quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Como vai você

- Preciso começar fazendo uma confissão: o mundo me engoliu.
Lá estava eu, feliz, sem tempo. Tanta coisa pra fazer...
E era bom, sabe? Não pensar.

- Mas assim que tivesse cinco minutos para respirar, sentia o arrepio. Preciso, preciso escrever...

- É, mas veja só se não é engraçado, meus pensamentos são pesados e os minutos tem asas.
Passou, pequena, passou. Escreva a verdade dessa vez.
Você se agarra à coisas que não flutuam, e espera não se afogar?
O sentimento morre, e é sempre triste.

- Morre nele. Não em mim.

- Não, não. Não fale dele. Faça como você sempre fez, fique em silêncio.

- Mas vou escrever a verdade! Não ligo para o depois.

- Ninguém entende o que você diz. Vai dizer o que?
Vai falar de como aquelas horas felizes, com aquelas pessoas novas, falando de coisas fáceis da vida eram, na verdade, rasas? E aquelas mesas do bar, aquela gente sorrindo, aquelas luzes que não te deixam ver... Era pra não ver, mesmo. Não ver que esteve lá.
As pessoas são planas, pequena. Planas. E você é um abismo.

- Ele não era plano.

- Ele não está mais aqui. Por isso você mergulha em outros passados, almoça com um, compromete-se ao outro. E pensa que em algum lugar enquanto estava com eles sabia o que queria ser, aonde queria chegar, mas agora não sabe.
Nada, nada. Nada no nada. E fica boiando em velhas histórias, em livros por tempos esquecidos, em dedicatórias nas páginas amarelas, em doces coloridos. Mas o mundo é cinza.

- Eu olho pra cima todos os dias, na rua. Aqueles prédios, aquele céu, e logo sou pequena.
Eu não quero ficar, mas não quero fugir.
Sou um mistério que não consigo ler.
Cansei desse assunto, eu cansei de ser. Eles me fizeram esquecer quando o mundo me engoliu. Eu falava o tempo todo mas aquilo era silêncio.
E se ele voltasse, e se ainda sentisse? E se me salvasse?

- Você não quer ser salva. Você quer ser forte.

- Eu quero ser uma pessoa só. É isso que eu quero. Quero dormir antes das duas da manhã, quero falar o que penso. E respirar vida, como antes fazia, ter brilho nos olhos e alguém pra conversar. Quero perguntar "Como foi seu dia?", quero saber aonde é que ele está.

- Mas sabe de uma coisa? O mundo me engoliu.
E cá estou eu, sem tempo. Tanta coisa pra fazer...
E é bom, sabe? Não pensar.