terça-feira, 21 de outubro de 2008

Tradução

A menina acordou bem de manhã. Trocou de roupa. Escutou música a caminho da aula. Jogou paciência enquanto seu professor explicava a matéria. Olhou para as pessoas. Voltou para casa. Almoçou algo que não se lembra bem. Dormiu a tarde inteira. Acordou à noite. Olhou para o teto. Tomou banho. Não tinha mais o que fazer e foi dormir de novo.


Lê-se:
A menina acordou um pouco antes do sol sair, e pensou que nem notaria se ele decidisse continuar escondido pelo resto do dia. Com esforço, tirou o pijama, apesar de não querer tirá-lo do corpo pelos próximos oito meses, ou oito anos. A caminho da aula, pôs os fones no ouvido e escutou o silêncio que vinha de dentro de si e de um iPod desligado. Enquanto seu professor falava algo que ela preferia ignorar, mexia as cartas do jogo em seu celular para lá e para cá sem pensar por mais do que um segundo. Seus olhos foram passando de pessoa em pessoa, enquanto imaginava o que cada uma delas estava pensando naquele momento. Voltou para o único lugar que a sufocava menos. Comeu alguma coisa sem prestar muita atenção no quê. Fechou seus olhos para tentar dormir, mas, sem sucesso, passou a tarde divagando no vazio que era não ver nada por vontade própria. Quando não conseguiu mais passear entre enganos e sorrisos do passado, resolveu acabar com a escuridão e abrir os olhos, mas o sol não estava mais lá. Ficou olhando para o nada e pedindo para que aquela sensação de falta passasse logo, ao mesmo tempo em que se perguntava, aterrorizada, o que sentir depois que o seu constante “incompleto” fosse embora. Foi para o chuveiro e deixou a água escorrer pelo seu corpo até o ralo esperando que todos os seus medos fossem junto com ela. Cogitou fazer alguma coisa, talvez rabiscar, ler, ou pensar em momentos felizes, mas quando nada do que pensava lhe parecia agradável, conformou-se em deitar encolhida na cama e apenas refletir sobre como é fantástico o fato de todas as pessoas enxergarem alguém e sua rotina nitidamente, mas mesmo assim não terem a menor idéia de qual é a realidade por trás dessas cascas do cotidiano. Até que finalmente adormeceu.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O que se pensa no último passo

Vi com outros olhos aquela paisagem. Ali, naquele momento, tudo era diferente. Eu pensava em como tentei me ocupar com coisas fúteis, e como consegui.
Cada sorriso forçado, que de tanto aparecer, virou meu novo natural. E eu quis atirar nos outros antes que eu morresse aqui. Sair atirando, assim, só por atirar. Ir matando a todos com palavras - que são as únicas balas que eu conheço - justamente porque já morri por conta delas.
Essas coisinhas minúsculas, feitas de letrinhas miúdas, não precisam nem ser amoladas. São afiadas por si só. Nunca perdem seu poder, essas armas camufladas. Poder de sedução.
Mas o que posso fazer se elas são tudo o que tenho? Naquela hora, vendo o sol se escondendo tão longe, vi que talvez, só talvez, elas teriam sido minha salvação. Porém, por todo esse tempo tudo o que fiz foi apagá-las, mas essa não era a milagrosa solução que eu procurava. Quem sabe o segredo do sucesso – melhor dizendo, da sobrevivência – seja ser assim como “astro rei” e se esconder todos os dias. Exatamente da mesma forma que eu o via fazer agora. E ao contrário de evitar noites tão longas, abrir espaço para que elas venham.
Dei um passo depois do outro, bem devagar, tentando ignorar os gritos que sentia vindo de dentro. Eu não sei o que estava sendo dito, não escutei nenhum por inteiro. Há uma chance de que eles fossem súplicas, frenéticas e desesperadas. Ou podiam ser apenas meus defeitos.
Todo mundo tem defeito, eu sei. E não dava para ser um mecanismo perfeito, nunca deu. Mas diferente de todo o resto, do qual sempre erroneamente eu me ‘auto-retirava’, o meu defeito não era a falta de poesia e muito menos o excesso dela. O meu problema era minha poesia torta. Era o tamanho dessa intensidade louca, que de tão preenchida me levava ao vazio.
Estava ali, diante de mim, aquele anjo gracioso que só meus olhos viam. O meu anjo torto, vestido de preto, que sorria para mim. E não era de se estranhar que ele só sorrisse, afinal, para sorrir não se precisa de palavras, sorrir não faz nenhum som. E convenientemente tudo o que ele fazia, tudo o que eu queria, era silenciar o mundo.
Tive vontade de abraçar quase todas as pessoas que conhecia (eu queria agradecer por terem atenciosamente tentado descobrir o que havia de errado comigo) e quis mandar para o espaço a maioria delas, por terem ignorado o simples e evidente fato de que o que há de errado comigo é uma pessoa chamada Eu.
Eles nunca adivinharam, coitadinhos, que no fundo de mim mora uma pessoa egoísta, profunda e com mania de superioridade, além da capacidade de compreensão de todos nós (e eu estou me incluindo nesse “todos”). Ela mora em algum lugar que não conheço, eu só sinto. E ela acha que sabe falar inglês também.
Eu podia ouvir a voz dessa pessoa enquanto me aproximava do último passo. Ela não queria sofrer, pelo menos não esse sofrimento. Sempre reclamou, aos berros, suas dores para mim, já que ninguém mais podia ouvir como ela não suportava essa invenção maldita chamada dor. Então ela gritava, ou tentava gritar, pois seu nervosismo histérico a impedia de completar qualquer frase. E eu ouvia, bem de longe, mas mesmo assim nitidamente, o seu desespero egoísta e sensível à dor dizendo em inglês “I... I...I...” (lê-se “ai, ai, ai”)
Resolvi que nada valia a pena e que era melhor sair correndo e apenas se jogar. Covarde que sou, não o fiz. Parei bem no limite, onde um suspiro leva a um escorregão e um escorregão leva ao tudo. Ou ao nada, depende do ponto de vista.
E por falar em vista, que vista bonita era aquela, uma opção e tanto a se considerar quando pensamos qual é a última coisa que desejamos ver. Mas tanto verde e tanta imensidão, na verdade só faziam com que eu me sentisse pequena, e com que, junto a esse sentimento que vinha subindo dentro de mim, viesse também uma arrebatadora vontade de que a última coisa que meus olhos vissem fosse o rosto de alguém.
Deixei de lado. Não fazia diferença mesmo, até porque eu estava decidida e de forma alguma voltaria atrás. Literalmente.
Fechei os olhos devagar, fui inclinando meu corpo para frente e tentei não pensar no medo que senti da altura daquele penhasco. Pelo menos eu ia experimentar como era voar, e aquele voar era diferente de todos. Era único, era livre. E por conta dessa liberdade, enquanto sentia o vento forte contra o meu corpo inteiro, senti também todas as minhas nuvens negras se dissipando numa onda de calor. De repente nada mais importava. Essa era, com certeza, a melhor sensação do mundo.


Eu sei que amanhã vou acordar cedo, o meu sono nunca mais conseguiu ser pleno e tranqüilo. Vou vestir meu melhor Eu e vou tentar pôr um brilho nos olhos.
Mas talvez à noite eu me jogue de novo.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Papel Reciclado

Querido Eu Profundo,
Você uma vez me disse que voltaria logo. Mas isso não aconteceu e essa sua demora me mata um pouco mais a cada dia.
Então eu decidi que ia escrever para você - outra vez - uma carta em papel reciclado, para ver se o meu ânimo se empolga e também se recicla.
Depois vou colocá-la em um envelope cor-de-rosa, só porque você detesta. E vou colar nele um coração vermelho, só para ter alguma coisa que você odeie mais do que o envelope.
Quem sabe aí você não presta atenção em mim, exatamente a mesma pessoa que você abandonou, no mesmo lugar, do mesmo jeito. Vou escrever seu nome com uma daquelas canetas que brilham e colocar “Sei-lá-onde” no endereço do destinatário. Tudo isso para que você descubra o meu esforço todo ao contrário, para que veja primeiro o que fiz por último e vice-e-versa.
Todos esses disfarces, tudo em vão. Só para dizer para você que os dias por aqui andam difíceis.
Para confessar a você, meu melhor amigo, que sinto saudades, e dizer a você, meu pior inimigo, que algumas vezes desejei que você não voltasse nunca mais.
Eu me cerquei de gente nova “para passar o tempo”, como você mesmo disse. E me fantasiei do meu melhor sorriso para dar uma volta pela rua, porque você disse que talvez fosse doer menos se eu me distraísse. Acontece que não funcionou muito bem. Ainda sinto o tempo todo esse vazio dentro de mim, que coisa ou pessoa alguma consegue preencher.
Esse buraco enorme sem sentido e sem razão de ser, essa sensação que beira o surreal. Agora eu tenho que conviver com todos os meus fantasmas como se fossem vasos de flores, carpetes, lâmpadas no teto. E vivo esbarrando neles quando decido sair de casa.
Eu quero que essa dor morra. Quero que queime dentro de mim o máximo que puder para depois explodir numa onda infinita de libertação. Anseio que grite tão alto a ponto de quebrar os vidros, apenas para contrastar com os meus berros mudos.
E depois quero que vá embora com o vento. Que me deixe aqui sozinha com o nada, uma tela em branco, mente vazia, para ser tudo o que quis ser e não pude, o que ainda quero ser e não consegui.
Estimo que essa dor morra para que eu descubra - nas marcas que vai deixar em mim – quem sou eu, do que sou feita. Para decidir se alguma daquelas máscaras pode ser a verdadeira.
Sei que você não é capaz de resolver essa questão sozinho e que também não alcança a resposta dessa busca utópica do que somos, mas achei que talvez pudesse me encontrar algum dia desses para decidir, finalmente, se a pessoa sorridente nas fotos é a mesma das madrugadas frias. Quem sabe você não conhece a cura desse nosso mal de não saber para onde ir, não acreditar nas pessoas e se recusar a admitir as velhas lágrimas.
Viver por aqui dividida não é fácil, eu quero que saiba. Toda vez que alguém me olha daquele jeito estranho de admiração, eu só consigo pensar como seria o mundo se pudéssemos ver o lado de dentro das pessoas.
Foi por isso que decidi te escrever. Porque você está cada vez mais distante e quiçá por conta desse fato conheça verdades de outras partes do planeta, que porventura expliquem e até possam nomear esse sentimento esquivo.
Fica registrada aqui, então, a minha súplica por qualquer tipo de redenção, qualquer esperança (viva ou morta) dos tais dias coloridos que as pessoas tanto falam, mas que na verdade eu nunca vi.

Atenciosamente,


Eu


Obs: É bom que fique claro que, se dessa vez não houver resposta, o próximo envelope será verde-limão.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Capricho

Eu te vi lá de longe. Bem longe.
Mais um pouco e meus olhos já não alcançariam a sua pose despreocupada de menino levado. Eu não ia ver sua camisa nova, não ia conseguir analisar o seu andar exagerado e contraditório de quem quer ser visto mas no fundo só quer se esconder.
Mas eu reconheci seu sorriso. E o seu olhar meio de lado que sempre quis dizer alguma coisa que eu nunca consegui entender.
No meio da multidão. Entre pessoas que já conheço, que ainda vou conhecer e algumas que finjo que esqueci.
Eu não tenho nada a dizer, e muito menos você. Mas o fato é que tive que conter a minha vontade de correr para conversar contigo, mesmo que tudo que saísse da minha boca fosse apenas um mero "olá". Senti um desejo disfarçado de ansiedade subindo e descendo dentro de mim, e me dei conta de que é assim quando você está perto: eu sinto arrepios loucos que esperam que algo aconteça - e não importa o quê.
Aí você me olhou. Diferente. E tivemos aquela conversa rápida (que aparenta durar uma eternidade) sobre coisas superficiais, como se fôssemos outras pessoas que não conhecem a intimidade de um beijo.
Você continuou falando, e metade do que disse eu até escutei. Mas durante a outra metade eu me concentrei naquela figura de nós dois, antes tão notória e agora tão ignota.
Antigamente, eu podia escutar a sua voz por horas e horas e ainda assim não me dar por satisfeita. Era parte do charme esquisito que tínhamos juntos, dois protagonistas de um "quase-amor" descrito num texto pobre em vocabulário e com erros de pontuação, porém muito rico em idéias.
Mas ali você falava de outra forma. Talvez esse fosse o resultado da influência das outras pessoas que ocuparam a posição em que um dia estive, afinal, eu sempre soube que não ficaria lá para sempre. Outras meninas, outras mulheres, que, por mais puras e imaculadas que fossem, não desistiam de deixar sobre você um manto sujo de rastros do passado que jamais se apagam.
Quis jogar tudo para longe, e limpar toda a imundície de quem pôde ter você depois de mim.
Mas seria inaceitável. Eu já tenho para quem voltar, já tenho ombros onde posso chorar e companhia para meus momentos felizes - desde pequenos sorrisos até escandalosas risadas - então eu fui embora, mesmo querendo ficar.
Eu não faço a menor idéia da razão pela qual ainda me importo com a sua existência, ou o porquê dos meus pensamentos terem - temporarimente - um "novo" dono. Eu só achei que você merecia um texto renovado, para que eu não me esquecesse de que ainda que continue sem palavras perfeitas e pontos no lugar certo, sempre me mata de saudade quando, por ironia do destino, me encontro diante dele e de suas vírgulas que, ainda que postas em lugares totalmente errados, nunca pareceram tão corretas.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Abra as janelas

Você não chorou essa semana. Não derramou nenhuma gota d'água dos olhos mas também não sorriu nenhuma vez. Você nunca foi assim, uma pessoa que acorda de manhã, abre as janelas e sente a alegria tomar conta de seu corpo quase como se pudesse vê-la, como se fosse tão óbvia quanto os raios de sol.
Você não deixa a luz entrar, eu sei. E quando abre a janela é só para deixar o vento e o frio tomarem conta do quarto e eventualmente de você. Porque se chegar a ser tão fria como uma mesa, os quadros, ou até uma cadeira, talvez consiga acreditar que pertence a algum lugar, um quarto de um alguém que se esconde nos travesseiros quando o dia não dá certo. Mas tal situação resultaria em uma certa intimidade, e é por isso que você deseja ser parte da decoração: para sentir coisas que apenas mesas, quadros e cadeiras sentem.
Mas tudo isso é inútil. Todo o frio que entra não é suficiente para assassinar o calor que a dor emite. Então você tenta de novo e de novo, sem se conformar com a humanidade desajeitada que mora em algum lugar aí dentro.
Você não gritou nesses últimos dias. Falou poucas palavras em baixo tom de voz, querendo dizer que a escassez do ânimo para conversar era a mesma escassez da vontade de sair na cama.
Aí você continuou fingindo, presa no meio de todos esses seus casulos, feito uma lagarta escondida que se sente desajustada demais para permanecer no mundo.
Você tem cólicas de desejo, eu sei. Que são um misto louco de toda a raiva, a dor, as surpresas, a repetição. E você sente espinhos em uma quantidade tão imensa que as flores não compensam.
Enquanto isso, eu continuo querendo te levar para passear num dia claro e te afogar em um conto-de-fadas (mesmo que estes não passem de mentiras feitas para amenizar o desespero). Eu compro presentes, te dou chocolate, mas parece que nada do que eu faço adianta. É como se não bastasse dizer que vai passar, dessa forma tão ordinária e tão fácil. Como se nenhuma das descargas elétricas de vivacidade pudesse fazer bater de novo um coração mortalmente ferido.
Nesse caso, decidi que vou te deixar assim mesmo, raptada pela força desses desencontros e cega de melancolia, no sono profundo da perda da razão e do controle.
Só não pense você que eu desisti, porque isso é mentira. A verdade é que eu sei que em algum momento você vai olhar só para as flores e esquecer os espinhos, vai destruir seu casulo, afinal, um dia toda lagarta vira borboleta.
Nesse dia, eu vou rir de contentamento enquanto observo você abrir os olhos, e depois abrir as asas.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Ermo

Hoje abri a minha gaveta do passado. Literalmente.
Encontrei nossos bilhetes, nossas neuroses, nossos amores e nossas brigas. Achei, no meio daquele amontoado de papéis antigos e palavras que eu não lembrava mais que existiam, uma foto. Nossa foto. Ao lado das suas declarações de 'amor inalterável'... até o dia seguinte.
Quando não pude mais aguentar, rasguei metade do que tinha lá, e a outra metade guardei rapidamente. Apoiei a cabeça na cadeira e olhei para o teto, que na verdade era o nada, e assim fiquei por alguns minutos.
Está frio lá fora... não há ninguém em nenhum lugar e tudo está congelando.
Mas eu não sinto nada. Nenhum arrepio glacial, nenhuma brisa gélida. E não sei se isso é saudade, ou alívio.
Num instante qualquer, em meio ao silêncio que aos poucos se espalha pela madrugada, a realidade veio correndo e encontrou meu corpo e minha mente (em uma das poucas vezes em que estavam juntos): você é como um dos textos que escrevo. Eu começo de um jeito e sempre acabo mudando de idéia, fugindo do assunto. Aí não faz sentido. Eu morro de vontade de te deixar assim, pela metade, e por vezes consigo.
Vivo bem, contigo no meio de todos os outros textos esquecidos, sem fazer a menor diferença. Porém, toda vez que te vejo - na maioria das vezes só com o canto dos olhos, para que você não perceba que eu ainda te admiro - você até me parece bonito em suas linhas tortas, na confusão de seus temas, mas acabo vendo que não tem fim definido, um ponto final.
Então fica faltanto um pedaço, uma parte, algumas sílabas, qualquer coisa. São palavras presas ao nó que temos na garganta, que ora parecem inestimáveis e de suma importância, ora parecem fúteis demais.
Eu quero ser uma pessoa realista. Todo dia, nem que seja só um pedacinho dele, eu sinto sua falta, e me dói no fundo da alma a comparação do que éramos antes e do que somos agora, mas eu não posso voltar. Não há nenhuma chance de que eu vire os meus calcanhares para o futuro que me espera sem você por perto e volte todo o caminho que fiz até aqui só para te buscar.
Portanto, escrevo nessas linhas rebuscadas o último suspiro do Eu que ainda acredita que não está tudo perdido.
E apesar de correr o risco de não fazer o menor sentido, permito-me lembrar de você uma última vez, escrever mais algumas idéias, sentir mais um pouco de angústia e depois deixar assim, eternamente incompleto.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Pendência

Tive uma briga de amor com o mundo porque ele insistiu que eu tinha que ser uma só. "Ou vilã, ou mocinha" - ele disse - "Nunca os dois".
Não costumo ouvir conselhos de quem eu sei que fala da boca para fora (como eu posso acreditar nisso se ao mesmo tempo em que ele é tão bonito é também tão errado?), mas no fim achei que a reclamação tinha um certo fundamento. Convoquei uma reunião de emergência com todos os Eus dentro de mim, e falei em alto e bom tom que só um deles ia ter o direito de ficar. Foi uma idéia muito boa. Na teoria. Já que logo após isso foi uma confusão só. Um querendo falar mais alto do que o outro, reclamações e acusações vindas de todos os lados, e não consegui chegar a nenhuma conclusão.
Eu não posso matar pedaços de mim (por mais que alguma vezes eu queira intensamente), então pedi para que alguém viesse e levasse essas partes estragadas embora, até que não sobrasse mais nenhuma. O que foi ótimo, na teoria. Um alguém veio, e depois outro alguém, e mais outro. Percebi que isso tudo não estava me tornando inteira, mas sim me transformando em uma fração ambulante cada vez mais absurda.
Depois veio alguém que não me tirou nenhum pedaço, mas não gostava muito dos que restaram por aqui. E mais uma vez me senti inútil por não conseguir enfiar uma faca bem no meio das minhas alegrias inventadas.
Eu quero ser mais do que uma só, de alma e de corpo. Quero estar em oito lugares ao mesmo tempo e ter trinta opiniões diferentes. Mas o mundo me disse outra vez que isso não era possível.
Tive uma idéia revolucionária, então. Eu podia juntar todos os Eus em um só e ser completa. Funcionou muito bem, na teoria. Na prática foi mais complicado. Era uma briga atrás da outra porque ninguém concordava em nada. Deixei a situação como estava, até que fui lembrada de que ser todas e ser uma simultaneamente era impossível.
Entrei em ação mais uma vez com uma idéia genial: eu tinha que achar outra pessoa que tivesse muitos Eus para viver comigo. E essa funcionou muito bem. Na teoria. Não encontrei ninguém que tivesse tantos Eus assim, e acabei ficando sozinha de novo.
Um dia, recebi um telegrama do mundo dizendo que aquela situação com tanta gente em um só ser humano não podia se prolongar mais. Eu tinha que tomar uma decisão logo e agir rápido.
Passou pela minha cabeça uma solução maravilhosa, que parecia dar fim ao meu problema. Juntei os Eus todos e disse que íamos nos mudar para outro planeta. E adivinhe só, funcionou excelentíssimamente bem, na teoria, porque na prática não achei astronauta nenhum que me levasse para longe daqui.
Passado algum tempo, cheguei em casa após um dia cansativo, troquei de roupa, comi chocolate, me joguei no sofá e foi deitada nele que pensei na salvação divina, a solução definitiva, a descoberta do século: eu não vou fazer nada. O mundo que me aceite assim mesmo ou, se incomodado, que se retire. Não gosto de padrões, idéias prontas, frases decoradas, mesmice. Eu vou continuar sendo uma por fora e por dentro um milhão, e quem tiver algum problema com isso que se vire.
Vem funcionando muito bem. Na teoria...

sábado, 19 de abril de 2008

Para: Eu Menor

Você me disse um "Oi" tímido e num tom de voz tão baixo ontem quando nos encontramos, e eu só fiquei e continuei a conversar contigo porque sou a contradição em pessoa. Por um só instante decidi ir contra todos os meus princípios solitariamente egoístas e não deixar que você caísse outra vez.
Fomos comer alguma coisa e você quis me convencer que aquele semblante alegre era verdadeiro, mesmo sabendo que isso era, literalmente, tentar mentir para si mesma.
Foi por isso que eu resolvi te escrever. Já que você me disse que gostava de receber cartas, achei que talvez essa fosse a melhor forma de lhe dizer o que penso.
Ultimamente ando cansada de te dizer "Eu avisei". Sempre fico gritando no seu ouvido que o mundo não é cor-de-rosa, são só seus olhos apaixonados, e que as pessoas não são perfeitas, mas mesmo assim você, por alguma razão que até os deuses devem desconhecer, acaba ouvindo apenas o outro lado. No fim é a mesma história: você tropeça nos seus erros e na sua insistência estúpida e sou eu quem tem que te ajudar a levantar.
Mas se eu já estou até acostumada a deixar que alguém chegue e leve mais um pedaço seu que nunca mais será recuperado, então por quê é que ainda dói cada vez que isso acontece? Já não era mais para doer, ou se fosse, ao menos tinha que machucar menos.
Não quero que pense que estou aqui te criticando, pois não estou. Eu acho bonito esse seu jeito inocente de acreditar nas pessoas e enxergar o melhor delas. Até invejo a forma como você vêm conservando tudo o que se perde quando deixamos de ser crianças, apesar de todo o esforço que o mundo têm feito para lhe mostrar o contrário.
Só espero que você entenda que por mais que se queira, não há meios de andar se não for com os pés no chão, e que a vida não pode ser como uma das suas fotografias de momentos felizes, até porque não é possível congelar algo que não parou nem por um segundo.
Você vai ficar triste de novo, eu sei. Vai brigar com o planeta e depois chorar pedindo perdão, vai descontar sua raiva nas pessoas erradas. Depois vai dormir por longas horas e quando você abrir seus olhos esperançosos nada mais será como foi antes. Você vai estar algumas horas mais velha e vai dar mais trabalho não desacreditar.
Eu sei que agora pode parecer besteira, perda de tempo ou quem sabe pessimismo demais. Eu só quero que você não se esqueça de algo que, por me conhecer bem, sempre soube: todo esse meu desespero em não deixar que você escorregue, em tentar te indicar o caminho com menos espinhos no chão, é medo de que algum dia você acorde tão diferente a ponto de não se lembrar do 'antes'. Afinal, eu não sei o que seria de mim e de todo o resto se não tivéssemos você aqui, para ressuscitar tudo o que morre em nós, diariamente.

Um beijo, "pequena"

Outro Eu

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Passarinho

Ela não tinha muito mais o que fazer, então decidiu ir embora. Fugir de tudo aquilo parecia uma saída muito mais aceitável do que ficar e lutar.
Enquanto isso Ele olhava para o céu, sem saber direito a razão pela qual, mesmo este estando tão azul, nunca lhe parecera tão cinzento.
"O mundo nunca mais vai ser a mesma coisa" - pensava, enquanto encarava o nada acima de sua cabeça que ali esteve todos os dias e mesmo assim nunca chegou perto de ser compreensível.
Ele não sabia o que havia lá, a uns tantos metros de distância, ou quem. Mas se antes, com Ela, parecia tão perto, agora se afastava cada vez mais. Mal sabia Ele que longe dali se encontrava Ela, com olhos cheios de lágrimas com tanto sentimento que beiravam o vazio.
O amor morreu. Talvez em algum segundo entre o novo abraço de sorriso sincero e o velho sorriso de abraço forçado, difícil de definir. E mesmo quando esse antigo amor que já nasceu um pedaço morto dava um último grito de esperança no peito de cada um deles, não deixava de ser uma mentira.
Então foi assim que ficou. Depois de algum tempo (considere perdido ou não), Ela foi embora dizendo "Adeus, para sempre" que mais soou como um "Até logo" e saiu à procura de um novo retrato que coubesse na antiga moldura, uma nova distração para as próximas doze horas, até que esta morresse também.
Esses são fatos com triste começo e de fim melancólico, ambos intermináveis. A 'Fórmula Geral' da vida, tão medíocre quanto uma da Física: você põe o número que quiser.
Mas de vez em quando Ela lembra dele, da mesma forma que às vezes Ele pensa nela, e ninguém sabe ao certo se o que sentem nessas horas é um conjunto de ódios aglomerados em cubos ou se são cócegas.
Ocasionalmente eles até se encontram, e quando os dois não têm nada a perder resolvem dar ao acaso e à sorte uma segunda chance.
Vão e voltam, vão e voltam, vão e voltam...
Não necessariamente para os mesmos lugares e com as mesmas pessoas.
Essa é a história de um amor que alguns conhecem, outros não. Desses que mudam de personagens mas não mudam de cena, que substituem protagonistas mas não alteram desejos.
E eu achei que tinha que te contar - não sei para quê - isso tudo sobre esse tipo estranho de amor-passarinho que atravessa oceanos! (mas sempre acaba morrendo na praia).

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Vinte e Quatro


No meu infinito há 24 oceanos
24 pátrias, 24 céus e 24 planos
24 dores, 24 formas de solidão
24 cores no meio da imensidão.

Todo o dia, de 24 em 24 segundos
Encontro 24 poços profundos
Cada um com 24 razões boiando
Na água. Estão elas navegando?

E onde são contadas alegrias
Conto tempo em grãos de areia
Mas calculando 6 vezes 4 dias
O comprido, de ser longo deixa

Em 24 partes fiquei dividida
Cada qual em um próprio lugar
Uma, num campo verde acolhida
Bispou folhas pálidas a voar

Logo após a 24 períodos secos
Choveu por 24 dias contínuos
Nada mais era só 'cinza e becos'
E deram 24 amores repentinos

Hoje tenho um sabor agridoce
Idéias velhas se vão como gás
E não sou quem achei que fosse
Há exatamente 24 horas atrás.

domingo, 13 de abril de 2008

Resposta

Querido Eu,
Confesso que ao receber sua carta tomei um susto e tanto. Nunca esperei que você pudesse ser aquela a dar o primeiro passo, a correr atrás. Fiquei lisonjeada, pensei muito, e cheguei a uma conclusão. Apesar de sentir muita falta de casa, percebi que não estou pronta para voltar ainda. O mundo é lindo, e grande demais! A verdade é que quando se conhece tantos lugares e se vê tanta coisa como eu, alguns sentimentos e sensações que antes não tinham sentido passam a ser tão óbvios e compreensíveis que você se sente boba. Mas é verdade também que deixa-se de entender grande parte do conjunto misterioso denominado tudo.
Eu escrevi um poema, dormi por uma noite inteira, senti saudades do que pensei que não amava, e te ofereci o meu lugar todas as vezes em que você pediu, sem puxar o seu cabelo ou te encher de tapas, para ver quem falava mais alto e era forte o suficiente para sair.
Sei que estou diferente, e justamente pela vontade de explorar essa diferença é que não voltarei agora. Mas a gente pode se encontrar algum dia desses, e chamar aquele Outro Eu tão esquecido mas que nunca morreu.
Preciso te dizer, porém, que nem tudo é feito de rosas. Apesar de tudo o que aprendi, ainda choro algumas vezes de madrugada, ainda acho que preciso tomar sorvete quando fico triste, de vez em quando escuto músicas tristes e não deixei de pensar que talvez, só talvez, o mundo tenha solução.
E para cada Eu que encontrei na minha jornada, cada um em um lugar distinto, cada um com um alguém diferente, senti um aperto no peito de feridas (algumas abertas), que por vezes esqueci que existiam.
Ah! Eu também sei o que você está pensando agora. O que é que eu estou tanto a procurar, o que é que quero tanto descobrir, que me impede de voltar logo? Pois eu te digo: quero ir a um lugar nunca antes visitado, quero sentar no topo do mundo, de onde eu olhe todos e ninguém me olhe de volta. E eu vou achar esse topo, pode escrever o que falo. Nem que seja o nosso próprio topo, que nenhuma de nós (mesmo sendo tantas!) alcançam. É, esse mesmo. O que antes era tão baixo e acessível, mas foi crescendo por fruto dos nossos desencontros.
Só não se preocupe, que não hei de demorar tanto. Afinal, entre todas as minhas mentiras empoeiradas encontrei uma verdade absoluta. Meio enferrujada, e não brilha mais como costumava enquanto éramos crianças, mas continua sendo uma verdade: mesmo estando tão distante, não há quem diga que alguma vez saí do seu lado.

Até breve,

Eu Profundo

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Carta

Querido Eu Profundo,
Troquei o dia pela noite. Não completamente, como é de se imaginar. Custa caro querer mudar seus turnos: você se distancia da maioria das pessoas que conhece (o que não pode ser considerado de fato como uma desvantagem), mas também deixa de ver rostos que são de alguma forma confortantes e fazem com que você se sinta quente por dentro. Isso tudo porque você está em uma confusão tão grande, e tão longe de casa que não me deixa descansar quando eu ponho a cabeça no travesseiro (e eu acordo terrível no dia seguinte!).
Acontece sempre, eu não prego os olhos quase a noite inteira (que expressão horrível essa! Onde já se viu pregar os olhos de alguém?) e fica sendo tudo culpa sua, que adora brincar de ser cometa na vida das pessoas e tem essa mania de não se preocupar com nada.
Na teoria a sua filosofia é bem poética e muito conveniente, mas na prática não é bem assim que funciona. Como é que vai ser daqui para frente quando eu tiver que acordar de manhã e encontrar pessoas como ela, e não puder me concentrar numa só palavra que eu ouça? Ou com ele! Ah, com ele vai ser bem pior. Eu não sei se consigo esconder o que fiquei pensando a noite toda. Você consegue?
Mas esse não é o fim do problema. Imagine só se o meu caminho se cruza com o daquela outra, de quem não consigo esconder a verdade, ou até aquele para quem venho mentindo muito ultimamente. E quanto ao resto, que de tão acostumados a ver a minha casca engenhosamente formada por sorrisos, canções felizes e uma blusa diferente todo dia, tomariam um susto de arrepiar os cabelos (outra expressão estranha. Todo mundo sabe que cabelo arrepiado é horrível).
Então eu vim aqui com um só propósito: suplicar que você pare. Não estou te pedindo para crescer, muito menos para pensar e agir com menos maturidade. Eu estou te pedindo um meio-termo. Um lugar seguro, onde as pessoas não gritem o tempo todo e só riam discretamente. Raposas vestidas com o último lançamento da alta custura: casacos feitos com penas de galinha (quando tingidas elas ficam magníficas!)
Se você fizesse isso por mim ia ser uma atitude nobre e louvável. Eu sei que agora você está pensando sobre os prós e os contras, mas você tem que entender que tudo na vida tem dois lados. Além de tudo, a gente ia poder se encontrar com mais frequência e não ficar mais nessa relação tão extrema, tão "amor e ódio".
Ia ser bom te ver de novo, porque desde que você foi embora, eu fiquei mais triste, um tanto quanto perdida, e descobri que preciso mais de você do que eu achava. Conheci pessoas que são só como eu e abandonaram a parte como você, e não sei como é que elas conseguem viver o tempo todo desse jeito tão fugaz e superficial.
Eu sei que juntas somos só metade, e algumas vezes menos do que isso, mas mesmo assim é melhor do que ser praticamente nada.

Saudades,

Eu

terça-feira, 8 de abril de 2008

Introdução

Ontem, enquanto procurava um novo cadidato à "livro de cabeceira" , deparei-me com um título deveras interessante de Fernando Pessoa: O Eu Profundo E Outros Eus. Fez-me todo o sentido possível e por essa razão leva o blog o nome que tem.
É importante ressaltar que não tenho pretensão de me igualar a um gênio literário como ele, e muito menos aproveitar-me de sua, porque não, divina habilidade de desenhar o ser humano em consoantes e vogais, dizendo que a idéia é de minha autoria.
O fato é que eu não sei mais que dia é hoje. Não sei que horas são, se posso dizer se é terça ou quarta.
Estando eu aqui, sozinha, mas muito bem acompanhada de todas as minhas dúvidas, esperei sentir o velho arrepio em algum instante, um segundo que fosse. E eu sabia que ele vinha. Tinha que vir, mesmo que viesse no último passo antes da cama, no último suspiro abafado de hoje. Mas ele não veio.
Eu não sei mais escrever. Desaprendi a colocar um amontoado de letrinhas na ordem correta e exigir que elas tenham significação. Esqueci de como é que se faz quando se quer contar alguma coisa, o que se diz para expressar uma idéia, um pensamento, uma opinião.
E com isso se fez silêncio.
Irônico silêncio da garota (menina?, mulher?) que nunca antes soube o que era não se posicionar e defender sua causa com unhas e dentes.
O brilhante e ensurdecedor silêncio da perda não só da esperança como também da vivacidade, de algo que esteve aqui o tempo inteiro fazendo com que tudo não parecesse em vão e evaporou-se num piscar de olhos.
De pálpebras cerradas, não vi para onde foi, não sei se posso alcançá-lo, e mesmo se pudesse, não sei dizer se o desejo.
Se é de fato verídico que para se escrever bem deve-se escrever todo dia, então aqui vou eu em uma jornada tão excitante quanto uma corrida de caracóis, ver se encontro o "sei-lá-o-quê" perdido, e o trago de volta, apesar de não ter a mínima idéia de como fazê-lo.
Só não acredite você que isso pode se definir como coragem. É mais um passatempo totalmente indispensável passando por entre os carros do trânsito caótico e nas ruas desertas, por todas as esquinas e no meio dos altos edifícios que mais parecem muralhas, tímido e quase que imperceptível (só o vêem olhos realmente atentos).
Eis aqui a minha busca eterna por partes que tive, tenho, deixei de ter e das que ainda vou adquirir. Portanto, apresento a quem quer que seja você, todos os meios cheios e vazios (afinal, é disso que as pessoas são feitas). Os meus, do meu eu profundo, e os de todos os outros eus.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O primeiro

Disseram que eu precisava de um blog...