sábado, 28 de abril de 2012

Receita

Está escuro aqui. Todos estão rindo, consigo ouvir suas vozes exaltadas: um pouco de álcool, um pouco de felicidade.
Ela está deitada. Os olhos cerrados, a coluna curvada, o mundo lá fora e aqui, só aqui dentro, um pouco de amor e um pouco de dor, penso que são quase o mesmo. E ainda que tenha tantos motivos para sorrir, apenas dorme. Onde estarão seus pensamentos? Onde estará, afinal?
"Sirva-se de um pedaço de bolo!", um pouco de doce, um pouco de saudade.
Eu sonhei com você e acordei triste. O passado não volta, o presente não está, o futuro não chega. A vida se esvai entre os dedos, como hei de vivê-la?
Eu não olhei nos teus olhos porque não tive coragem, e ainda assim quis não sair do teu abraço. Você me confunde, homem, até em pensamento. Um pouco de esperança, um pouco de dúvida, e disse-me para viver, apenas, de tudo o que tinha para dizer. Ou talvez, quem sabe, já não tivesse nada.
Entenda, entenda, menina, entenda. As palavras se esgotam, os sonhos passam, as montanhas se movem, o tempo cura, os lábios se calam, os olhos falam, no silêncio se esconde. Então por que insiste? Um pouco de hábito, um pouco de desejo.
E por fim, no colorido da mesa, todas as razões reveladas. Tantas histórias cruzadas, um pouco de constância, um pouco de medo.
As luzes se acendem, é o fim da festa. Dentro de mim ela ainda dorme, o que espera?
Se puder, me ensine, por favor, me diga, do que é que somos feitos?
De felicidade, de amor, de dor, de doce, de saudade, de esperança, de dúvida, de hábitos, de desejos, de constância, de medo.
E uma pitada de sal.

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