segunda-feira, 26 de maio de 2008

Capricho

Eu te vi lá de longe. Bem longe.
Mais um pouco e meus olhos já não alcançariam a sua pose despreocupada de menino levado. Eu não ia ver sua camisa nova, não ia conseguir analisar o seu andar exagerado e contraditório de quem quer ser visto mas no fundo só quer se esconder.
Mas eu reconheci seu sorriso. E o seu olhar meio de lado que sempre quis dizer alguma coisa que eu nunca consegui entender.
No meio da multidão. Entre pessoas que já conheço, que ainda vou conhecer e algumas que finjo que esqueci.
Eu não tenho nada a dizer, e muito menos você. Mas o fato é que tive que conter a minha vontade de correr para conversar contigo, mesmo que tudo que saísse da minha boca fosse apenas um mero "olá". Senti um desejo disfarçado de ansiedade subindo e descendo dentro de mim, e me dei conta de que é assim quando você está perto: eu sinto arrepios loucos que esperam que algo aconteça - e não importa o quê.
Aí você me olhou. Diferente. E tivemos aquela conversa rápida (que aparenta durar uma eternidade) sobre coisas superficiais, como se fôssemos outras pessoas que não conhecem a intimidade de um beijo.
Você continuou falando, e metade do que disse eu até escutei. Mas durante a outra metade eu me concentrei naquela figura de nós dois, antes tão notória e agora tão ignota.
Antigamente, eu podia escutar a sua voz por horas e horas e ainda assim não me dar por satisfeita. Era parte do charme esquisito que tínhamos juntos, dois protagonistas de um "quase-amor" descrito num texto pobre em vocabulário e com erros de pontuação, porém muito rico em idéias.
Mas ali você falava de outra forma. Talvez esse fosse o resultado da influência das outras pessoas que ocuparam a posição em que um dia estive, afinal, eu sempre soube que não ficaria lá para sempre. Outras meninas, outras mulheres, que, por mais puras e imaculadas que fossem, não desistiam de deixar sobre você um manto sujo de rastros do passado que jamais se apagam.
Quis jogar tudo para longe, e limpar toda a imundície de quem pôde ter você depois de mim.
Mas seria inaceitável. Eu já tenho para quem voltar, já tenho ombros onde posso chorar e companhia para meus momentos felizes - desde pequenos sorrisos até escandalosas risadas - então eu fui embora, mesmo querendo ficar.
Eu não faço a menor idéia da razão pela qual ainda me importo com a sua existência, ou o porquê dos meus pensamentos terem - temporarimente - um "novo" dono. Eu só achei que você merecia um texto renovado, para que eu não me esquecesse de que ainda que continue sem palavras perfeitas e pontos no lugar certo, sempre me mata de saudade quando, por ironia do destino, me encontro diante dele e de suas vírgulas que, ainda que postas em lugares totalmente errados, nunca pareceram tão corretas.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Abra as janelas

Você não chorou essa semana. Não derramou nenhuma gota d'água dos olhos mas também não sorriu nenhuma vez. Você nunca foi assim, uma pessoa que acorda de manhã, abre as janelas e sente a alegria tomar conta de seu corpo quase como se pudesse vê-la, como se fosse tão óbvia quanto os raios de sol.
Você não deixa a luz entrar, eu sei. E quando abre a janela é só para deixar o vento e o frio tomarem conta do quarto e eventualmente de você. Porque se chegar a ser tão fria como uma mesa, os quadros, ou até uma cadeira, talvez consiga acreditar que pertence a algum lugar, um quarto de um alguém que se esconde nos travesseiros quando o dia não dá certo. Mas tal situação resultaria em uma certa intimidade, e é por isso que você deseja ser parte da decoração: para sentir coisas que apenas mesas, quadros e cadeiras sentem.
Mas tudo isso é inútil. Todo o frio que entra não é suficiente para assassinar o calor que a dor emite. Então você tenta de novo e de novo, sem se conformar com a humanidade desajeitada que mora em algum lugar aí dentro.
Você não gritou nesses últimos dias. Falou poucas palavras em baixo tom de voz, querendo dizer que a escassez do ânimo para conversar era a mesma escassez da vontade de sair na cama.
Aí você continuou fingindo, presa no meio de todos esses seus casulos, feito uma lagarta escondida que se sente desajustada demais para permanecer no mundo.
Você tem cólicas de desejo, eu sei. Que são um misto louco de toda a raiva, a dor, as surpresas, a repetição. E você sente espinhos em uma quantidade tão imensa que as flores não compensam.
Enquanto isso, eu continuo querendo te levar para passear num dia claro e te afogar em um conto-de-fadas (mesmo que estes não passem de mentiras feitas para amenizar o desespero). Eu compro presentes, te dou chocolate, mas parece que nada do que eu faço adianta. É como se não bastasse dizer que vai passar, dessa forma tão ordinária e tão fácil. Como se nenhuma das descargas elétricas de vivacidade pudesse fazer bater de novo um coração mortalmente ferido.
Nesse caso, decidi que vou te deixar assim mesmo, raptada pela força desses desencontros e cega de melancolia, no sono profundo da perda da razão e do controle.
Só não pense você que eu desisti, porque isso é mentira. A verdade é que eu sei que em algum momento você vai olhar só para as flores e esquecer os espinhos, vai destruir seu casulo, afinal, um dia toda lagarta vira borboleta.
Nesse dia, eu vou rir de contentamento enquanto observo você abrir os olhos, e depois abrir as asas.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Ermo

Hoje abri a minha gaveta do passado. Literalmente.
Encontrei nossos bilhetes, nossas neuroses, nossos amores e nossas brigas. Achei, no meio daquele amontoado de papéis antigos e palavras que eu não lembrava mais que existiam, uma foto. Nossa foto. Ao lado das suas declarações de 'amor inalterável'... até o dia seguinte.
Quando não pude mais aguentar, rasguei metade do que tinha lá, e a outra metade guardei rapidamente. Apoiei a cabeça na cadeira e olhei para o teto, que na verdade era o nada, e assim fiquei por alguns minutos.
Está frio lá fora... não há ninguém em nenhum lugar e tudo está congelando.
Mas eu não sinto nada. Nenhum arrepio glacial, nenhuma brisa gélida. E não sei se isso é saudade, ou alívio.
Num instante qualquer, em meio ao silêncio que aos poucos se espalha pela madrugada, a realidade veio correndo e encontrou meu corpo e minha mente (em uma das poucas vezes em que estavam juntos): você é como um dos textos que escrevo. Eu começo de um jeito e sempre acabo mudando de idéia, fugindo do assunto. Aí não faz sentido. Eu morro de vontade de te deixar assim, pela metade, e por vezes consigo.
Vivo bem, contigo no meio de todos os outros textos esquecidos, sem fazer a menor diferença. Porém, toda vez que te vejo - na maioria das vezes só com o canto dos olhos, para que você não perceba que eu ainda te admiro - você até me parece bonito em suas linhas tortas, na confusão de seus temas, mas acabo vendo que não tem fim definido, um ponto final.
Então fica faltanto um pedaço, uma parte, algumas sílabas, qualquer coisa. São palavras presas ao nó que temos na garganta, que ora parecem inestimáveis e de suma importância, ora parecem fúteis demais.
Eu quero ser uma pessoa realista. Todo dia, nem que seja só um pedacinho dele, eu sinto sua falta, e me dói no fundo da alma a comparação do que éramos antes e do que somos agora, mas eu não posso voltar. Não há nenhuma chance de que eu vire os meus calcanhares para o futuro que me espera sem você por perto e volte todo o caminho que fiz até aqui só para te buscar.
Portanto, escrevo nessas linhas rebuscadas o último suspiro do Eu que ainda acredita que não está tudo perdido.
E apesar de correr o risco de não fazer o menor sentido, permito-me lembrar de você uma última vez, escrever mais algumas idéias, sentir mais um pouco de angústia e depois deixar assim, eternamente incompleto.