Querido Eu Profundo,
Você uma vez me disse que voltaria logo. Mas isso não aconteceu e essa sua demora me mata um pouco mais a cada dia.
Então eu decidi que ia escrever para você - outra vez - uma carta em papel reciclado, para ver se o meu ânimo se empolga e também se recicla.
Depois vou colocá-la em um envelope cor-de-rosa, só porque você detesta. E vou colar nele um coração vermelho, só para ter alguma coisa que você odeie mais do que o envelope.
Quem sabe aí você não presta atenção em mim, exatamente a mesma pessoa que você abandonou, no mesmo lugar, do mesmo jeito. Vou escrever seu nome com uma daquelas canetas que brilham e colocar “Sei-lá-onde” no endereço do destinatário. Tudo isso para que você descubra o meu esforço todo ao contrário, para que veja primeiro o que fiz por último e vice-e-versa.
Todos esses disfarces, tudo em vão. Só para dizer para você que os dias por aqui andam difíceis.
Para confessar a você, meu melhor amigo, que sinto saudades, e dizer a você, meu pior inimigo, que algumas vezes desejei que você não voltasse nunca mais.
Eu me cerquei de gente nova “para passar o tempo”, como você mesmo disse. E me fantasiei do meu melhor sorriso para dar uma volta pela rua, porque você disse que talvez fosse doer menos se eu me distraísse. Acontece que não funcionou muito bem. Ainda sinto o tempo todo esse vazio dentro de mim, que coisa ou pessoa alguma consegue preencher.
Esse buraco enorme sem sentido e sem razão de ser, essa sensação que beira o surreal. Agora eu tenho que conviver com todos os meus fantasmas como se fossem vasos de flores, carpetes, lâmpadas no teto. E vivo esbarrando neles quando decido sair de casa.
Eu quero que essa dor morra. Quero que queime dentro de mim o máximo que puder para depois explodir numa onda infinita de libertação. Anseio que grite tão alto a ponto de quebrar os vidros, apenas para contrastar com os meus berros mudos.
E depois quero que vá embora com o vento. Que me deixe aqui sozinha com o nada, uma tela em branco, mente vazia, para ser tudo o que quis ser e não pude, o que ainda quero ser e não consegui.
Estimo que essa dor morra para que eu descubra - nas marcas que vai deixar em mim – quem sou eu, do que sou feita. Para decidir se alguma daquelas máscaras pode ser a verdadeira.
Sei que você não é capaz de resolver essa questão sozinho e que também não alcança a resposta dessa busca utópica do que somos, mas achei que talvez pudesse me encontrar algum dia desses para decidir, finalmente, se a pessoa sorridente nas fotos é a mesma das madrugadas frias. Quem sabe você não conhece a cura desse nosso mal de não saber para onde ir, não acreditar nas pessoas e se recusar a admitir as velhas lágrimas.
Viver por aqui dividida não é fácil, eu quero que saiba. Toda vez que alguém me olha daquele jeito estranho de admiração, eu só consigo pensar como seria o mundo se pudéssemos ver o lado de dentro das pessoas.
Foi por isso que decidi te escrever. Porque você está cada vez mais distante e quiçá por conta desse fato conheça verdades de outras partes do planeta, que porventura expliquem e até possam nomear esse sentimento esquivo.
Fica registrada aqui, então, a minha súplica por qualquer tipo de redenção, qualquer esperança (viva ou morta) dos tais dias coloridos que as pessoas tanto falam, mas que na verdade eu nunca vi.
Atenciosamente,
Eu
Obs: É bom que fique claro que, se dessa vez não houver resposta, o próximo envelope será verde-limão.
Você uma vez me disse que voltaria logo. Mas isso não aconteceu e essa sua demora me mata um pouco mais a cada dia.
Então eu decidi que ia escrever para você - outra vez - uma carta em papel reciclado, para ver se o meu ânimo se empolga e também se recicla.
Depois vou colocá-la em um envelope cor-de-rosa, só porque você detesta. E vou colar nele um coração vermelho, só para ter alguma coisa que você odeie mais do que o envelope.
Quem sabe aí você não presta atenção em mim, exatamente a mesma pessoa que você abandonou, no mesmo lugar, do mesmo jeito. Vou escrever seu nome com uma daquelas canetas que brilham e colocar “Sei-lá-onde” no endereço do destinatário. Tudo isso para que você descubra o meu esforço todo ao contrário, para que veja primeiro o que fiz por último e vice-e-versa.
Todos esses disfarces, tudo em vão. Só para dizer para você que os dias por aqui andam difíceis.
Para confessar a você, meu melhor amigo, que sinto saudades, e dizer a você, meu pior inimigo, que algumas vezes desejei que você não voltasse nunca mais.
Eu me cerquei de gente nova “para passar o tempo”, como você mesmo disse. E me fantasiei do meu melhor sorriso para dar uma volta pela rua, porque você disse que talvez fosse doer menos se eu me distraísse. Acontece que não funcionou muito bem. Ainda sinto o tempo todo esse vazio dentro de mim, que coisa ou pessoa alguma consegue preencher.
Esse buraco enorme sem sentido e sem razão de ser, essa sensação que beira o surreal. Agora eu tenho que conviver com todos os meus fantasmas como se fossem vasos de flores, carpetes, lâmpadas no teto. E vivo esbarrando neles quando decido sair de casa.
Eu quero que essa dor morra. Quero que queime dentro de mim o máximo que puder para depois explodir numa onda infinita de libertação. Anseio que grite tão alto a ponto de quebrar os vidros, apenas para contrastar com os meus berros mudos.
E depois quero que vá embora com o vento. Que me deixe aqui sozinha com o nada, uma tela em branco, mente vazia, para ser tudo o que quis ser e não pude, o que ainda quero ser e não consegui.
Estimo que essa dor morra para que eu descubra - nas marcas que vai deixar em mim – quem sou eu, do que sou feita. Para decidir se alguma daquelas máscaras pode ser a verdadeira.
Sei que você não é capaz de resolver essa questão sozinho e que também não alcança a resposta dessa busca utópica do que somos, mas achei que talvez pudesse me encontrar algum dia desses para decidir, finalmente, se a pessoa sorridente nas fotos é a mesma das madrugadas frias. Quem sabe você não conhece a cura desse nosso mal de não saber para onde ir, não acreditar nas pessoas e se recusar a admitir as velhas lágrimas.
Viver por aqui dividida não é fácil, eu quero que saiba. Toda vez que alguém me olha daquele jeito estranho de admiração, eu só consigo pensar como seria o mundo se pudéssemos ver o lado de dentro das pessoas.
Foi por isso que decidi te escrever. Porque você está cada vez mais distante e quiçá por conta desse fato conheça verdades de outras partes do planeta, que porventura expliquem e até possam nomear esse sentimento esquivo.
Fica registrada aqui, então, a minha súplica por qualquer tipo de redenção, qualquer esperança (viva ou morta) dos tais dias coloridos que as pessoas tanto falam, mas que na verdade eu nunca vi.
Atenciosamente,
Eu
Obs: É bom que fique claro que, se dessa vez não houver resposta, o próximo envelope será verde-limão.
