sábado, 25 de agosto de 2012

Que saudade, fia!

A manhã não começou nem quente, nem fria, e o dia acordou estranho.
Amanhece, amanhece.
Sente o cheiro de perfume? São essas flores. Viver é tão grande e tão pequeno.
A manhã não começou nem azul, nem rosa, e o dia acordou em silêncio.
O alarme do relógio toca, e tenho preguiça de levantar.
Queria ficar aqui, mas o dia chama: amanhece, amanhece.
Viver é tão suave e tão intenso.
A manhã não começou nem antes, nem com pressa, e o dia acordou em tons de cinza.
Estou esperando o sol bater na janela e sacudir o mundo, mas os ponteiros do relógio não esperam. Eu vejo o branco das margaridas e logo os lírios amarelos. Não consegue sentir esse aroma?
Vejo a terra, o céu, e o que há no meio? Viver só é completo se viver pessoas, e não semanas. As folhas do calendário se destacam porque foram feitas para passar, mas aqueles que amamos não passam.
A manhã não começou nem memorável, nem vazia, e o dia acordou como outro qualquer.
Amanhece, amanhece. Viver é vício de linguagem, eco, ambiguidade, cacofonia.
E num sopro, todas as madrugadas, tardes e noites...
A manhã não começou, e amanhã talvez fosse só outro dia.
O sol nasce, a alegria... Até que escurece.
E viver é tão breve.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Véspera

A música tocava ao fundo enquanto as duas conversavam.
- Você não está feliz?
- É claro que estou. E ansiosa.
- Então por que não levanta daí, não canta, não sorri?
- Estou com medo.
- Medo? Ora, que bobagem. Você é uma das pessoas mais corajosas que conheço, diz o que pensa, conquista o que quer...
- Eu não sei se quero crescer, Emena. Tenho medo das dores, das despedidas, das responsabilidades, do relógio.
- Não é necessário se preocupar com isso - afirmou, engolindo seco. Era mentira, evidentemente, mas a pobre menina não precisava saber daquilo naquele instante - Não é tão ruim assim.
- Então não dói quando você se perde?
Emena ficou em silêncio. Não conseguiria mentir sobre mais aquilo, conseguiria?
- Só um pouco - por fim respondeu.
- É disso que tenho medo. Eu sou pequena e o mundo é tão grande. Como vou achar o meu lugar?
- Vai encontrar.
- Você já encontrou?
- Ainda não...
A música continuava tocando.
- Você ainda escreve para ele? - perguntou a menina.
- Não. Mas ele está em tudo o que escrevo. Ele e todos os outros. Aqueles que, de uma maneira ou de outra, levaram um pedaço de mim.
- Não dói?
- Machuca, sim - Emena respondeu - Mas algumas vezes você pode acabar viciado em um certo tipo de tristeza. Ela não vai embora, e você apenas se acostuma com a sua presença.
- É esse o vazio que você sente? Por que ele não está?
- Ele não está e eu o espero enquanto devoro suas palavras que demoram a chegar. Espero o tempo, para falar a verdade, que põe as coisas de volta no lugar.
- E o que eu devo esperar?
- O que quiser. Sabe, é normal sentir medo, querer voltar para debaixo das árvores, quando o sol batia no seu rosto enquanto você corria para lá e para cá, andando pelos seus caminhos preferidos, assistindo aos outros que passavam. Você era tão pequena, tão frágil, e sem saber o que o futuro lhe reservava, apenas sonhava com o depois. Essa nuvem tão difusa, brilhante, colorida. Tão distante. Mas foi se aproximando, se aproximando...
- E agora está aqui?
- Está aqui e está ao longe, do lado de lá.
- Eu sei que você se equilibra na corda bamba, rodopiando no perigo, um passo em falso e sabe-se lá. Lembra-se de todos, mas sobretudo dele, que nessa hora diria algo que quisesse escutar. Talvez um abraço, quem sabe até um beijo, um olhar. Sei que não admite, nem ao menos para mim, que também queria voltar aos tempos do sol que batia nas árvores. Ser miúda, se esconder no lençol, encolher-se num botão. Não é?
Emena pensou por alguns minutos. Como é que ela, ainda tão nova, já saberia?
- São passos de dança, minha pequena, e sei que vai aprender a dançar. O medo que sente agora, as responsabilidades, os planos, os desejos, os erros, os sonhos e por fim o amor. Não quero me estender muito, mas há de descobrir, há de chegar.
- E o que preciso fazer?
- Despertar, esquecer, levantar, cair, suspirar, aprender... Abrir a porta para o destino entrar. Escrever.
- E se, por acaso, me perder também?
- O tempo - Emena conseguiu dizer - O tempo põe as coisas no lugar.

domingo, 29 de abril de 2012

É de açúcar

O oceano é salgado, meu bem, e o amor é de açúcar. Eu sinto o gosto doce em tudo o que vejo, digo, toco, provo.
Você vem e vai assim, o meu coração na garganta, os joelhos fracos, a cabeça a mil. Você vem, o sobe-e-desce no estômago, o sorriso no rosto e você vai, o amargo da distância, o agridoce do depois.
Tudo é tão volúvel, tudo é tão perpétuo.
Nessas tardes de frio, você é tão reconhecível nos meus olhos que qualquer soprar de vento saberia. Ora, o que é que estou dizendo? Quem me vê, te vê. Faça chuva ou faça sol, você está em mim, por favor me diga que ainda estou em você.
Lá fora, as nuvens, o céu, o azul, o mar, o cinza. E o que é isso que bate na janela? É a chuva, é a chuva. Eu ando chovendo quase todo dia, quando você não está. O passar das horas me mata, aquele ponteiro anda devagar por capricho.
O mundo é vasto, meu amor. Talvez eu seja muito jovem mas eu tenho pressa, tenho pressa. Tão logo me perco na beleza das coisas que vejo, nas letras que leio, nos sons que ouço. Sonho em voz alta enquanto os pingos escorrem no vidro, por onde é que você anda? Eu fico vendo você ir, você voltar, e posso dizer o contrário mas continuo a esperar - eu já te esperei por tanto tempo, até mesmo antes de saber o seu nome.
O oceano é salgado e eu prometo ter paciência, ainda que tenha que tirá-lo do lugar. Porque o mundo é vasto, mas o amor é açúcar e eu não vou deixar molhar.

(Para Zolletta)

sábado, 28 de abril de 2012

Receita

Está escuro aqui. Todos estão rindo, consigo ouvir suas vozes exaltadas: um pouco de álcool, um pouco de felicidade.
Ela está deitada. Os olhos cerrados, a coluna curvada, o mundo lá fora e aqui, só aqui dentro, um pouco de amor e um pouco de dor, penso que são quase o mesmo. E ainda que tenha tantos motivos para sorrir, apenas dorme. Onde estarão seus pensamentos? Onde estará, afinal?
"Sirva-se de um pedaço de bolo!", um pouco de doce, um pouco de saudade.
Eu sonhei com você e acordei triste. O passado não volta, o presente não está, o futuro não chega. A vida se esvai entre os dedos, como hei de vivê-la?
Eu não olhei nos teus olhos porque não tive coragem, e ainda assim quis não sair do teu abraço. Você me confunde, homem, até em pensamento. Um pouco de esperança, um pouco de dúvida, e disse-me para viver, apenas, de tudo o que tinha para dizer. Ou talvez, quem sabe, já não tivesse nada.
Entenda, entenda, menina, entenda. As palavras se esgotam, os sonhos passam, as montanhas se movem, o tempo cura, os lábios se calam, os olhos falam, no silêncio se esconde. Então por que insiste? Um pouco de hábito, um pouco de desejo.
E por fim, no colorido da mesa, todas as razões reveladas. Tantas histórias cruzadas, um pouco de constância, um pouco de medo.
As luzes se acendem, é o fim da festa. Dentro de mim ela ainda dorme, o que espera?
Se puder, me ensine, por favor, me diga, do que é que somos feitos?
De felicidade, de amor, de dor, de doce, de saudade, de esperança, de dúvida, de hábitos, de desejos, de constância, de medo.
E uma pitada de sal.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ao meu (nunca) alienado

É engraçado. A vida arrasta as pessoas à lugares diferentes, e eu mudei tanto que é difícil acreditar. Se você me visse, se você voltasse...
Não sou mais aquela menina, mas ainda sou menina demais. Cavei até o fundo de mim e espremi umas tantas verdades, coisas que precisava saber. As respostas estão em nós, sabe?
No começo, confesso, apenas esperei. E fiquei esperando, sorrindo, chorando, aproveitando, suspirando, sofrendo. Entulhei os sonhos, a falta, a mágoa, os erros num canto do quarto e na mente vivi mil cenários para quando voltasse a ser eu.

Mas quem sou eu?

Eu, eu, eu...

Eu esperei a tua volta, as respostas, eu olhei para a porta. Mas no fim, ah, no fim, olhei para o espelho. As respostas estão dentro de nós, sabe?
E aquela menina... o nariz empinado, os ombros ajustados e os olhos afogados na dúvida do ser. O orgulho...
Talvez, se a gente se encontrasse numa dessas esquinas, numa livraria, numa loja qualquer... talvez você notasse a diferença em mim. Será que notaria?
Eu aprendi tantas coisas e, acima de tudo, o que ainda tenho que aprender. Não tenho mais a mesma pose, não sinto mais as mesmas dores: as substituí por novas. E por aí você anda, sabe Deus por onde, a trilhar novos passos e descobrir novos amores.

Mas eu quero te dizer, ao menos dessa vez, uma simples e única vez sem desejar nada em troca. Do fundo de quem eu sou, de todas as decisões que tomei e de quem eu ainda quero ser...
Quero te contar com a nitidez do que é puro e com a transparência da distância, deixar escrito o que realmente estou dizendo ao invés dos símbolos - só pra contrariar um pouco - então aqui vai:

Amor é uma palavra forte demais. Os poetas dela se apropriam porque fica bonita no papel. E eu, que condeno o seu uso casual, escrevo sobre nada mais do que a própria. Está em mim, na minha contradição, no meu ser que não sossega, não aquieta. Eu estou sempre indo, ainda que seja a lugar nenhum.
A vida é curta demais para arrependimentos. Muito do que disse, não deveria... E podia apagar, mas não apago. Serve de lembrança à mim mesma. Eu procurei as minhas falhas - encontrei muitas! - mas parei por aí. Não cabe a mim ditar o papel de cada um. Apontar o dedo na cara, como antes por capricho talvez fizesse, aumentar em um tom o timbre da voz, estufar o peito, me colocar mais alta, impor o que penso.
Não, não. Meu bem, vez ou outra a gente olha para dentro. E "de dentro", a mim, já basta o meu labirinto.

Então como fica você? Onde?

Você fica no doce do carinho. Eu não te esqueço.
Mas veja bem, isso não é uma cobrança, uma aposta. É mais um pedido: se for me esquecer, o faça aos pouquinhos!
Já não passa por aqui, eu sei. Mas depois que voltei a escrever quis que, pra variar, tua presença estivesse aqui de novo, ao menos mais uma vez.
Eu não sei o que nós fomos, o que nós somos, ou o que um dia (não)seremos. Mas queria que você soubesse que o que há de mais novo em mim não esquece o meu antigo, meu você.

A gente não conhece as pessoas, e nem se apaixona por elas. A gente se apaixona por idéias. E uma ideia atravessa horas, meses, anos, distâncias (tenho uma teoria toda nova sobre isso, acho que você ia gostar de ouvir!) para só depois - e somente se - morrer.
Agora, nos novos silêncios, só o que resta por vir. Na calmaria corrida dos meus dias o meu peito as vezes aperta numa falta que, fiquei até surpresa, só você me faz. O que foi já foi, e em retrospecto tudo ganha uma nova perspectiva.

Há quem tenha dito sempre, mas eu nunca digo nunca. As respostas estão dentro de nós. Você sabia?