É o último dia de Setembro, nove meses correm inspirados em segundos enquanto eu continuo escutando músicas sobre a chuva.
Quando era pequena, brincava de ser quem não era. Uma atriz famosa, uma estilista, por vezes médica, mas na grande maioria das minhas aventuras inventadas era uma heroína que sempre salvava o mundo. E adorava. Uma identidade secreta.
Nas conturbadas ruas das minhas cidades imaginárias falavam muito sobre mim. Elogios ao pé do ouvido, e eu ali, rindo por dentro. Ninguém sabia que era eu. Atravessava continentes em menos do que dois minutos, destruía meteoros, resvalava os esquemas da máfia e voltava para o trabalho saboreando uma maçã. É claro que realizar tantos esforços ignotos algumas vezes me esmoreciam, mas quando chegava em casa me via cercada de uma realidade puramente particular.
Muito tempo de minha existência passei brincando disso. Com esse tempo meus inimigos foram ficando mais poderosos, é claro, e minhas peripécias se tornaram perigosas. Foi em um dia chuvoso, como esse da música, que minha saga engendrada encontrou seu fim: nunca consegui vencer a vilã que a cidade mais temia. Tínhamos a mesma aparência, as mesmas fraquezas - apenas os pensamentos eram invertidos - mas por algum motivo ela era mais forte do que eu. Vestia uma roupa toda preta e eu admirava sua elegância, arquitetava um plano maléfico e eu admirava seu sorriso. Não se importava com as outras pessoas e eu admirava sua coragem. Lutávamos no topo dos altos edifícios, nos laboratórios secretos, em ruas desertas e eu quase conseguia vencê-la. Quase.
Depois de incansáveis tentativas, minha disposição se mostrava não tão incansável assim. Parei de visitar tais esquinas da mente e deixei que o tempo fizesse seu trabalho em apagá-las da memória.
Mas da memória essas esquinas não saíram e da boca o gosto do quase não escapava.
E eu hoje, menina-mulher, ainda brinco de ser quem não sou. Salvo o mundo da maneira que posso, louca e desajeitada. Atravesso calçadas em mais do que dois minutos, destruo medos que insistem em voltar, resvalo planos absurdos que algum Eu dentro de mim insiste em tornar realidade, saboreio uma maçã. É claro que realizar tantos esforços ignotos algumas vezes me esmorecem, mas quando chego em casa e escrevo me vejo cercada de uma realidade puramente particular.
Brinco de ser pequena em minha pose de gente grande, saltitando para lá e para cá sob a proteção da minha identidade secreta, ao som de músicas que ainda falam da chuva.
Já é o último dia de Setembro e o tempo passa rápido demais, caprichos tolos são cada vez mais inaceitáveis.
Mas, cá entre nós, ainda encontro com a mesma vilã, que agora me ameaça ao me tirar palavras. E fica no corpo o mesmo peso do quase.
De repente, tudo vira quase. A risada silencia e quase, o sorriso fecha e quase, os olhos choram e quase.
A chuva cai e quase. Eu quase sou, mas quase. Sempre quase.
Quando era pequena, brincava de ser quem não era. Uma atriz famosa, uma estilista, por vezes médica, mas na grande maioria das minhas aventuras inventadas era uma heroína que sempre salvava o mundo. E adorava. Uma identidade secreta.
Nas conturbadas ruas das minhas cidades imaginárias falavam muito sobre mim. Elogios ao pé do ouvido, e eu ali, rindo por dentro. Ninguém sabia que era eu. Atravessava continentes em menos do que dois minutos, destruía meteoros, resvalava os esquemas da máfia e voltava para o trabalho saboreando uma maçã. É claro que realizar tantos esforços ignotos algumas vezes me esmoreciam, mas quando chegava em casa me via cercada de uma realidade puramente particular.
Muito tempo de minha existência passei brincando disso. Com esse tempo meus inimigos foram ficando mais poderosos, é claro, e minhas peripécias se tornaram perigosas. Foi em um dia chuvoso, como esse da música, que minha saga engendrada encontrou seu fim: nunca consegui vencer a vilã que a cidade mais temia. Tínhamos a mesma aparência, as mesmas fraquezas - apenas os pensamentos eram invertidos - mas por algum motivo ela era mais forte do que eu. Vestia uma roupa toda preta e eu admirava sua elegância, arquitetava um plano maléfico e eu admirava seu sorriso. Não se importava com as outras pessoas e eu admirava sua coragem. Lutávamos no topo dos altos edifícios, nos laboratórios secretos, em ruas desertas e eu quase conseguia vencê-la. Quase.
Depois de incansáveis tentativas, minha disposição se mostrava não tão incansável assim. Parei de visitar tais esquinas da mente e deixei que o tempo fizesse seu trabalho em apagá-las da memória.
Mas da memória essas esquinas não saíram e da boca o gosto do quase não escapava.
E eu hoje, menina-mulher, ainda brinco de ser quem não sou. Salvo o mundo da maneira que posso, louca e desajeitada. Atravesso calçadas em mais do que dois minutos, destruo medos que insistem em voltar, resvalo planos absurdos que algum Eu dentro de mim insiste em tornar realidade, saboreio uma maçã. É claro que realizar tantos esforços ignotos algumas vezes me esmorecem, mas quando chego em casa e escrevo me vejo cercada de uma realidade puramente particular.
Brinco de ser pequena em minha pose de gente grande, saltitando para lá e para cá sob a proteção da minha identidade secreta, ao som de músicas que ainda falam da chuva.
Já é o último dia de Setembro e o tempo passa rápido demais, caprichos tolos são cada vez mais inaceitáveis.
Mas, cá entre nós, ainda encontro com a mesma vilã, que agora me ameaça ao me tirar palavras. E fica no corpo o mesmo peso do quase.
De repente, tudo vira quase. A risada silencia e quase, o sorriso fecha e quase, os olhos choram e quase.
A chuva cai e quase. Eu quase sou, mas quase. Sempre quase.
