terça-feira, 27 de outubro de 2009

Das quatro às seis

Eram quatro horas. Manhã ou madrugada? O sol logo ensaiaria sua triunfante saída, mas o céu ainda se vestia todo de preto. Preto como a escuridão do fundo do mar, como o fundo de um poço. Tinha tantas tarefas a fazer naquele dia... Coisas que deixou para mais tarde sem saber que depois da meia-noite o amanhã já é hoje.
Se o céu fosse mesmo o fundo de um poço, significaria que estava no topo. Mas quando em cima há ainda muita distância para se cair, então pensou o topo ser do outro lado do céu, tão, tão, tão distante que nem ao menos visível.
Vai descobrir os mistérios do Universo? Quem sabe...
Quatro horas e meia. Como começar? "Era uma vez um amor que já nasceu meio-morto e uma dor que nasceu viva demais...", "Era uma vez uma boneca de cristal de meias coloridas que veio com defeito de fábrica...", "Era uma vez num reino distante um mundo de aparências...". Não. Era uma vez uma princesa que caminhava pela floresta e tropeçou num monte de dúvidas.
Quinze para as cinco. Prometeu não falar mais dele, nunca. Mas os dedos coçavam e a mente, em um segundo sem vigilância, viajava para longe dali.
Era romântica, incurável e orgulhosa. Impunha provas extraordinárias, livros e músicas, era cheia de poses. Poses essas que seguiam uma ordem minuciosa que aos olhos dos outros se faziam dança mágica e arrebatedora. E assim ia: passo a passo, poça a poça, em movimentos graciosos.
Aquilo, é claro, era mentira. Ainda bem que nas madrugadas sua companhia era o vento e o preto. O preto como o fundo do mar que o céu vestia. Eles conheciam a verdade, mas não diriam a ninguém.
Cinco horas. Como continuar? "Se deixou levar, não sabe como, por devaneios e sonhos solitários...", "Quis que o príncipe enxergasse suas asas, mas ele talvez visse apenas mais uma moça de vestido...". Não. Não contou à ninguém que no baile de máscaras mostrou à ele seu verdadeiro rosto.
Cinco e quinze, e destruiu os muros ao seu redor apenas para construí-los dali a algumas horas. Dava-se ao trabalho por conta de alguém dentro de si que, apesar de preso, ganhava todo dia minutos de liberdade e tentativa: podia tentar dizer a verdade até que os muros se erguessem de novo, então tentava sempre. Talvez por isso não consiga dormir direito: para fugir.
Não importavam os grandes atos, importavam os pequenos. Do fundo de um coração doído pulsava a vontade de ser pequeno mas preenchido, e de uma alma também doída transbordava o anseio de uma outra confissão vinda do outro lado. Ele não dizia porque não sentia, simples assim. Então uniam-se alma e coração para desejar que aqueles olhos escuros como o céu que veste preto vissem graça na dança.
Cinco e meia. Falar mais o quê? "Aí os dias iam passando e o temido futuro se aproximava", "Chegou no ponto final, na despedida. Ela de vermelho e ele de preto, sorriu", "Imaginou o que teria feito diferente...". Não. Àquela altura não esperava mais nada.
Seis horas. Mira sempre para o alto, mas cai. Cai do topo de um poço ou do fundo dele, mas cai, se afoga. E as asas, como ficam?
E então, como fica? Como fica?
Fica assim: "Era uma vez num mundo de aparências uma princesa de cristal que sentiu nascer em si um amor e tropeçou num monte de dúvidas. Se deixou levar, não sabe como, por devaneios. Mostrou ao príncipe seu verdadeiro rosto, e esperou que exergasse suas asas. Porém os dias foram passando, até que chegou a despedida. Ele de preto, ela de vermelho, sorriu, mas àquela altura não esperava mais nada.
Aquilo, é claro, era mentira. Dançava graciosa aos seus olhos, passo a passo, poço a poço, topo a fundo, fundo a topo. Prometeu não mais falar dele, nunca. Mas vai descobrir os segredos do Universo, quem sabe, e ver, de novo, que não importam os grandes atos.
Ela mira sempre para o céu, que veste o mesmo preto do fundo do mar, o mesmo preto dos olhos dele. Logo mira sempre para seus olhos, para cair, cair e se afogar, se afogar, até que o sol ensaie sua triunfante saída.
Amanhã de madrugada - o amanhã que não é hoje - quando os muros caírem, ela vai fugir de novo com o vento e o preto. Ah, o preto-céu de seus olhos, o preto de seus olhos-céu".

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Eco

Ele não está mais lá. Não está.
Contente-se em ficar sozinha. Sozinha.
Seu caminho já traçado. Está?
Vou contar para todo mundo. O mundo.
Que ser assim tanta gente não é justo. Não é justo.
E querer que alguém te queira também não. Nunca foi.
Que sentir dores extendidas. Ampliadas.
Perdidas pelo horizonte. São as minhas.
Matam-me por dentro e por fora. Feridas.
De amor, de amor. De guerra.
E eu que sou tantas pessoas... Separadas.
Ele disse que o dado se joga. Por pontos.
As cartas na mão. Minhas frases.
Os problemas dentro de mim. Poesia.
Que se atiram ao mar de rochas. Vão caindo.
Com medo de ser feliz. Como eu.
E buscam somente alguém. Sem rumo.
Alguém como ele. Sem destino.
Alguém para estar lá. Sem propósito.
Mas ele não está mais. Eu sou só.
Desistiu? Estou só.
De mim, que sou. Quebra-cabeça.
Agora quero que faça. Preciso que faça.
Acorde, diga, me dê. Sentido, sentido.
Faça-me sorrir. Faz?
Porque agora, em mim. Só tem eco.
E me pergunto a toda hora. Onde está.
Ele que foi, e que vai preencher o meu. Vazio.
Ele que volta para preencher o meu. Vazio.
Beber de um copo d'água sempre. Sempre.
Meio-cheio e não meio. Vazio.



Não está. Sozinha. Está? O mundo. Não é justo. Nunca foi.
Ampliadas. São as minhas. Feridas. De guerra.
Separadas. Por pontos. Minhas frases. Poesia. Vão caindo. Como eu. Sem rumo. Sem destino. Sem propósito.
Eu sou só. Estou só. Quebra-cabeça. Preciso que faça. Sentido, sentido. Faz?
Só tem eco. Onde está. Vazio. Vazio. Sempre. Vazio.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Festas e Flores

Via flores em qualquer canto para onde meus olhos fugissem, arranjos majestosos. Lírios, cártamos, fotínias, azaléias, avencas, violetas...
Era noite, mas as luzes espalhadas pelo chão iluminavam o verde e o colorido da florada. Estava ali para me divertir, tudo era belo, tudo era longe. Longe dele.
A música alta fazia vibrar os corações daquelas pessoas que pareciam saber apenas sorrir. Murmuravam algumas palavras - nada de muita importância - e se deliciavam em longas gargalhadas. Eram todos grandes amigos, mesmo que só por algumas horas.
Enquanto atravessava o grande salão, podia sentir os olhares que vinham de encontro ao meu corpo. Sentia-me receosa mas também encantada. Aquele lugar era, de algum modo, especial.
Primeiro, andei de um lado ao outro examinando o ambiente, não sentia segurança suficiente para permanecer onde estava. Algo estava faltando. Talvez no recinto ou dentro de mim, mas faltava. Senti a velha angústia no peito e resolvi afastá-la: essa não seria mais uma daquelas noites, decidi. Até que finalmente, depois de alguns longos minutos, parei de perambular pela festa.
Tudo lá tinha uma beleza diferente. Pensei que isso se dava pelo simples fator da distância, aquele era um mundo onde há tempos não estivera, muito distinto do meu. Ali não estavam as mesmas pessoas, não se viam os mesmos padrões. Ali os assuntos não eram iguais, as decepções eram outras. Ali não havia vestígios da existência dele.
Respirei aliviada. Esse novo mundo anulava o antigo da mesma forma que o antigo anulava o novo. Cabia à mim ajeitar-me por entre as confusões que duas realidades simultâneas podiam causar, e assim o fiz, pelo menos por um pouco de tempo. Depois lembrei-me de que naquele local não havia marca alguma que deixara porque ele, em sua costumeira inteligência, preocupou-se em marcar tais vestígios em mim.
"Deixe para lá", dizia uma voz que vinha de dentro. E quis escutar.
Olhei as mulheres que dançavam enquanto os homem discutiam seus defeitos e atributos, e lá também me atirei, sem me importar com os cochichos - os que escutava vindos da minha mente eram bem mais díficeis de ignorar.
Continuava a música quase ensurdecedora e de repente me vi livre. Não estava nem em um mundo nem noutro, estava na linha divisória, na fronteira, em dois lugares e ao mesmo tempo em lugar nenhum.
Era magnífica a sensação de liberdade. Por tanto tempo me prendi à ele, em silêncio, e agora que não estava lá tinha tempo para mim mesma. Podia sorrir e admirar as luzes, a lua, as flores.
Calêndulas, dálias, frésias, camélias, gérberas, papoulas... Papoulas? Mas isso não...?
Maldito seja. Não me deixa ter comigo nem ao menos dois segundos de paz. "Esqueça, esqueça...", dizia a voz. E quis de novo escutar.
Já era tarde mas a magia das luzes ainda não se perdera. Os outros me viam com olhos de desejo, eu sabia. Sabia e não me importava. Àquela altura da madrugada todos estavam um pouquinho mais felizes do que o de costume, tinham todos se deixado levar pela maré da descontração. Vi diante de mim a oportunidade de ser quem quisesse, de realizar qualquer aventura, eles não se importariam porque não lembrariam de nada depois. Aquele era um tempo para mim, outra vez.
E outra vez não me deixei levar porque fiquei presa ao meu louco desejo, mesmo que improvável, de vê-lo entrar pela porta.
No fim, voltei para casa. O sol já iluminava a paisagem e o encanto já estava desfeito. Não consegui dormir, como de costume. Indaguei-me sobre minha triste situação. Estava cansada de fugir para outros lugares e lá - onde quer que "lá" seja - sempre encontrá-lo.
Festas e descuidos oferecem esquecimentos momentâneos, a magia das luzes eventualmente se apaga. Mas eu continuo a enxergar lírios, cártamos, fotínias, azaléias, avencas, violetas, calêndulas, dálias, frésias, camélias, gérberas e papoulas onde quer que ele esteja. E essas malditas flores que se negam, ainda bem, a morrer.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Fortúnio

Juntou seus pertences em uma mala e foi, não olhou para trás. Era por pouco tempo, mas mesmo assim exigia coragem. No caminho, olhava para cima o tempo todo, o céu estava azul, azul, somente azul. Verde algumas vezes, quando passava por uma árvore. Sentia a sombra beijar seu rosto e ir embora, familiar...
Ouvia silêncio e nada mais do que silêncio, como gostava de ser assim. Há dias não escuta mais ninguém apenas pelo luxo de poder não se importar, ou de tentar. Tentar até conseguir. E conseguiu.