terça-feira, 6 de maio de 2008

Ermo

Hoje abri a minha gaveta do passado. Literalmente.
Encontrei nossos bilhetes, nossas neuroses, nossos amores e nossas brigas. Achei, no meio daquele amontoado de papéis antigos e palavras que eu não lembrava mais que existiam, uma foto. Nossa foto. Ao lado das suas declarações de 'amor inalterável'... até o dia seguinte.
Quando não pude mais aguentar, rasguei metade do que tinha lá, e a outra metade guardei rapidamente. Apoiei a cabeça na cadeira e olhei para o teto, que na verdade era o nada, e assim fiquei por alguns minutos.
Está frio lá fora... não há ninguém em nenhum lugar e tudo está congelando.
Mas eu não sinto nada. Nenhum arrepio glacial, nenhuma brisa gélida. E não sei se isso é saudade, ou alívio.
Num instante qualquer, em meio ao silêncio que aos poucos se espalha pela madrugada, a realidade veio correndo e encontrou meu corpo e minha mente (em uma das poucas vezes em que estavam juntos): você é como um dos textos que escrevo. Eu começo de um jeito e sempre acabo mudando de idéia, fugindo do assunto. Aí não faz sentido. Eu morro de vontade de te deixar assim, pela metade, e por vezes consigo.
Vivo bem, contigo no meio de todos os outros textos esquecidos, sem fazer a menor diferença. Porém, toda vez que te vejo - na maioria das vezes só com o canto dos olhos, para que você não perceba que eu ainda te admiro - você até me parece bonito em suas linhas tortas, na confusão de seus temas, mas acabo vendo que não tem fim definido, um ponto final.
Então fica faltanto um pedaço, uma parte, algumas sílabas, qualquer coisa. São palavras presas ao nó que temos na garganta, que ora parecem inestimáveis e de suma importância, ora parecem fúteis demais.
Eu quero ser uma pessoa realista. Todo dia, nem que seja só um pedacinho dele, eu sinto sua falta, e me dói no fundo da alma a comparação do que éramos antes e do que somos agora, mas eu não posso voltar. Não há nenhuma chance de que eu vire os meus calcanhares para o futuro que me espera sem você por perto e volte todo o caminho que fiz até aqui só para te buscar.
Portanto, escrevo nessas linhas rebuscadas o último suspiro do Eu que ainda acredita que não está tudo perdido.
E apesar de correr o risco de não fazer o menor sentido, permito-me lembrar de você uma última vez, escrever mais algumas idéias, sentir mais um pouco de angústia e depois deixar assim, eternamente incompleto.

2 comentários:

Unknown disse...

esse texto doeu muito! ai...

Anônimo disse...

só você entende meu texto em toda a complexidade rasa, babaca e ordinária das minhas analogias que são semi-verídicas-auto-biográficas.
mas adorei o adjetivo empregado na última frase. (e começo a acreditar que é verdade).

ó, virando os calcanhares pra não mais olhar pra trás, triste é deixar as coisas pela metade.