Eu jurei que não ia mais escrever para ninguém, jurei de pés juntos. Minhas palavras causam, se nada, dor de cabeça. Quis ser livre para viver... viver sem me preocupar.
Mas pra onde é que foram as cores? Ah, aquela cidade, aquele lugar, aquele você. E eu que jurei que não ia mais escrever... Mas é claro que veio o destino, no seu manto rendado, me chamando pra rodopiar justo quando não queria levantar da cadeira.
Sabe o que é, moço? São as suas rendas de coincidências, de acasos, seu cheiro de rosas. E eu sinto, ah, eu sinto a dor por antecipação. Apaixonar-se é morrer. Doce e lentamente.
Então eu te condeno - você e seu cavalo branco - ao esquecimento. Condeno, condeno: cai nas graças do passado e fica sendo apenas uma lembrança embaçada meio amarga, pimenta, chocolate, mel.
Eles todos se foram, meu bem, e ficou no peito um buraco que às vezes arde de saudade. Mas se fosse pra voltar, não voltaria. Tudo nessa vida tem um tempo e um motivo, quero acreditar. E se naquele dia você cruzou o meu caminho com seu sorriso desarmado e seu olhar de menino eu já não me pergunto mais por quê.
Só sei que foi. As nuvens no céu, os aviões, as árvores, o sol, as cores de volta. Tudo o que eu já conheci.
E eu fico condenada, ah, eu me condeno: o seu cheiro, o seu jeito, o seu cabelo, suas idéias, os sorrisos que você arranca de mim, a sua voz de sono.
Eu quero te ligar, por que você não vem aqui? Eu fico brigando comigo mesma o tempo todo e é a pior briga que consigo ter com alguém, até você chegar e fazer minha memória trair tudo o que já aprendi.
Dói, dói tanto de raiva. A gente pensa que com o passar dos anos melhoram os pés cansados pois aprende-se onde não pisar... mas não.
Então eu te condeno por você não ser caco de vidro. Condeno por ser areia macia de praia no amanhecer, por me fazer deitar no chão e olhar para o céu, admirar a lua, por ser o meu primeiro pensamento do dia.
E eu que jurei não escrever, enquanto confesso ao vento a minha vontade pronta de ver você voando longe, me pego desejando não parar de dizer o teu nome.
Onde é que vai parar esse pretender, meu Deus? Onde é que termina esse querer desesperado?
É o que está por vir. Mas só não me mande esperar, eu imploro, que eu morro um pouco todo dia. Doce e lentamente.
