sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ocorrido recente

De repente tudo ficou preto. Prédios, avenidas, cidades, estados. Já era noite mas estavam todos acordados e por essa razão aquela luz clara e forte se fazia necessária.
Foi assim, do nada. O mundo a andar frenético e ela parada em seu próprio frenesi, um dia como outro qualquer.
Barulhos, barulhos, distantes, tão próximos, barulhos... Desejou secretamente trocar de lugar com o planeta, que mesmo caótico é, em um balanço geral, quase feliz. Iluminado, com certeza. E privilegiado por poder ser assim tão grande e ao mesmo tempo apenas uma bolinha azul flutuando no nada. Ah, quanta existência num pontinho no breu. Que grande, grande, tão grande somente pontinho é.
As pessoas iam de lá para cá e de cá para lá como sempre foram, naquela noite comum. Mas aí aconteceu. Num ordinário segundo, completamente ao acaso, tudo, tudo, tudo, tudo ficou preto.
Acabou a luz, quem diria. Será que demora muito para voltar? Ah, o desespero.
O desespero de um mundo que simplesmente não funciona.
Correram todos para algum lugar. De volta para casa, para longe dali, em busca de uma resposta... Saíram. Não ficou mais ninguém.
Estavam agoniados, era visível. Todos, menos ela.
Ela sorriu. O mundo no escuro e ela foi para o claro, trocaram de lugar. E não é que dizem mesmo "cuidado com o que deseja"?
Surpreendentemente, dormiu. A noite, ainda botão, pediu que esperasse virar flor formosa e aberta mas ela nem ao menos ouviu. De madrugadas insones passou à maciez do travesseiro e ao conforto dos sonhos.
Justamente assim como conto, foi. Era bonito de se ver. O mundo caindo e ela dormindo, só. Ah, quanta existência num pontinho no breu. Que grande, grande, tão grande somente pontinho é.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Relatos de um novo/antigo Eu

São novas descobertas todo dia. Descobertas essas que teimei em escrever para não esquecer depois. Mas o que a memória ama não fica eterno?
Quero dar um passo maior do que consigo, carregar nas costas o peso de um mundo que não aguento, deixar um pouco mais para depois. Mas depois...?
Nesses últimos dias ando pensando mais em mim mesma. Não descobri se o mundo é bonito ou não. Talvez eu de fato queira que o céu seja vermelho, aí quem sabe tudo ficaria diferente. Mas se ficasse...?
Quando era pequena, chegava à beira do rio e via as águas dançando muito rápido, como eram bonitas.
Logo quis ser água, ainda quero. Transparente, mas não vazia. Descer montanhas e passear pelo mundo.
Evaporar.
Chover depois.
Inundar tudo.
Desviar das pedras ou passar por cima delas...
E não pensar em crescer, não pensar em doer.
Agora não mais vejo o rio a um passo de distância mas frente aos olhos as pessoas passam como água. À algumas desejei calmaria, à outras tempestade, mas de uma forma ou de outra elas sempre passam. Dançantes...
Estou parada apenas a observar ou com a correnteza também vou? Se fico, seca. Se pulo, afogamento. Então...?
Descobri que silêncio às vezes me mata mas barulho demais me incomoda. Eu não faço sentido?
Sou contraditória e finalmente aprendi a reconhecer tal fato. Contraditória e, recentemente, cheia de dúvidas. Mas essas dúvidas não estiveram sempre aqui?
Ali, parada no leito do rio e olhando para baixo, fiquei encantada. Havia muita água mas eu podia ver o fundo, só não sabia se estava perto ou longe.
E logo quis ser água, quis ser água mais ainda. Para que vissem através de mim e mesmo assim não entendessem, não descobrissem quão longe é o fim (só descobre quem se decide, com ou sem medo, se molhar).
Exijo coerência de pessoas incoerentes e linearidade de uma vida que pode ser tudo, menos linear. Eu não faço sentido.
Sabe, talvez eu seja um pouco água. Um pouco água dos rios da contrariedade, um tanto quanto divertidos.
Água que no meio de frases desconexas procura algum significado. Que em novas e antigas descobertas vive um ciclo de transformação apenas para ser sempre a mesma, mas que ainda quer descobrir qual é sua profundidade.
Lá, perto do rio e sem mover um músculo, vi que é possível parecer raso mas ser profundo e o contrário também. Quanta complexidade em algo tão ordinariamente simples. Ou quanta simplicidade em algo tão ordinariamente complexo.
É, talvez eu seja um pouco água. Ou talvez eu seja um pouco água demais.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Antonímia de desenlace

Começou como uma sementinha de uma planta que um dia resultaria em uma linda flor. Mal sabia eu de seu veneno.

Eu, justo eu, que deveria estar acostumada com venenos à essa altura da vida. São doces e perfumados, em caixas bonitas e com um laço em cima para dar o toque final.

O coração acelera: um presente.

Fui regando com idéias, talvez cedo demais. Apesar de ter certeza de que a culpa não era só minha, assumi-a com coragem. Coragem essa que todo dia aprendo a ter. Recuso-me a ser como ele, que se poupa de tudo, sem saber que o medo absurdo de sofrer e o constante cuidado para que isso não aconteça podem se tornar um sofrimento por si só. Eram dias coloridos esses que eu enxergava.

Eu não pedi para sempre, eu não pedi nunca mais. Eu pedi hoje. E para hoje não há desculpas pois hoje não existem barreiras, hoje não é amanhã. Mas ainda assim...

Pobre de mim que, inocente, alimentei tal ilusão. De novo, não sozinha. Fala por si só a intertextualidade que as letras comprovam, então não foi tudo invenção.

Não quero pensar que foi maldade. Isso não se faz com ninguém, deixar tudo ir caminhando quando se sabe que, adiante, o objetivo é continuar no mesmo lugar. Mas preciso lembrar a mim mesma, constantemente, que além da coragem que preciso aprender a ter (que se faz necessária cada vez que se cruzam nossos olhos), preciso aprender também que só porque eu não teria coragem de fazer algo, não quer dizer que os outros não tenham.

Talvez eu tenha crescido um pouquinho mais. Um pouquinho mais rápido também.

Cresceu, cresceu comigo e saiu de baixo da terra. Foram embora as metáforas, e virou um brotinho de dor.

Nessa noite me permiti uma lágrima e só. Foram duas, evidentemente, já que as regras que devo seguir - até mesmo aquelas que eu imponho - são quebradas pela minha mente e corpo sempre. Mas foram duas e depois parei. Olhei para o céu escuro e repeti mil vezes “vai passar”, e vai, ainda que contra a minha vontade.

Ando escrevendo muito mais, isso devo admitir. Então o veneno do seu presente que me mata faz também com que eu respire de novo, suponho que deva agradecer.

Agora os dias passam cinzentos como antes. Sou obrigada a conviver com essa dor pequena que não chega a me sufocar mas me incomoda. Um brotinho de dor nas minhas terras inférteis...

Um brotinho de dor que não vou matar, vou deixar lá. Ou cresce ou morre sozinho.

Um brotinho de dor pelo qual eu deveria dizer obrigada. Então... obrigada?

Um brotinho de dor de presente, quão poético. Se o que procurava era poesia não tem como dizer que não me deu.

Um brotinho de dor venenoso que um dia devolvo como flor para ele colocar na estante. Mais uma, apenas. E só de pensar que quis ser tão mais...

domingo, 1 de novembro de 2009

Desenlace

Querido Eu,
Se eu tivesse um diário, talvez hoje suas páginas estivessem preenchidas. Frenética e dolorosamente.
Mas é talvez, só talvez. Uma palavra que eu não gosto mais.
Eu não consigo filtrar essa existência em mim. E quem sabe seja por isso que me baste só... Quem sabe seja por isso que precise ir...
Voltei a escrever ao som de violinos, você sabe. Fecho os olhos e enxergo cores um pouquinho mais vivas, mas ainda não decidi se isso é bom ou ruim, achei que fosse uma apreciadora do silêncio...
Acabei de olhar para o relógio: quatro e vinte e um. Metade do que escrevo vem de um lugar que eu não conheço, a outra vem de sonhos que à essa hora se misturam com a realidade.
Todos estão dormindo... Silêncio, silêncio... Em mim, tanta coisa para rompê-lo. E o farei, um dia, quando voltar. Talvez, mas só talvez.
No próximo fim-de-semana vou esperar o sol sair, colocar meus óculos escuros e sentir o vento no meu rosto da janela de um carro sem destino. É claro que não se compara à mãos frias no meu cabelo, mas ainda assim...
Percebi que minhas frases andam terminando em reticências ultimamente. Acho que não quero ter de terminá-las sozinha, mas essa é somente uma hipótese, um talvez. Só mais um.
Coloquei-me a dançar nesses últimos dias e acabei tropeçando em mim mesma. Senti o chão gelado mas vi o céu. Nuvens e bolhas preguiçosas. Um dia vou escrever um livro sobre idas e vindas, escolhas e destino.
A folha me encarou e eu a encarei de volta como já fizera momentos antes. Olhos dizem tanto...
Então pensei muito no que dizer, se é que me entende. Não ia falar nada até descansar a mente, mas cá estou (quem mandou não ser mais uma dessas pessoas do resto?), pois amanhã não vou mais me lembrar das borboletas no estômago.
Não cabe mais ninguém em mim e mesmo assim as opiniões só aumentam. Será que estou ficando louca?
Depois de dormir vou acordar diferente, como todos os dias. E palavras antigas não terão o mesmo valor.
Vou aprender a mentir melhor e a me jogar menos. Mas tudo isso é apenas um gigantesco talvez. Essa palavra estranha que não gosto mais.
Vou embora. E você... Você eu não sei. Vá dormir e sonhar com dias mais fáceis. Com finais felizes ou ovelinhas. Sonhe com saber quando falar e quando parar, com rios correndo montanhas, planetas suspensos no vazio.
Sonhe branco, que é tudo de uma vez, ou preto, que não é nada. Seja o preto que absorve ou o branco que reflete... Seja o que quiser, quando quiser, quantas quiser.
E não pare de brincar com as palavras, como sempre brincou, mesmo quando eu for. Tentarei chamar aquela pequena para consertar seus últimos erros...
Sabe, é tudo um grande talvez, mas eu era sim ou não. E ser preciso em terras de imprecisão pode ser um jogo perigoso.
Deixo-te bem, eu sei. Para tentar ser de novo.
Saudade? Quem sabe...
Vejamos o lado positivo: agora não sou nunca e nem com certeza. Sou longe.


Até, talvez, breve.
Eu Profundo.