A música tocava ao fundo enquanto as duas conversavam.
- Você não está feliz?
- É claro que estou. E ansiosa.
- Então por que não levanta daí, não canta, não sorri?
- Estou com medo.
- Medo? Ora, que bobagem. Você é uma das pessoas mais corajosas que conheço, diz o que pensa, conquista o que quer...
- Eu não sei se quero crescer, Emena. Tenho medo das dores, das despedidas, das responsabilidades, do relógio.
- Não é necessário se preocupar com isso - afirmou, engolindo seco. Era mentira, evidentemente, mas a pobre menina não precisava saber daquilo naquele instante - Não é tão ruim assim.
- Então não dói quando você se perde?
Emena ficou em silêncio. Não conseguiria mentir sobre mais aquilo, conseguiria?
- Só um pouco - por fim respondeu.
- É disso que tenho medo. Eu sou pequena e o mundo é tão grande. Como vou achar o meu lugar?
- Vai encontrar.
- Você já encontrou?
- Ainda não...
A música continuava tocando.
- Você ainda escreve para ele? - perguntou a menina.
- Não. Mas ele está em tudo o que escrevo. Ele e todos os outros. Aqueles que, de uma maneira ou de outra, levaram um pedaço de mim.
- Não dói?
- Machuca, sim - Emena respondeu - Mas algumas vezes você pode acabar viciado em um certo tipo de tristeza. Ela não vai embora, e você apenas se acostuma com a sua presença.
- É esse o vazio que você sente? Por que ele não está?
- Ele não está e eu o espero enquanto devoro suas palavras que demoram a chegar. Espero o tempo, para falar a verdade, que põe as coisas de volta no lugar.
- E o que eu devo esperar?
- O que quiser. Sabe, é normal sentir medo, querer voltar para debaixo das árvores, quando o sol batia no seu rosto enquanto você corria para lá e para cá, andando pelos seus caminhos preferidos, assistindo aos outros que passavam. Você era tão pequena, tão frágil, e sem saber o que o futuro lhe reservava, apenas sonhava com o depois. Essa nuvem tão difusa, brilhante, colorida. Tão distante. Mas foi se aproximando, se aproximando...
- E agora está aqui?
- Está aqui e está ao longe, do lado de lá.
- Eu sei que você se equilibra na corda bamba, rodopiando no perigo, um passo em falso e sabe-se lá. Lembra-se de todos, mas sobretudo dele, que nessa hora diria algo que quisesse escutar. Talvez um abraço, quem sabe até um beijo, um olhar. Sei que não admite, nem ao menos para mim, que também queria voltar aos tempos do sol que batia nas árvores. Ser miúda, se esconder no lençol, encolher-se num botão. Não é?
Emena pensou por alguns minutos. Como é que ela, ainda tão nova, já saberia?
- São passos de dança, minha pequena, e sei que vai aprender a dançar. O medo que sente agora, as responsabilidades, os planos, os desejos, os erros, os sonhos e por fim o amor. Não quero me estender muito, mas há de descobrir, há de chegar.
- E o que preciso fazer?
- Despertar, esquecer, levantar, cair, suspirar, aprender... Abrir a porta para o destino entrar. Escrever.
- E se, por acaso, me perder também?
- O tempo - Emena conseguiu dizer - O tempo põe as coisas no lugar.
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Um comentário:
Que lindo! Amei...
Muitas vezes a gente almeja ser livre. Fazer nascer duas belas asas e voar. Mas ao mesmo tempo nossas asas criam correntes e mesmo que a gente tente ou queria voar, elas são pesadas, nos puxam para o chão, para o mesmo lugar de sempre.
Um dia eu desatei as correntes e voei.
Voei alto, aqui e lá. Mas chegou uma hora que eu percebi que em nenhum lugar eu consegui fazer um ninho e ter um ninho igual ao que tinha, com aquele aconchego, aquele cheiro e aquela segurança que eu só tinha lá. Voltei.
E quando voltei o tempo, o vento e a chuva destruiram meu ninho, não tinha mais nada lá. E então eu perdi meu chão, meu ar e minha liberdade perdeu o sentido.
O bom da vida é ser livre...
Mas o melhor é ter o porquê e por quem voltar.
Te amo, Pequena.
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