sábado, 21 de fevereiro de 2009

Por um momento

Ela escrevia e apagava, escrevia e apagava.
Talvez fosse besteira tentar pôr para fora tanto sentimento de uma vez só. Talvez fosse mais fácil escrever frases soltas que não teriam significado para mais ninguém além dela.
Por muito tempo ela não disse nada. Viveu um dia após o outro com sonhos que não eram dela. Quis ser arquiteta, médica, atriz. Quis morar na África e em Dubai, quis vender tudo o que tinha e ir para a Flórida treinar golfinhos.
E foi assim. Dia após dia, enchendo a si mesma de idéias de outras pessoas. Era só passar alguém por perto, e ela roubava aquele sonho para si. Extamente como uma criança enchendo a boca de bolo de chocolate, um pedaço logo após o outro, para não ter nenhum espaço entre eles onde ela pudesse gritar.
Quis ser diplomata, presidente, secretária. Quis morar em Londres e no Japão, quis comprar tudo o que via em sua frente.
Quis ligar para o psicólogo, quis se internar no hospício. Teve vontade de não tomar banho e só passar perfume, depois pensou em não passar perfume e só tomar banho.
Quis dar dois tapas em cada rosto de seus supostos amigos que acreditavam que todos os seus sorrisos eram reais.
Dormia, acordava. Dormia. Escrevia e apagava. Apagava.
Até que, de repente e muito rápido (quem piscou nem ao menos viu) ela olhou para cima.
Soube o tempo todo que à sua volta todos se moviam de um lado para o outro, frenéticos, em um ritmo peculiar e descompassado. Mas sabia também que por conta da correria e do barulho (ambos insuportáveis), ela podia se concentrar no silêncio que acabara de inundar seu corpo por completo.
O dia estava ensolarado, o céu azul e límpido. Não foram mais do que dois segundos ou foram mais ou menos duas décadas, tudo depende do relógio que se tem como referencial.
Então ela gritou. Alto e em bom tom. Ninguém de fora ouviu, ninguém prestou atenção. Mas ela gritou com todas as forças até que sua garganta doesse.
Pôs para fora todos os sonhos de seus conhecidos estranhos e de todos os estranhos conhecidos - mais rápido e melhor do que qualquer outra pessoa poderia ter feito - até ficar somente com os seus. E quando lá ficou, parada, sozinha, apenas com ela mesma (todos os outros tinham desaparecido) sentiu-se bem, livre, apesar de não ter certeza do que era exatamente ficar só.
Como num passe de mágica, nada mais naquele mundo sujo importava. Ela ainda queria ser um milhão de pessoas em uma só, mas dessa vez eram pessoas de seus próprios sonhos.
Tudo era claro assim como o céu que encarava. Vasto, imenso, cheio de tudo e ao mesmo tempo de nada. "Talvez eu possa filtrar toda essa existência em mim, organizar meus pensamentos, me organizar. Talvez eu não tenha que dormir, talvez eu não tenha que apagar..."
Mas antes que pudesse continuar imaginando a vida com a qual sempre sonhara, ouviu alguém chamar seu nome. Abaixou a cabeça e com ela seus olhos. Seguiu a voz e foi fazer o que ela pedia, pequenas coisas de uma rotina comum, obrigações de um dia-a-dia sem sal. O sorriso que antes se instalara em seu rosto com pretensão de não mais sair, agora não estava mais lá. Mas o brilho em seus olhos escuros e profundos, apesar de um pouco mais fraco, continuava.
Mesmo assim, ela continuou a roubar sonhos durante todo aquele dia. Continuou a destribuir sorrisos enquanto todos acreditavam neles, e fingiu que não era diferente de ninguém dali.
Chegou em casa, escreveu e apagou. Dormiu. Sentiu de novo o vazio de não saber para onde ir, o vazio de ir sempre para o mesmo lugar.
Quis ser estilista, professora, advogada. Quis morar na China, no México. Quis ter um milhão de jóias, quis não ter jóia nenhuma.
E por último, quis que todos os dias fossem dias de céu azul.