domingo, 28 de fevereiro de 2010

Plantas, cachorros, passarinhos e dragões

Estou sentada no sofá azul. Ainda é cedo mas tenho a impressão de que longas horas já se passaram, é como se fosse já madrugada de outro dia.
Está chovendo lá fora... Não queria que os cachorros que de vez em quando passam por aqui se molhassem, mas as plantas precisam da água, então é bom que venha a chuva. Até ontem parecia tudo seco, tudo sol. Sabe quando o calor te faz enxergar tudo em ondas?
Ontem eu o procurei, também, mas já era noite então esse calor tinha cedido espaço à uma das gélidas brisas do desconhecido. Vai ver era porque ele não estava lá, vai ver essa era apenas mais uma impressão... Fiquei parada naquela mesma mesa, encarando o copo já vazio na esperança de que dali talvez saíssem algumas respostas, mas não saíram, não.
Hoje a porta está aberta. Pediram-me que a deixasse sempre fechada, mas eu os desobedeci. Deixo sempre minhas portas fechadas e veja aonde essa mania me trouxe: numa sala meio escura, num sofá azul, sozinha. Escuto barulhos vindos de longe mas nada consegue calar o som dessa chuva.
Há uns minutos vi um passarinho lá fora. Ficava pulando para lá e para cá, talvez procurando algo. Um outro chegou depois. Pularam juntos, então. Fiquei sem entender, por que pulavam quando podiam voar? Talvez fosse melhor pular junto com alguém do que voar sozinho...
A chuva acabou de ficar mais intensa. É como se antes o céu chorasse de dor e agora de raiva. Vejo a água escorrendo nas pedras do chão lá fora... Eu devia mesmo era fechar a porta, mas quero sair e me deixar molhar.
Ontem eu o procurei por toda parte, e é errado que não estivesse lá. Errado? Não, errado não é a palavra... Injusto é. Injusto que não estivesse lá porque qualquer coração que ainda bata no peito de quem vive espera. Qualquer um nesse planeta espera, ainda que não saiba pelo quê. E enquanto espera a mente libera esse dragão gracioso que chamam de Expectativa. E ali está você, esperando um dragão, quando a Realidade aparece e é apenas um pequeno lagarto, que quem sabe, se existir mesmo sorte, se transforme numa borboleta.
Consegue ver como "injusto" é a palavra? Uma borboleta não pode ser comparada à um dragão.
Preciso ter calma. Estou falando demais? Acho que é a chuva e a sala vazia. O que fazer nessas condições se não mastigar hipóteses?
Na parede, um majestoso relógio faz arrastar um pêndulo de um lado para o outro num ritmo peculiar, quase junto da chuva. Para lá e para cá, quase junto dos passarinhos. Eles saíram daqui, talvez agora estejam voando...
Amanhã tenho tantas coisas a fazer, e enquanto penso nas tarefas cansativas percebo um silêncio incomum. Foi a chuva que passou, que foi chover em outro lugar. Ficaram os tímidos pingos que caem do telhado, apenas. Logo as plantas estarão secas e os cachorros também.
Agora preciso só aprender a fechar a porta, a colocar meus dragões para dormir.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Até logo

Pedi para que me desse flores mas fiquei a desejar, você não conseguiu. E pedi pétalas macias de letras...
Desejei que ficasse, mas agora desejo...
Hoje nossos caminhos tomam rumos diferentes. Não sei o que despertei em sua alma confusa, talvez carinho, talvez paixão, talvez raiva.
Não fui para você o que você foi para mim, noites compridas a imaginar...
Antes não tinha controle sobre as palavras, que saíam furiosas procurando por você. Agora elas estão em silêncio.
Desejei que fosse, mas agora eu desejo...
Voltei para dizer que sua distinta elegância está impressa na memória (e li uma vez que o que a memória ama fica eterno).
Elegância em saber, em pensar, em andar, em dizer. Tanta, que não fui a única a perceber.
Quem sabe o futuro não reserva outros encontros? Quem sabe não sejam eles coloridos como os antigos? Você e suas paixões, eu e as minhas.
Ah, eu desejei que amasse, mas agora desejo...
Depois que o tempo passa é inútil procurar por erros. Talvez eu tenha voltado àquela velha mania de querer mais do que os outros têm a dar, talvez a minha intensidade seja maior do que a sua paciência, ela não cabe em qualquer lugar.
Ofereci elogios, críticas, brincadeiras. Letras. Que não foram suficientes. Mas não quis oferecer ofensas, portanto se dessa forma as entendeu, peço desculpas. Aprendi há algum tempo que algumas vezes é melhor abaixar a cabeça do que gritar, usar pretextos do que espernear.
Perdemos algumas cartas de infância mas ainda somos jovens, ah, somos. Jovens e ingênuos. E por mais que alegue ter tamanha maturidade, ainda vai se deixar enganar por pequenas besteiras da vida.
E quando isso acontecer, espero que você entenda seu lugar - nem mais alto e nem mais baixo, nem lá fora e nem no meio - e que, quando necessário, saiba se posicionar.
Sabe, eu desejei que dissesse, mas você nunca disse. Por isso, agora o que desejo são felicidades.
Espero que não se esqueça, que sempre cresça, mais e mais. E que tenha sorte. Muita, muita, muita sorte.