terça-feira, 8 de março de 2011

Confins

O tempo passa e a gente não vê, nem percebe.
Se ela pudesse arrancar do seu peito essa dor, arrancaria. Mas algumas dores nem o tempo cura, só deixa se acostumar. É um buraco na vida, bem conhece a sensação.
Ela, que dessa vida esburacada aprendeu a espremer palavras, esforça-se ao máximo e por fim se esgota, como quem retorceu cada pingo de si.
Enquanto isso ele está longe, de corpo e de alma. Os dias andam bambos, as certezas andam frouxas, mas assim vai. Sabe de quem está lá, lado a lado e cara a cara, ao alcance de um estender de braços. Mas e quem não está? Quem não está... como ela?
Ela cansou de escrever de amor mas é tudo o que pode dizer, é só o que sabe. Sabe espremer as palavras que ele tanto quis entender. Reclamou do fio cortante que tem, afiadas, assim como recebeu o afago que transmitem, macias, então no final tudo depende...
Agora ele está bem, rodeado de gente. Com esforço consegue esboçar um sorriso aqui e ali, e até gosta das coisas do jeito que estão. Ela está bem também, não tem mais tanta pressa e finalmente compreendeu algumas verdades, os dias estão mais fáceis.
Assim o mundo gira. Dois caminhos, duas escolhas, o que parece simples quando lido no papel. Mas às vezes ele pensa nela e ela pensa nele, talvez até ao mesmo tempo, e eles ficam se perguntando "e se?". E se eles fossem assim, plural?
Um quase-amor quando acaba parece pior do que um amor de verdade. É por causa dessa palavra, esse quase. Tudo repousa em seu quase-devido lugar - ele é ele, ela é ela - mas ainda no peito bate um vazio diferente, é melhor não pensar para não correr o risco.
"Você não vai se esquecer de mim". Pode tentar se convencer de que conseguiu, mas em algum segundo de silêncio a memória trai.
O que dói, dói pela falta. E algumas dores nem o tempo cura, só deixa se acostumar.