É engraçado. A vida arrasta as pessoas à lugares diferentes, e eu mudei tanto que é difícil acreditar. Se você me visse, se você voltasse...
Não sou mais aquela menina, mas ainda sou menina demais. Cavei até o fundo de mim e espremi umas tantas verdades, coisas que precisava saber. As respostas estão em nós, sabe?
No começo, confesso, apenas esperei. E fiquei esperando, sorrindo, chorando, aproveitando, suspirando, sofrendo. Entulhei os sonhos, a falta, a mágoa, os erros num canto do quarto e na mente vivi mil cenários para quando voltasse a ser eu.
Mas quem sou eu?
Eu, eu, eu...
Eu esperei a tua volta, as respostas, eu olhei para a porta. Mas no fim, ah, no fim, olhei para o espelho. As respostas estão dentro de nós, sabe?
E aquela menina... o nariz empinado, os ombros ajustados e os olhos afogados na dúvida do ser. O orgulho...
Talvez, se a gente se encontrasse numa dessas esquinas, numa livraria, numa loja qualquer... talvez você notasse a diferença em mim. Será que notaria?
Eu aprendi tantas coisas e, acima de tudo, o que ainda tenho que aprender. Não tenho mais a mesma pose, não sinto mais as mesmas dores: as substituí por novas. E por aí você anda, sabe Deus por onde, a trilhar novos passos e descobrir novos amores.
Mas eu quero te dizer, ao menos dessa vez, uma simples e única vez sem desejar nada em troca. Do fundo de quem eu sou, de todas as decisões que tomei e de quem eu ainda quero ser...
Quero te contar com a nitidez do que é puro e com a transparência da distância, deixar escrito o que realmente estou dizendo ao invés dos símbolos - só pra contrariar um pouco - então aqui vai:
Amor é uma palavra forte demais. Os poetas dela se apropriam porque fica bonita no papel. E eu, que condeno o seu uso casual, escrevo sobre nada mais do que a própria. Está em mim, na minha contradição, no meu ser que não sossega, não aquieta. Eu estou sempre indo, ainda que seja a lugar nenhum.
A vida é curta demais para arrependimentos. Muito do que disse, não deveria... E podia apagar, mas não apago. Serve de lembrança à mim mesma. Eu procurei as minhas falhas - encontrei muitas! - mas parei por aí. Não cabe a mim ditar o papel de cada um. Apontar o dedo na cara, como antes por capricho talvez fizesse, aumentar em um tom o timbre da voz, estufar o peito, me colocar mais alta, impor o que penso.
Não, não. Meu bem, vez ou outra a gente olha para dentro. E "de dentro", a mim, já basta o meu labirinto.
Então como fica você? Onde?
Você fica no doce do carinho. Eu não te esqueço.
Mas veja bem, isso não é uma cobrança, uma aposta. É mais um pedido: se for me esquecer, o faça aos pouquinhos!
Já não passa por aqui, eu sei. Mas depois que voltei a escrever quis que, pra variar, tua presença estivesse aqui de novo, ao menos mais uma vez.
Eu não sei o que nós fomos, o que nós somos, ou o que um dia (não)seremos. Mas queria que você soubesse que o que há de mais novo em mim não esquece o meu antigo, meu você.
A gente não conhece as pessoas, e nem se apaixona por elas. A gente se apaixona por idéias. E uma ideia atravessa horas, meses, anos, distâncias (tenho uma teoria toda nova sobre isso, acho que você ia gostar de ouvir!) para só depois - e somente se - morrer.
Agora, nos novos silêncios, só o que resta por vir. Na calmaria corrida dos meus dias o meu peito as vezes aperta numa
falta que, fiquei até surpresa,
só você me faz. O que foi já foi, e em retrospecto tudo ganha uma nova perspectiva.
Há quem tenha dito sempre, mas eu nunca digo nunca. As respostas estão dentro de nós. Você sabia?