Vi com outros olhos aquela paisagem. Ali, naquele momento, tudo era diferente. Eu pensava em como tentei me ocupar com coisas fúteis, e como consegui.
Cada sorriso forçado, que de tanto aparecer, virou meu novo natural. E eu quis atirar nos outros antes que eu morresse aqui. Sair atirando, assim, só por atirar. Ir matando a todos com palavras - que são as únicas balas que eu conheço - justamente porque já morri por conta delas.
Essas coisinhas minúsculas, feitas de letrinhas miúdas, não precisam nem ser amoladas. São afiadas por si só. Nunca perdem seu poder, essas armas camufladas. Poder de sedução.
Mas o que posso fazer se elas são tudo o que tenho? Naquela hora, vendo o sol se escondendo tão longe, vi que talvez, só talvez, elas teriam sido minha salvação. Porém, por todo esse tempo tudo o que fiz foi apagá-las, mas essa não era a milagrosa solução que eu procurava. Quem sabe o segredo do sucesso – melhor dizendo, da sobrevivência – seja ser assim como “astro rei” e se esconder todos os dias. Exatamente da mesma forma que eu o via fazer agora. E ao contrário de evitar noites tão longas, abrir espaço para que elas venham.
Dei um passo depois do outro, bem devagar, tentando ignorar os gritos que sentia vindo de dentro. Eu não sei o que estava sendo dito, não escutei nenhum por inteiro. Há uma chance de que eles fossem súplicas, frenéticas e desesperadas. Ou podiam ser apenas meus defeitos.
Todo mundo tem defeito, eu sei. E não dava para ser um mecanismo perfeito, nunca deu. Mas diferente de todo o resto, do qual sempre erroneamente eu me ‘auto-retirava’, o meu defeito não era a falta de poesia e muito menos o excesso dela. O meu problema era minha poesia torta. Era o tamanho dessa intensidade louca, que de tão preenchida me levava ao vazio.
Estava ali, diante de mim, aquele anjo gracioso que só meus olhos viam. O meu anjo torto, vestido de preto, que sorria para mim. E não era de se estranhar que ele só sorrisse, afinal, para sorrir não se precisa de palavras, sorrir não faz nenhum som. E convenientemente tudo o que ele fazia, tudo o que eu queria, era silenciar o mundo.
Tive vontade de abraçar quase todas as pessoas que conhecia (eu queria agradecer por terem atenciosamente tentado descobrir o que havia de errado comigo) e quis mandar para o espaço a maioria delas, por terem ignorado o simples e evidente fato de que o que há de errado comigo é uma pessoa chamada Eu.
Eles nunca adivinharam, coitadinhos, que no fundo de mim mora uma pessoa egoísta, profunda e com mania de superioridade, além da capacidade de compreensão de todos nós (e eu estou me incluindo nesse “todos”). Ela mora em algum lugar que não conheço, eu só sinto. E ela acha que sabe falar inglês também.
Eu podia ouvir a voz dessa pessoa enquanto me aproximava do último passo. Ela não queria sofrer, pelo menos não esse sofrimento. Sempre reclamou, aos berros, suas dores para mim, já que ninguém mais podia ouvir como ela não suportava essa invenção maldita chamada dor. Então ela gritava, ou tentava gritar, pois seu nervosismo histérico a impedia de completar qualquer frase. E eu ouvia, bem de longe, mas mesmo assim nitidamente, o seu desespero egoísta e sensível à dor dizendo em inglês “I... I...I...” (lê-se “ai, ai, ai”)
Resolvi que nada valia a pena e que era melhor sair correndo e apenas se jogar. Covarde que sou, não o fiz. Parei bem no limite, onde um suspiro leva a um escorregão e um escorregão leva ao tudo. Ou ao nada, depende do ponto de vista.
E por falar em vista, que vista bonita era aquela, uma opção e tanto a se considerar quando pensamos qual é a última coisa que desejamos ver. Mas tanto verde e tanta imensidão, na verdade só faziam com que eu me sentisse pequena, e com que, junto a esse sentimento que vinha subindo dentro de mim, viesse também uma arrebatadora vontade de que a última coisa que meus olhos vissem fosse o rosto de alguém.
Deixei de lado. Não fazia diferença mesmo, até porque eu estava decidida e de forma alguma voltaria atrás. Literalmente.
Fechei os olhos devagar, fui inclinando meu corpo para frente e tentei não pensar no medo que senti da altura daquele penhasco. Pelo menos eu ia experimentar como era voar, e aquele voar era diferente de todos. Era único, era livre. E por conta dessa liberdade, enquanto sentia o vento forte contra o meu corpo inteiro, senti também todas as minhas nuvens negras se dissipando numa onda de calor. De repente nada mais importava. Essa era, com certeza, a melhor sensação do mundo.
Eu sei que amanhã vou acordar cedo, o meu sono nunca mais conseguiu ser pleno e tranqüilo. Vou vestir meu melhor Eu e vou tentar pôr um brilho nos olhos.
Mas talvez à noite eu me jogue de novo.
Cada sorriso forçado, que de tanto aparecer, virou meu novo natural. E eu quis atirar nos outros antes que eu morresse aqui. Sair atirando, assim, só por atirar. Ir matando a todos com palavras - que são as únicas balas que eu conheço - justamente porque já morri por conta delas.
Essas coisinhas minúsculas, feitas de letrinhas miúdas, não precisam nem ser amoladas. São afiadas por si só. Nunca perdem seu poder, essas armas camufladas. Poder de sedução.
Mas o que posso fazer se elas são tudo o que tenho? Naquela hora, vendo o sol se escondendo tão longe, vi que talvez, só talvez, elas teriam sido minha salvação. Porém, por todo esse tempo tudo o que fiz foi apagá-las, mas essa não era a milagrosa solução que eu procurava. Quem sabe o segredo do sucesso – melhor dizendo, da sobrevivência – seja ser assim como “astro rei” e se esconder todos os dias. Exatamente da mesma forma que eu o via fazer agora. E ao contrário de evitar noites tão longas, abrir espaço para que elas venham.
Dei um passo depois do outro, bem devagar, tentando ignorar os gritos que sentia vindo de dentro. Eu não sei o que estava sendo dito, não escutei nenhum por inteiro. Há uma chance de que eles fossem súplicas, frenéticas e desesperadas. Ou podiam ser apenas meus defeitos.
Todo mundo tem defeito, eu sei. E não dava para ser um mecanismo perfeito, nunca deu. Mas diferente de todo o resto, do qual sempre erroneamente eu me ‘auto-retirava’, o meu defeito não era a falta de poesia e muito menos o excesso dela. O meu problema era minha poesia torta. Era o tamanho dessa intensidade louca, que de tão preenchida me levava ao vazio.
Estava ali, diante de mim, aquele anjo gracioso que só meus olhos viam. O meu anjo torto, vestido de preto, que sorria para mim. E não era de se estranhar que ele só sorrisse, afinal, para sorrir não se precisa de palavras, sorrir não faz nenhum som. E convenientemente tudo o que ele fazia, tudo o que eu queria, era silenciar o mundo.
Tive vontade de abraçar quase todas as pessoas que conhecia (eu queria agradecer por terem atenciosamente tentado descobrir o que havia de errado comigo) e quis mandar para o espaço a maioria delas, por terem ignorado o simples e evidente fato de que o que há de errado comigo é uma pessoa chamada Eu.
Eles nunca adivinharam, coitadinhos, que no fundo de mim mora uma pessoa egoísta, profunda e com mania de superioridade, além da capacidade de compreensão de todos nós (e eu estou me incluindo nesse “todos”). Ela mora em algum lugar que não conheço, eu só sinto. E ela acha que sabe falar inglês também.
Eu podia ouvir a voz dessa pessoa enquanto me aproximava do último passo. Ela não queria sofrer, pelo menos não esse sofrimento. Sempre reclamou, aos berros, suas dores para mim, já que ninguém mais podia ouvir como ela não suportava essa invenção maldita chamada dor. Então ela gritava, ou tentava gritar, pois seu nervosismo histérico a impedia de completar qualquer frase. E eu ouvia, bem de longe, mas mesmo assim nitidamente, o seu desespero egoísta e sensível à dor dizendo em inglês “I... I...I...” (lê-se “ai, ai, ai”)
Resolvi que nada valia a pena e que era melhor sair correndo e apenas se jogar. Covarde que sou, não o fiz. Parei bem no limite, onde um suspiro leva a um escorregão e um escorregão leva ao tudo. Ou ao nada, depende do ponto de vista.
E por falar em vista, que vista bonita era aquela, uma opção e tanto a se considerar quando pensamos qual é a última coisa que desejamos ver. Mas tanto verde e tanta imensidão, na verdade só faziam com que eu me sentisse pequena, e com que, junto a esse sentimento que vinha subindo dentro de mim, viesse também uma arrebatadora vontade de que a última coisa que meus olhos vissem fosse o rosto de alguém.
Deixei de lado. Não fazia diferença mesmo, até porque eu estava decidida e de forma alguma voltaria atrás. Literalmente.
Fechei os olhos devagar, fui inclinando meu corpo para frente e tentei não pensar no medo que senti da altura daquele penhasco. Pelo menos eu ia experimentar como era voar, e aquele voar era diferente de todos. Era único, era livre. E por conta dessa liberdade, enquanto sentia o vento forte contra o meu corpo inteiro, senti também todas as minhas nuvens negras se dissipando numa onda de calor. De repente nada mais importava. Essa era, com certeza, a melhor sensação do mundo.
Eu sei que amanhã vou acordar cedo, o meu sono nunca mais conseguiu ser pleno e tranqüilo. Vou vestir meu melhor Eu e vou tentar pôr um brilho nos olhos.
Mas talvez à noite eu me jogue de novo.
