo que me aceite assim mesmo ou, se incomodado, que se retire. Não gosto de padrões, idéias prontas, frases decoradas, mesmice. Eu vou continuar sendo uma por fora e por dentro um milhão, e quem tiver algum problema com isso que se vire.
Vem funcionando muito bem. Na teoria...
Não costumo ouvir conselhos de quem eu sei que fala da boca para fora (como eu posso acreditar nisso se ao mesmo tempo em que ele é tão bonito é também tão errado?), mas no fim achei que a reclamação tinha um certo fundamento. Convoquei uma reunião de emergência com todos os Eus dentro de mim, e falei em alto e bom tom que só um deles ia ter o direito de ficar. Foi uma idéia muito boa. Na teoria. Já que logo após isso foi uma confusão só. Um querendo falar mais alto do que o outro, reclamações e acusações vindas de todos os lados, e não consegui chegar a nenhuma conclusão.
Eu não posso matar pedaços de mim (por mais que alguma vezes eu queira intensamente), então pedi para que alguém viesse e levasse essas partes estragadas embora, até que não sobrasse mais nenhuma. O que foi ótimo, na teoria. Um alguém veio, e depois outro alguém, e mais outro. Percebi que isso tudo não estava me tornando inteira, mas sim me transformando em uma fração ambulante cada vez mais absurda.
Depois veio alguém que não me tirou nenhum pedaço, mas não gostava muito dos que restaram por aqui. E mais uma vez me senti inútil por não conseguir enfiar uma faca bem no meio das minhas alegrias inventadas.
Eu quero ser mais do que uma só, de alma e de corpo. Quero estar em oito lugares ao mesmo tempo e ter trinta opiniões diferentes. Mas o mundo me disse outra vez que isso não era possível.
Tive uma idéia revolucionária, então. Eu podia juntar todos os Eus em um só e ser completa. Funcionou muito bem, na teoria. Na prática foi mais complicado. Era uma briga atrás da outra porque ninguém concordava em nada. Deixei a situação como estava, até que fui lembrada de que ser todas e ser uma simultaneamente era impossível.
Entrei em ação mais uma vez com uma idéia genial: eu tinha que achar outra pessoa que tivesse muitos Eus para viver comigo. E essa funcionou muito bem. Na teoria. Não encontrei ninguém que tivesse tantos Eus assim, e acabei ficando sozinha de novo.
Um dia, recebi um telegrama do mundo dizendo que aquela situação com tanta gente em um só ser humano não podia se prolongar mais. Eu tinha que tomar uma decisão logo e agir rápido.
Passou pela minha cabeça uma solução maravilhosa, que parecia dar fim ao meu problema. Juntei os Eus todos e disse que íamos nos mudar para outro planeta. E adivinhe só, funcionou excelentíssimamente bem, na teoria, porque na prática não achei astronauta nenhum que me levasse para longe daqui.
Passado algum tempo, cheguei em casa após um dia cansativo, troquei de roupa, comi chocolate, me joguei no sofá e foi deitada nele que pensei na salvação divina, a solução definitiva, a descoberta do século: eu não vou fazer nada. O mundo que me aceite assim mesmo ou, se incomodado, que se retire. Não gosto de padrões, idéias prontas, frases decoradas, mesmice. Eu vou continuar sendo uma por fora e por dentro um milhão, e quem tiver algum problema com isso que se vire.
Vem funcionando muito bem. Na teoria...

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