Batia à minha porta quase todos os dias. Minha casa feita de palavras prendeu sua atenção, eu sei. E por isso passava. Nunca deixei ninguém entrar, só ele. Brincadeira perigosa, essa.
Depois de seu próprio lar, aqui era onde mais ficava, me disse.
As horas se arrastavam e assim iam os dias. Queria que ficasse, ah, como quis. Mas sempre ia. E não é esse mesmo o destino de todas as pessoas?
Ele era grande, e eu pequena. Talvez por essa razão nunca ficasse. Muros e espinhos cercavam seu corpo constantemente, era como uma fortaleza.
Ele ia, e eu ficava. Ali, sozinha. E sonhava acordada. As fotos dos castelos no livro faziam brilhar meus olhos: quanta beleza, majestade. Ele era o rei, o príncipe, a realeza, tão, tão longe de mim.
Em conversas confessava seus desejos: tinha tudo planejado daqui em diante. E nada tinha o poder de fazer com que mudasse de ideia.
Li, li, li outra vez. O que me entregou em mãos, fez para mim. Fez porque o primeiro tijolo do muro caiu. E eu acreditei.
Ele era um lobo, sozinho. E mentia desesperadamente para si mesmo. Sobre banalidades, sobre decisões. Mentia, e ainda mente. Para ver se alguém acreditava...
Ele acredita. E essa é a pior mentira. Vão ainda alguns anos para que descubra que esteve sempre errado.
Acostumei-me a conversar com ele olhando sempre para cima. Assustei quando me vi, ontem, olhando para baixo. Aquele homem de olhos tão tristes era antes impossível, e ali se encontrava ao alcance dos meus pés. Era pequeno, e eu grande.
Sabe, demorei tanto a me atirar do precipício com medo da queda, mas quando o fiz, não senti. Não encontrei o frio na barriga, o vento nos cabelos, a sensação de liberdade, o desejo por mais. Era uma queda e só. Um lago pequeno, a água fria, serena e vazia.
Ele foi um príncipe, um lobo, um castelo. Eu caí e me levantei, ele não sabia, não esperava. Agora ia para longe como o vento.
Guardei na memória o pouco que tinha. Agarrei com força aqueles pequenos momentos, as pequenas palavras, os pequenos olhares, e pensei na ironia: de um grande desafio me restaram pequenos pedaços dos quais não posso dizer que sentirei ao menos saudade.
Não sei mais se me visita. Eu não o visito mais. Se acreditou em palavras que de mim não vieram, o fez porque quis. Era uma pequena decepção, então ia embora.
Seu muro de concreto, percebi, nasceu de outras decepções. E o que é somente senão um pobre menino com dores? Feridas que faz questão de deixar abertas para que não se esqueça.
Desfaz os laços do meu doce presente sob a mesma desculpa da solidão. Outra grande mentira. Não vai saber o que foi porque tem medo, self idealista.
Põe para fora tudo o pensa, vomita letrinhas agoniadas. Tão enganado, e assim quer continuar.
Eu fechei as páginas ao final do livro e sorri, continuo sorrindo enquanto ele anda perdido e em silêncio, achando que sabe tudo sobre um mundo do qual nada entendeu.
Ele era um príncipe, um lobo, um castelo. Eu caí.
Ele é um lago frio e raso. Eu levantei: quero nadar no mar.

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